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Mensagem de Sua Excelência Dr. Jorge Carlos de Almeida Fonseca, Presidente da República, dirigida à Nação Cabo-verdiana por ocasião da celebração do Dia Nacional da Cultura e das Comunidades

 

Um povo caracteriza-se pela sua história e pelas suas estórias, pelas suas tradições, pelas suas aspirações, pela sua maneira de ser e de estar na vida. As crenças, a língua, as artes e as letras, os usos e os costumes, dizem-nos tudo de um povo – de onde veio, como se forjou, para onde vai, como reage face as adversidades. Em suma, um povo é o que a sua cultura faz dele.

 

O povo cabo-verdiano forjou-se na luta pela sobrevivência. E toda a sua maneira de ser, de pensar, de se relacionar e de projetar o futuro, reflete essa história de luta por um lugar ao Sol.

 

Sobrevivemos à escravatura; nas grandes fomes e nas grandes e pequenas carestias conseguimos fazer mais com menos para sobreviver e crescer; combatemos a opressão colonial e vencemos; de uma colónia na qual ninguém apostava fizemos um país viável, que cresce, persegue os objectivos de desenvolvimento do terceiro milénio e se instala no clube dos países de rendimento médio. Somos os flagelados do vento leste, mas ainda assim cantamos, dançamos e projectamos o futuro com um optimismo contagiante que leva a que não nos faltem parceiros no nosso processo de desenvolvimento.

 

Hoje, no dia em que se comemora o Dia da Cultura e das Comunidades, devemos virar-nos para dentro de nós e observar, com carinho, aquilo que nos faz ser o povo que somos. As mornas e as coladeiras; o batuque, o funaná e o kolá sanjon; a mazurca e o foxtrot; o teatro, a poesia, a literatura; a pintura, a escultura e o artesanato; as nossas crenças e a nossa opção pela democracia, enfim as manifestações que nos dão conta que nos mantemos vivos como povo.

 

O que seria do nosso povo sem o nosso crioulo? Em qualquer porto, aeroporto, cidade, país ou continente, identificamos os nossos patrícios pela língua, mais do que pela cor da pele ou pela indumentária. Produtos de um processo ímpar de miscigenação de raças, os elementos externos que identificam os povos não são suficientes para o nosso caso.

 

O que seria de nós sem a música? Sem a morna e sem o funaná? Certeiramente o poeta escreveu que «o meu país é uma música».

 

O que seria do cabo-verdiano sem a sua proverbial esperança de dias melhores? Semear antes da chuva, em um país do Sahel, onde não chover é a regra, e acreditar que a chuva virá e lhe permitirá uma colheita farta? Só nós!

 

A cultura é a alma de um povo, sua marca, seu selo, sua condição de sucesso. Por isso, no Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, mister se torna passar aos responsáveis pela divulgação da nossa cultura uma mensagem de engajamento e comprometimento com o processo de uma maior integração entre eles e no mundo.

 

Um maior intercâmbio, uma maior aproximação entre os realizadores e agentes de cultura residentes no arquipélago e os da diáspora só poderá redundar em reforço da qualidade das nossas manifestações culturais.

 

Por isso, o repto que aqui deixo vai no sentido do aprofundar do diálogo entre poderes públicos e agentes e produtores culturais, virado para a ampliação do mercado e dos horizontes dos nossos artistas e artesãos. Uma maior e mais livre circulação dos nossos artistas e artesãos pelos territórios, nomeadamente o da Comunidade dos POVOS de Língua Portuguesa, um velho sonho dos nossos artistas, precisa ser equacionado e integrado na agenda nacional e da CPLP.

 

Para um povo como o nosso, que ambiciona ver a cultura – ou a indústria da cultura, como agora sói dizer-se – integrado na oferta turística, necessário se torna que os poderes, os fazedores de cultura e os agentes culturais se envolvam na construção de uma política de cultura devidamente estruturada e necessariamente democrática, preocupada com a salvaguarda das tradições, mas também, e principalmente, profundamente engajada com o seu futuro e dos seus agentes, e, no essencial, comprometida com os seus destinatários, os cidadãos.

 

Neste DIA GRANDE PARA A CULTURA e também para as COMUNIDADES, uma figura se distingue. Uma figura que, talvez mais do que qualquer outra, consegue fazer essa ligação simbólica e aparentemente difícil, entre esses dois «territórios». A Nação Cabo-verdiana prestigia e dignifica a sua cultura e homenageia um dos seus nomes mais sonantes - Eugénio Tavares, um orquestrador importante do humanismo cabo-verdiano e do combate nativista pelos direitos dos cabo-verdianos contra a opressão e a discriminação.

 

Além de poeta, jornalista, dramaturgo, pensador, ficcionista, polemista refinado, lutador incansável pela autonomia do arquipélago e por ideais libertários da República, Eugénio Tavares foi um dos maiores compositores da morna e grande intérprete da alma cabo-verdiana, em toda a sua grandeza.

 

O amor, a dor e o mar são temas que o vão imortalizar. Ele próprio um emigrante dos Estados Unidos da América, alimentou-se da saudade e traduziu, com pujança lírica, a vida aventureira, muitas vezes trágica, e a alma romântica da sua ilha e do seu povo.

 

Se é demasiado ousado dizer que teria razão Eugénio Tavares, quando alvitrava a ideia de que a Nação cabo-verdiana nasce com a emigração para os Estados Unidos da América, neste dia que é da o CULTURA e das COMUNIDADES, devemos enaltecer, com toda a justeza, a diáspora de cidadãos cabo-verdianos e suas personagens, cuja importância económica, política e social para o país, talvez, não tenha sido ainda suficientemente reconhecida.

 

A todos os cabo-verdianos espalhados pelos quatro cantos do mundo, uma palavra de esperança e de confiança nestes tempos de dúvidas, em que o futuro nos parece incerto, reconhecendo e enaltecendo o espírito combativo, diligente e inovador que sempre vos caracterizou.

 

E temos uma certeza: a nossa cultura, a nossa maneira de ser e de estar na vida, vai ajudar-nos a resistir à crise, em que nós e o resto do mundo estamos mergulhados, e dela retirar as oportunidades que se oferecerem.

 

Os cabo-verdianos terão sido dos primeiros povos africanos a atravessar o atlântico, à procura da sobrevivência e da liberdade. Estamos certos de que sua tradicional coragem e determinação se conjugarão, no presente, na capacidade das suas gentes em prosseguir a arte de projectar e construir um futuro que dê conta das suas legítimas aspirações.

 

PELA CULTURA, PELAS COMUNIDADES, POR CABO VERDE!

 

 

- Publicado na página do FB da Presidência da República

 

 

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