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O jornalista de rádio e colaborador da Esquina do Tempo, Carlos Filipe Fernandes Gonçalves, num longo artigo polémico, aqui editado em duas partes, posiciona-se em relação a O Legado de Nhô Filili, de Luís Urgais.

 

João Bento Rodrigues de Abreu Fernándes
 

1- O Legado de Nhô Filili – Falhas e erros, um insulto a pessoas falecidas

 

“O Legado de Nho Filili” é um livro lançado recentemente em Portugal, é apresentado em nota na contracapa como um “romance histórico” que tem por cenário o arquipélago de Cabo Verde entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século 20. A mesma nota explica também que é “uma metáfora da história da mestiçagem biológica e cultural e da génese dos movimentos das Independências das Colónias.”

 

Esta descrição provoca imediatamente o interesse de qualquer cabo-verdiano e também de qualquer pessoa interessada ou leitor aficcionado. Nada mais falso! Este livro está cheio de erros cronológicos, alegações falsas e pormenores que constituem erros grosseiros em relação à história de Cabo Verde ou das ex-Colónias frustrando um objectivo que pomposamente este livro anuncia. E para quem conhece um pouco de Cabo Verde, salta à vista a utilização de nomes verdadeiros de pessoas, para os personagens, como é o caso de Armando Napoleão Fernandes, que é imediatamente reconhecido devido a uma alusão ao seu Dicionário do Crioulo, uma obra de referência.

 

O autor Luis Manuel de Sousa Peixeira, assume-se como o narrador que conta a vida de Nhô Filili e sua família e pelo meio faz uma mistura sem nexo de diversos acontecimentos alguns verdadeiros, o que denota que, o autor ouviu de alguém uma série de informações que coligiu e depois utilizou para escrever este livro, mas sem uma verificação do contexto, confirmação de fontes e confrontação de datas. Resumindo falta de pesquisa e informação!

 

Assim, quem inicia a leitura deste livro, após algumas dezenas de páginas, tem uma sensação de futilidade, lá pelo meio os erros são tão crassos e grosseiros, que dá vontade de desistir e quem se aventura até ao fim, encontra uma verdadeira paródia aos estudantes da Casa do Império em Lisboa, muitos dos quais viriam a ter protagonismo nas Lutas de Libertação e Independências das ex-colónias. O grande defeito deste livro é a sua pretensão de contar uma história épica que se estende por um período de mais de 70 anos de uma forma até certo ponto ligeira.

 

2 - O Legado de Nhô Filili – utilização do nome de pessoas falecidas

 

María Odete Fernándes Câmara, João Bento Rodrigues de Abreu Fernándes, Ermelinda Amélia Fernándes, Manuel Fernándes Câmara, Dormovil Agostinho Câmara, Estefânia Fernándes Câmara, Alberto Fernándes Câmara e Eduarda Fernándes Câmara

 

Como referimos anteriormente, o autor utilizou o nome verdadeiro de pessoas falecidas para os personagens do romance. Não podemos deixar de dizer que é pura ingenuidade escrever uma ficção utilizando para os personagens nomes verídicos, de pessoas que realmente existiram.

 

O autor Luis Peixeira utilizou para os seus personagens, nomes verdadeiros de pessoas, tais como, João Bento Rodrigues de Abreu Fernandes (pág. 7 e outras), que de facto era conhecido por Nhô Filili. Note-se que é uma tradição em Cabo Verde as pessoas para além do nome de registo (civil) terem e serem conhecidas pelo que se chama “nome de terra”. Também, se refere a Margarida Gomes Fernandes (pág. 17 e outras) que foi a esposa de João Bento Rodrigues de Abreu Fernandes, aos filhos deste casal, Armando Napoleão (Rodrigues Fernandes) na página 119 e outras, Leonilde Amélia Fernandes (Ticha), Ermelinda Fernandes (Nenó) e Virgílio Alberto Fernandes, cujos “nomes de terra” entre parêntesis estão certíssimos (pág. 125 e outras). Em relação aos nomes próprios verdadeiros, dos filhos de João Bento Fernandes, o autor apenas fez uma Ligeira troca, pois a primeira (Ticha) é Leonilde Alice (e não Amélia) Gomes Rodrigues Fernandes e a segunda (Nenó) é Ermelinda Amélia Gomes Fernandes. Nho Filili teve ainda outra filha, Drucila Augusta Gomes Rodrigues Fernandes (Nhanha) que não foi mencionada no livro. Atenção: existem todos os documentos que provam esta alegação, nomeadamente Certidões de Nascimento e de Óbito e até existem fotos de todas essas pessoas.

 

Ademais, sobre esta família, o autor apresenta alguns atributos que a referenciam e identificam, tais como uma casa na zona da Bateria na cidade da Praia, Cabo Verde e uma propriedade chamada “Galo Canta” em Santa Catarina, concelho desta ilha de Santiago, Cabo Verde.

 

3 – O Legado de Nho Filili – uma falsa biografia e uma escrita de mau gosto

 

Este livro “O Legado de Nho Filili” apresentado na capa como um romance histórico, sugere imediatamente para quem pertence ou é descendente da família Rodrigues Fernandes, uma biografia da referida família. Mas, depressa quando se lê o livro, somos surpreendidos pela forma como descreve e qualifica as referidas pessoas, o que não corresponde à realidade, nem à verdade histórica, que supostamente deveria ser, cf. referido na contracapa. Ficamos surpreendidos pela forma infantil (o melhor termo será do francês “naïve”) como o autor tratou uma história em parte verdadeira.

 

Para além disso, o livro tem uma escrita de mau gosto, com conotações racistas que nada têm de científico na explicação de uma pretensa realidade histórica. É que cingindo à realidade histórica, nada mais natural que frases e raciocínios racistas estivessem na boca dos personagens, uma vez que era aquela a realidade da época. Mas, neste romance, as afirmações e apreciações de índole racista e outras de menosprezo são feitas pelo próprio autor na qualidade de narrador. Eis alguns exemplos: “Ainda menino, quem o quisesse ver feliz era enfia-lo no colo das pretas” (pág. 12) ou “Com vinte e tal anos, nem uma só vez se deixara seduzir por um corpo de mulher branca” (pág. 13). É pois neste tempo presente e assumido que o narrador ou seja, o autor, faz diversas apreciações aos personagens deste romance, algumas, de caracter depreciativo e insultuoso como por exemplo, “Ser director da Alfandega era, de resto, sinónimo de enriquecimento rápido, embora perigoso” (pág. 20).

 

Mas, o cúmulo dos insultos e difamação que como narrador faz o autor Luiz Peixeira, são as referências em relação a Armando Napoleão Fernandes e à irmã Leonilde Amélia Fernandes (Ticha), ambos filhos de João Bento Rodrigues Fernandes.

 

Ao primeiro, chama de “mulherengo” (pág. 157) e mais à frente escreve e citamos, “o rapaz, apesar de muito esperto, não tinha paciência para os estudos e quem o quisesse ver feliz era atrás das negritas e criadas” (pág. 159), ou então, “Napoleão fazia (…) de mulher de casa toda e qualquer rapariga que lhe agradasse. Era frequente levar uma para a fazenda para logo a substituir por outra. E assim a filharada fora aumentado, tal como a sua fama de mulherengo, que já cruzava as ilhas.” E pior ainda, “Napoleão foi obrigado a reconhecer os filhos de várias mulheres, alguns quiçá indevidamente” (pág.182).

 

Para além disso, o autor deste romance lança uma mancha sobre a honestidade e bom nome, de Armando Napoleão Fernandes, quando escreve “(…) toda a gente tinha o Armando como o verdadeiro proprietário das terras. Consultando então os registos na conservatória, verificou que todos os seus bens (de João Bento Fernandes) estavam agora, efectivamente, em nome do filho (Armando) que os usurpara em seu proveito (…). Napoleão se servira da sua posição de causídico para fabricar uma procuração falsa (…).” (pág. 192). E nesta mesma linha escreve ainda: “Napoleão (…) fazendo-se também de médium para extorquir dinheiro aos mais incautos (…)” (pág. 194).

 

Quanto à irmã, Leonilde Fernandes (Ticha), as apreciações primam pela falta de respeito e desprezo para com a mulher, quando escreve (pág. 157) “(…) ora desaparecia e ninguém sabia dela, ora chegava arrastada pelo braço do irmão mais velho, que a apanhava enrolada com um rapaz diferente todos os dias.” Ou então, “Ticha – (…) às vezes evaporava-se com a desculpa de ir visitar o abade da Cidade Velha para se encontrar com rapazes” (pág. 166). Mas o pior é a seguinte frase: “As pessoas tinham Ticha em tão má conta que diziam na rua que ela não tinha outro remédio senão abrir mão de uma boa quantia para que o homem se deitasse com ela” (Pág. 181). (Continua)

 

- Carlos Filipe Fernandes Gonçalves, Praia

 

 

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3 comentários

De Carlos Filipe Gonçalves a 13.10.2012 às 11:34


Uma fotografia vale mil palavras... A foto completa o texto e invalida  qualquer justificação do autor do livro, como as que foram publicadas no post da carta da minha irmã, Fatima Fernandes Ramos Lopes. Se juntarmos as declarações do autor em 2007 à grande jornalista Otília Leitão, está pois provado para o grande publico que a familia Rodrigues Fernandes tem razão. A falta de comentarios até agora ilustra que os visitantes deste bolg, já não têm nada a dizer. Afinal, quem cala consente. Por isso imploramos ao autor deste livro e que que já fez "mea culpa" que assuma as suas responsabilidades: retire este livro do mercado, faça uma revisão e volte a publica-lo, pois o seu romance pode vir a ser um sucesso... Se quiser a nossa colaboração com sugestões, estamos disponiveis e sem nenhum rancor. A editora deste livro, deve colaborar com o autor na busca de uma solução e evitar que sejamos obrigados a recorrer aos tribunais. Como pessoas civilizadas a viver em Estados de Direito, Cabo Verde e Portugal, é possivel resolver uma questão com um "gentleman agreement" vamos todos sair a ganhar. Pensem nisso, o autor deste livro e a editora.

De Brito-Semedo a 18.10.2012 às 21:21

O lançamento do romance O Legado de Nhô Filili foi notícia na TCV. Conferir aqui - http://videos.sapo.cv/1P2mkpWBj3Bnaa7SwzGJ#share
O autor insiste na sua versão de "mera coincidência" com a realidade. Cada vez que ele diz alguma coisa para se defender, afunda-se mais.

De Brito-Semedo a 22.10.2012 às 22:32

A família Fernandes insurge-se contra o autor de O Legado de Nhô Filili -

http://www.rtc.cv/index.php?paginas=45&id_cod=21644

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