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A Primeira “Festa da Árvore” CV

Brito-Semedo, 24 Out 12

 

  

Desenvolvendo uma parceria efectiva entre a Praia de Bote e a Esquina do Tempo, dois blogues de SonCent, este magazine cultural passa a publicar, a partir de hoje, uma crónica mensal do Comandante Djack de Capitania, de seu nome de registo Joaquim Saial.

 

 

A árvore sempre foi motivo de simbolismo para os povos. Em geral, personificando a vida em constante mudança mas podendo apresentar outras sentidos, segundo a sua adopção por religiões, grupos filosóficos ou políticos diferentes. Não vem ao caso discorrer sobre o tema, mas podemos recordar que é durante a Revolução Francesa, nos finais do século XVIII, que o cerimonial alusivo à árvore se populariza com a plantação das “árvores da Liberdade” – por sua vez lembradas dos “postes da Liberdade” erigidos nos Estados Unidos da América após a guerra da independência. Embora significando purificação, renovação e estabilidade, por exemplo, muito mais se associou a árvore a ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, divisa principal do movimento revolucionário. E, logo assim, próximos dos ensinamentos das cartilhas maçónica e republicana.

 

Mas a generalização do “Dia da Árvore” deu-se mais concretamente na cidade de Nebrasca, no estado americano do mesmo nome, em 1872. O criador do “Arbor Day”, o jornalista Julius Sterling Morton, pioneiro do povoamento desse estado (aí se instalou em 1854), proveniente de Detroit, onde havia vivido rodeado de árvores – era grande amante da natureza. A primeira plantação oficial deu-se por sua iniciativa a 10 de Abril de 1872 e foi oficializada pelo Nebraska State Board of Agriculture. Julius Sterling ficaria a partir daí conhecido como o “pai do Dia da Árvore”.

 

Em Portugal, a ideia corporizou-se em 1907, no ocaso do período monárquico mas associada ao ideário republicano, sob a designação de “festa patriótica” ou “festa da árvore”. A primeira cerimónia do género teve lugar no Seixal, por iniciativa do farmacêutico, pedagogo, maçom e político republicano António Augusto Louro, em 26 de Maio desse ano. Da iniciativa bastante se sabe, devido a investigação passada a livro por um grupo de professores da escola do 2.º e 3.º ciclos Dr. António Augusto Louro (Arrentela, Seixal), com o título “António Augusto Louro e a Educação Cívica” (ed. 2002). E da primeira realizada em Cabo Verde (Praia, ilha de Santiago) também, bebida por nós no jornal “O Futuro de Cabo Verde”, de 7 de Maio de 1914 – curiosamente, com semelhanças entre ambas, nomeadamente ao terem as duas os alunos das escolas como actores centrais. A festa, que se realizara no dia 1, teve honras de três longas colunas no periódico republicano surgido exactamente um ano antes e que logo no primeiro número inseriu um texto de Albino Forjaz Sampaio sobre “os grandes vultos da República”: António José de Almeida, Afonso Costa e Brito Camacho, com fotografias dos ditos…

 

A comemoração desenrolou-se a partir das 15h00 (no Seixal também de tarde, mas com início pelas 13h30). A essa hora, entrou na praça do Albuquerque, “vistosamente ornamentada” (pelos senhores Sucena, Barão e António Pereira), o cortejo escolar que saíra do edifico escolar no largo do Guedes (por algum tempo com a designação de governador João da Mata Chapuzet e actual largo de Luís de Camões), depois de ter passado pela rua Serpa Pinto. O batalhão escolar encabeçava o desfile. Seguiam-no diversas individualidades: António Arteaga, oficial maior da Secretaria Geral do Governo (em representação do Secretário Geral Inspector de Instrução Pública, ausente da capital da colónia), o presidente da Assistência Escolar, as professoras Ermelinda Rosa Chor (sic) e Luísa Vieira de Vasconcelos, os professores oficiais e municipais João Rodrigues de Carvalho (noutro local designado como José), Alexandre de Almeida e José Barbosa e alunos e alunas das escolas oficiais e municipais e das de aprendizagem com os respectivos mestres de carpintaria e cantaria. Já na praça do Albuquerque, o cortejo dirigiu-se para a rua central da mesma, onde os intervenientes tomaram os lugares que lhes estavam destinados. Chegou entretanto o governador Joaquim Pedro Vieira Júdice Biker, acompanhado dos ajudantes de campo e do secretário particular.

 

O primeiro discurso, dos três pronunciados, esteve a cargo de António Arteaga. Curiosamente, apesar do cargo oficial do orador, a sua alocução não foi anódina. Dela, vejamos o seguinte excerto: «Homens que me escutais e crianças que amanhã sereis homens, fixai bem em vossa memória que esta terra em que nascestes e onde viveis, tem sido muitas vezes assolada pelo maior flagelo que pode afligir a humanidade: - a fome! Fixai bem no vosso espírito que para evitar tamanha calamidade é necessário regularizar as chuvas nestas ilhas, para que possa nascer e medrar o milho, o feijão, a batata, a mandioca, que são a alimentação do povo, e para que possa nascer e crescer o pasto que é a vida dos gados, uma das riquezas destas terras. Para isso é preciso que haja arvoredo, mas muito arvoredo, por todos esses montes e vales, e para existir arvoredo é necessário que se plantem árvores e que elas sejam protegidas.» Após mais algumas considerações, incentivava os restantes cidadãos do arquipélago a seguirem o exemplo da Praia «para que todos os anos se [realizasse] a festa da árvore em todas ilhas, em todos os concelhos, em todos os lugarejos desta província» e rematava com dois vivas: um a Cabo Verde e outro à República (mas nenhum a Portugal…).

 

De seguida, foi a vez do professor José Barbosa que dissertou sobre o grande interesse da árvore em vários aspectos, tantos que segundo ele «se não fosse por temor de incorrer nas iras de muitas e várias gentes muito tementes a Deus, dir-vos-ia que em lugar de vos descobrirdes em face de uma porta de igreja, aberta ou fechada, o fizésseis perante uma árvore, por tudo o que de belo, de útil e agradável representa para a humanidade.» Neste caso, os sinais de anti-clericalismo e malquerença à religião católica, próprios da República inicial, não podiam ser mais óbvios…

 

O professor João (ou José) Rodrigues de Carvalho encerrou a parte oratória com um discurso onde agradecia a presença do governador e enaltecia o papel insubstituível da árvore que para ele tinha sobretudo «a alta significação de ser a matéria-prima empregada na construção da frota» que descobrira o arquipélago.

 

Findos os discursos, foram agraciados com um corte de fazenda para fato ou para vestido os alunos e as alunas melhor classificados de cada escola. Eram eles Manuel Santos Lopes, Bazílio Lopes, Lucas Corrêa, João Lopes Rodrigues, Ambrósio Reis Borges, Manuel Amadeu dos Santos, Dulce Martins e Maria Júlia Ferreira. Chegou depois o momento mais aguardado: a plantação de árvores na praça do Albuquerque, uma por cada escola. As árvores foram oferecidas por Augusto José Baptista e por José Antunes Oliveira, da sua propriedade de S. Martinho. Tal como acontecera no Seixal, cantou-se o hino maçónico “Sementeira” (música de Júlio Cardona e versos de Luís Filipe da Matta), aqui pelo batalhão escolar. Foi então a vez do desporto. Houve ginástica sueca e várias corridas, tendo esta parte terminado com evoluções do batalhão escolar comandado por Mário Wahnon.

 

A festa continuou à noite. A partir das 20h00, na bem iluminada praça do Albuquerque, tocava no coreto uma charanga dirigida por Valentim Lopes Tavares. Diz “O Futuro de Cabo Verde” que «a alegria era imensa no povo ao ouvir música, o que há muitos meses não tinha ocasião de gozar». Pelas 21h00 começou o fogo de artifício que num dado momento fez surgir em letras coloridas um “Viva a República”… e pelas 22h00 a festa estava finalmente terminada.

 

No longo texto assinado pela comissão, ainda se teciam mais algumas considerações sobre o assunto: «Abriu-se o exemplo do culto da árvore na capital da província com a festa realizada em 1 de Maio, festa que há-de repetir-se nos anos seguintes com maior brilho e luzimento. Que o exemplo seja seguido por todas as outras ilhas de Cabo Verde e que a Festa da Árvore se realize, como disse o sr. António Arteaga, em todas as ilhas, em todos os concelhos, em todas as freguesias e em todos os lugarejos desta província, são os nossos desejos.»

 

Baseada não só em questões de interesse natural, ecológico e económico, mas também com fins de aplicação da teoria filosófica e ideológica maçónica e republicana, esta primeira festa da árvore na Praia (que seguiu de perto as da mãe-pátria, pois os anos próximos posteriores à implantação da República foram de auge destes cerimónias em Portugal) ficou pelo menos para a História como um forte alerta que pretendeu inculcar nas gerações jovens o culto da árvore, ainda hoje raro bem, por demais apetecível (e de obrigatória multiplicação) em Cabo Verde.

 

 

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5 comentários

De Djack a 25.10.2012 às 08:07

Acho que é de bom tom ser o primeiro a comentar este CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO (coisa que, em princípio, por motivos óbvios, nunca mais farei relativamente a estas crónicas, neste blogue) para agradecer a simpatia do acolhimento ao Brito-Semedo .

O "ESQUINA" já tem um estatuto que permite a todos que aqui são lidos ou vistos ficarem com orgulho do facto. Assim acontece com as CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO, textos que comecei a publicar no mensário "Terra Nova" (S. Vicente), desde Setembro do presente ano. Trata-se de trabalhos em que se fala sobretudo de coisas cabo-verdianas, passem-se elas nas ilhas, em Portugal ou nos Estados Unidos da América ou até numa relação bi ou tripartida. O primeiro CNA foi este que os leitores têm agora à sua disposição, um mês depois de saído no jornal em S. Vicente. Conforme o combinado, tê-lo-ão também no PRAIA DE BOTE daqui a uma semana. Portanto, uma vez em papel e duas em blogue, dando maior espaço aos textos - o que é bom para eles... O segundo (saído em Outubro) versará fortíssima crise de trabalho e mantimentos em Cabo Verde, em 1948, e o terceiro nem o próprio autor sabe qual será, pois está a escrever dois ao mesmo tempo - o primeiro que ficar pronto será o eleito.

Um grande abraço para o Brito-Semedo , outro para os leitores e até daqui a um mês... na "Esquina do Tempo".

Joaquim Saial

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 25.10.2012 às 11:55

Que seja benvindo , Cronicas do Norte Atlântico aqui a bordo da " esquina do tempo " trazendo-nos sempre que possivel, as boas noticias dos velhos tempos , nos convidar a reviver o que foi de bom nessas ilhas do oceano atlântico . Aquele abraço de boas vindas e bom vento nas viagens entre as ilhas criolas !.Um Criol na Frânça; Morgadinho !..

De Djack a 25.10.2012 às 17:31

Um destes dias, irei escavar nos meus arquivos algum material de música. Porque música é coisa das nossas ilhas, ao mesmo nível de gosto que uma boa cachupa ou um bom grogue.

Um braça pa bô, Morgadin
Djack

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 26.10.2012 às 08:18

O tempo é o inimigo mais proximo do homem e estou certo que nao serei uma exceçao a esta regra , razao pela qual terei um prazer imenso " Djack " nas tuas escavaçoes haverà de certeza interpretaçoes minhas e serà com muita satisfaçao e alegria, ouvir neste blog - de nôs tude - musicas ( d' um criol na Frânça ) !.. Atê Morgadim tàva f'cà contente !..

Muito obrigado Djack ;

De ZITO AZEVEDO a 25.10.2012 às 18:42

Apenas para referir que eu sempre defendi o principio de os assuntos serem tratados por quem sabe o que diz ou porque os viveu ou porque os estudou com o espírito crítico que deve acompanhar todos os "contadores de História"...Essa História de que muitos gostam de se apropriar quando importa aos seus intentos mais ou menos inconfessáveis...Ora, Ela é de consumo geral, não paga imposto nem tem dono pois sendo obra do povo ao povo pertence e que nela se revê e se revela coimo autor e actor, fonte onde se bebem os ensinamentos dos nossos maiores dos quais nos orgulhamos e tomamos para exemplo na construção de um Mundo Melhor,,,Enfrentemos, pois, de espirito aberto estas Crónicas do Atlântico Norte com o aval  de qualidade estética e factual que o autor lhes confere.

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