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Fotografía Familiar (De pé, da esquerda para a  direita): Leonilde Alice Gômes Rodrigues Fernandes "Tixa", Drucila Augusta Gômes Rodrigues Fernandes "Nhanha" , Ermelinda Amélia Gômes Fernándes "Neno". (Sentados): Virgilio Alberto Gômes Rodrigues Fernandes, Margarida Gômes "Guida" e Armando Napoleão Rodrigues Fernandes.

 

4 – Da indignação da família Rodrigues Fernandes à descoberta de quem é Luis Peixeira

 

Por isso tudo e muito mais que não transcrevemos aqui, para não nos alongarmos muito, este livro “O Legado de Nho Filili” gerou no seio dos descendentes de João Bento Rodrigues Fernandes, sobretudo entre os filhos e netos de Armando Napoleão Fernandes, filha e sobrinhos de Leonilde Fernandes (Ticha), grande indignação e repulsa. Também despertou imediatamente o desejo de se saber quem é o autor deste livro e quais os motivos que o levaram a escrever tamanha afronta à memória dos seus antepassados e entes queridos falecidos.

 

Depois de muita pesquisa, em que participaram dezenas de membros deste família, descobriu-se que o autor Luiz Peixeira, é viúvo da Maria Odete Fernandes Câmara, que é neta de João Bento Rodrigues Fernandes, ou seja, filha de Ermelinda Fernandes (Nenó) acima referida e também referenciada no livro.

 

As intenções do autor do romance foram reveladas num artigo da Jornalista Otília Leitão, publicado no jornal cabo-verdiano “A Semana On-line” na coluna “Postal de Lisboa”, de 22 Novembro 2007, sobre um livro de Luís Urgais (seu pseudónimo). Neste artigo Otilia Leitão, aproveita para evocar o falecimento recente da Maria Odete. Escreve a jornalista Otília Leitão e citamos: «o autor (pseudónimo de Luis Peixeira) disse-me: (…) Maria Odete “foi a minha paixão” e em sua homenagem, disse, “estou a escrever Nhô Filili, (…). Neste livro, uma ficção, vou percorrer a sua família. O seu avô tinha comprado uma negrinha da Guiné e com ela casou e ficou para sempre...imagine o que isso era na época!».

 

Entre as declarações do autor em 2007 à Otília Leitão e o livro que escreveu agora em 2012, não restam dúvidas, que o Luis Peixeira, resolveu “percorrer a família Rodrigues Fernandes” utilizando os nomes próprios das pessoas e indicando as propriedades da família como demonstramos.

 

Por entre o mar de inverdades e calúnias, este autor apresenta no entanto alguns factos verdadeiros, como por exemplo, facto de Nho Filili ter ensinado Guida a ler e a escrever, o costume de Nho Filili dar doces e pão aos netos pela manhã ou então que “Virgílio emigrara para os estados Unidos” (pág. 192). Outro facto verídico é a indicação do livro escrito por Armando Napoleão Fernandes (pág. 169, 170, 183) ou então o facto de ser a filha, “Nenó (…) mãe de um bébé loiro” (pág. 204). Este bebé loiro referido é a falecida esposa do Luis Peixeira, a Maria Odete, mas que neste livro é a única pessoa de quem o Luis Peixeira não utilizou o nome verdadeiro. Na referida pág. 204 o autor mudou-lhe o nome para Elisabete, um nome parecido. Porquê?

 

5 – A família Rodrigues Fernandes quer a suspensão da venda do livro

 

A família Rodrigues Fernandes ficou pois muito ofendida pela utilização dos nomes dos seus entes queridos, numa história que embora seja ficção, irá perpetuar uma má reputação e uma versão inverídica da vida dessas pessoas falecidas o que poderá passar por verdade. Em face do exposto, verifica-se que há matéria suficiente para nos termos do Código Penal Português, a família Rodrigues Fernandes intentar uma acção na justiça, contra o autor Luís Peixeira. Mas antes, filhos e netos de Armando Napoleão Fernandes, vão endereçar uma carta ao autor, a solicitar um pedido público de desculpas e a retirada da circulação da actual edição de “O Legado de Nho Filili”. Caso este autor recuse uma solução “à l’amiable”, será apresentada uma queixa nos tribunais. No entanto, o autor pode e deve publicar o seu livro numa nova edição se bem o entender, mas utilizando nomes fictícios.

 

6 – Recordando Armando Napoleão e Leonilde

 

Convém contudo notar, que Armando Napoleão Fernandes, tem filhos vivos e respectiva descendência a viver em Cabo Verde, Portugal, França, Estados Unidos. Essas pessoas não podem tolerar nem admitir qualquer ofensa à honra e consideração do seu pai, avô e bisavô. Ademais, Armando Napoleão é uma figura conhecida em Cabo-Verde e no mundo pelo seu livro intitulado, “Léxico do Crioulo de Cabo Verde”, obra de referência em qualquer estudo sobre a língua cabo-verdiana. Armando Napoleão Fernandes, foi homenageado, com a atribuição do seu nome a uma escola do ensino secundário, no Concelho de Santa Catarina, Ilha de Santiago e foi condecorado a título póstumo pelo Presidente da Republica de Cabo Verde. É um personagem que faz parte da história recente de Cabo Verde e que é relembrada pela sua extraordinária capacidade em vários domínios de actividade.

 

Leonilde Fernandes (Ticha), deixou uma única filha que vive em Portugal, depois reformada, pelos serviços da Alfândega. Senhora humilde e honesta, Leonilde Fernandes, criou a filha com muito sacrifício sozinha, ambas viveram sempre com grandes dificuldades, numa luta árdua que tem caracterizado a força da mulher cabo-verdiana.

 

7 – Nho Filili – Uma descendência ilustre

 

A descendência de Nho Filili através de Armando Napoleão Fernandes, é constituída por pessoas honestas a maioria, teve educação (liceu ou estudos superiores) e muitos têm dignificado o nosso país, Cabo Verde, como ilustres intelectuais com destaque para, as filhas, Orlanda Amarílis, escritora (casada com falecido Prof. Manuel Ferreira especialista da literatura Cabo-verdiana); Ivone Aida Rodrigues Fernandes, escritora, Armando Nelson Fernandes, compositor e poeta; os netos, Virgílio Fernandes, economista, Ministro das Finanças em Cabo Verde; Carlos Filipe Fernandes Gonçalves, jornalista investigador; Abraão Fernandes Vicente, escritor, poeta, artista plástico e deputado; José Luis Fernandes Ramos, professor, membro do Conselho Cientifico da Universidade do Mindelo; bisnetos, a maioria possui formação superior (licenciados, mestres e até doutores).

 

8 - A reacção de Luis Peixeira

 

Uma bisneta de Nho Filili, ao ler o romance, alertou a família e entrou imediatamente em contacto com o autor do livro, questionando a utilização de nomes verdeiros numa ficção. Disse ela na missiva “Se se tratasse realmente de uma ficção, era imperativo ter havido uma introdução esclarecendo que qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais era pura ficção, visto que usou nomes reais de pessoas da minha família (que bem podia alterado) e dos sítios onde viveram. Com efeito, muitos tenderão a associar a vida real dos membros da família às personagens da sua narrativa, numa afronta à família (e mesmo denegridor ‘família cabo-verdiana’) sabendo que Armando Napoleão era uma pessoa muito conhecida em Stª Catarina e em Cabo- Verde e cuja memória ficou manchada.” Eis a reacção do Luis Peixeira:

 

“Pois, cara senhora, como diz é apenas ficção. Tentei dignificar a interculturalidade lusófona e não pense que o processo da escravatura em Cabo Verde e da convivência social foi pera doce...

 

Quanto à família é ficção e alguma coisa de correspondente real, as minhas fontes são bem outras... Mas não interessa. Não quis ofender a memória de ninguém, pelo contrário, fazer justiça e dignificar, peço humildemente desculpa.

 

Além disso, que raio, não entendo onde está tamanha ofensa. Nenhum de nós é dono de toda a verdade. Trata-se de um romance e para mim é importante ficcionar a realidade.

 

Se fosse uma biografia ou um ensaio, agora romance... Por acaso leu: Da Mestiçagem à Caboverdianidade - Registos de uma Sociocultura (Edições Colibri)? Ah, não conhece, nunca ouviu falar, então vá ler e depois diga-me quem fez melhor sobre a mestiçagem? Foi a senhora? Não, então deite mãos á obra, bem precisamos de trabalhar essa matéria...”

 

9 - O Legado de Nhô Filili – Uma análise de contextos

 

Logo no início do livro, é apresentado o grande personagem Nhô Filili, como tendo nascido “por ironia do destino em 1869 ano em que a monarquia portuguesa decretou a abolição da escravatura” (pág. 7). Ora sendo assim, em 1878, ano do “termo definitivo da escravatura” conforme várias fontes consultadas, Nhô Filili teria 9 anos de idade. Ou seja, em 1889, quando o personagem teria 20 anos de idade e provavelmente iniciou a sua carreira na Função Publica, o tráfico e a escravatura teriam praticamente desaparecido. Assim, toda a encenação desenvolvida na primeira parte deste romance, teria mais sentido se fosse algumas décadas antes.

 

Igualmente a colocação dos “Rabelados” no tempo da escravatura ou no final do tráfico, é algo forçado e fora do contexto, quando se sabe que tal fenómeno eclodiu por volta dos anos 40, do século XX quando a “Igreja Católica enviou para Cabo Verde alguns padres para substituir os locais, introduzindo alterações na celebração das missas e nos costumes religiosos, nomeadamente o ensino da religião. Alguns grupos da população rebelaram-se contra essas alterações.” Trata-se de uma confusão com a instalação de escravos fujões em pontos altos e inacessíveis (ver História de Cabo Verde e diversa outra documentação) e fenómenos idênticos ocorridos no Brasil e nas Antilhas (Quilombos).

 

Outras imprecisões são flagrantes e caricatas, como por exemplo caracterizar naquela época, as estradas em Cabo Verde como sendo “macadame” (pág. 51) ou seja alcatroada ou asfaltada! As estradas naquela época e até um passado muito recente. quanto muito eram calcetadas. Note-se que só a partir dos anos 2000 é que o asfalto (macadame) surge em praticamente todas as ilhas. Nota, “Macadame (do inglês Macadam) é um tipo de pavimento para estradas desenvolvido pelo engenheiro escocês John Loudon McAdam, cerca de 1820. O processo recebeu o nome de Macadam em homenagem ao seu criador McAdam.

 

De salientar ainda, alusões a “óleo de palma” e “leite em pó” como alimentos fornecidos/utilizados na época da fome de 1940 (pág. 140). O óleo de palma, não é utilizado tradicionalmente em Cabo Verde e o leite em pó é algo moderno que só apareceu em Cabo Verde nos finais dos anos 1950.

 

O autor denota pois não conhecer Cabo Verde, nem nunca ter cá estado. Pesquisa feita, ficamos a saber que o autor deste livro, Luis Peixeira, é português e diz a sua biografia que viveu dois anos em Angola a partir de 1970. Somos levados a crer que conhece Cabo Verde do ouvir contar, o que será demonstrado mais à frente.

 

Esse desconhecimento de Cabo Verde leva o autor/narrador a cometer outros erros crassos como várias fazer citações em crioulo de Barlavento quando a história se desenrola na Ilha de Santiago. Eis alguns exemplos: utiliza a palavra “canhota” (pág. 150) que é do crioulo de Barlavento para se referir à ave necrófaga conhecida em Sotavento como “minhoto”; coloca o cemitério da Praia na Achada de Santo António o que é hilariante para quem conhece ou vive nesta cidade. Há ainda contradições flagrantes como “as noites na Brava eram terrivelmente quentes” (pág. 102) e um pouco mais à frente “Nova Sintra era fresca, pequena e acolhedora” (pág.104).

 

Do ouvir contar e da leitura que fez da edição fac-similada da revista Claridade, este autor também faz uma confusão tremenda sobre este movimento literário e seus integrantes. E daí, cita praticamente “ipsis verbis”, nas pág. 127 a 129 do referido romance os dois artigos de Félix Monteiro, sobre a Festa da Bandeira na Ilha do Fogo (Claridade, nº 9, Maio 1958) e sobre a Tabanca (Claridade, nº 6, Julho 1948 e Claridade, nº 7, Dezembro 1949).

 

- Carlos Filipe Fernandes Gonçalves, Praia

 

 

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1 comentário

De Anónimo a 14.10.2012 às 17:31

Como amigo e familiar desta família descendente do Nho Filili reconheço que o livro ofende a memória de Armando Napoleão Fernandes, filho de nho Filili, que foi tratado como um autêntico gatuno, um homem que é reconhecido em Sª Catarina como um grande senhor ou seja nas antípodas daquilo que o autor pretende: benemérito, uma pessoa prestável na comunidade pelas suas múltiplas valências e competência ao serviço de uma população . Não se pode esquecer que Napoleão é quase um herói nacional, reconhecido pelos seus feitos em prol de Cabo Verde e pelo primeiro léxico cabo-verdiano. Se há grandes homens em Cabo Verde este é um deles. Ofender a memória deste homem é, pois, um insulto a Cabo Verde. Não pode ser pura coincidência o autor usar como personagem Armando Napoleão Fernandes e agora pretender que foi pura coincidência, sabendo que era casado com uma neta de Nho Filili. Isto é coincidência? A pergunta que se coloca é porque o autor não inventou outros nomes e outros lugares? Isto é o b-a-ba dos escritores profissionais. Esta é uma dúvida que fica no ar e que vai contra aquilo que o autor afirma. Se o autor não sente que ofendeu os descendentes desta grande família então ele não sabe o que escreveu. É que as coisas podem ficar muito feias. Para além disso o livro tem passagens infelizes com estereótipos racistas a pessoas mestiças já muito ultrapassados ou desusadas.

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