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Na SonCente, Moda um Passarim

Brito-Semedo, 24 Out 12

Escola Primária da Chã de Cemitério, datada de 1951, Foto Maria Catela, Junho.2010
 
- Para o Amigo Valdemar Pereira
 

Faço normalmente a pé o percurso da minha casa para o trabalho na Morada, seguindo pela Av. Manuel de Matos, passando pela minha velha casa, a Fábrica Favorita, a Escola Primária, o Largo John Miller, a Fábrica Sport, o Grémio Sportivo Castilho, a Rua de Côco, indo sempre em frente, passando a Padaria de Nhô Nton Djudjim, até desembocar no largo do antigo Liceu Gil Eanes.

 

Voltar para viver em S. Vicente tem sido deveras interessante e hoje dei-me conta que ando pulando “moda um passarim". Visito os lugares de diazá com nostalgia, à cata de memórias; páro nas ruas a procurar descobrir os lugares e a recordar como as lojas e as casas eram antes e quem eram os donos ou nelas viviam; cumprimento a todos, sobretudo as pessoas mais velhas, da minha infância; cruzo-me com antigos colegas da escola e revejo amigos desse tempo, que me fazem festa e dão as boas-vindas.

 

Agora à tarde, quando ia para o trabalho, vi um movimento de alunos do ensino básico – distingui-os pela cor azul da bata – à entrada do edifício da minha antiga Escola e decidi dar fé ao que ali se passava. Aproximei-me e meti conversa com eles. Contei-lhes que tinha estudado ali a 1.ª e a 2.ª classe. Os meninos, sérios, a olhar para mim sem dizer palavra. Um dos professores, acabado de entrar, olhou-me sorridente e disse:

 

- N sabê quem bocê e. N oiá bocê ôje na televisão. Bocê e Vice-Reitor d'Universidade. Nôs scola tem orgulhe de bocê! // Eu sei quem o senhor é. Vi-o hoje na TV. O Senhor é o Vice-Reitor da Universidade. A nossa escola tem orgulho do senhor!

 

Edifício do Antigo Liceu Gil Eanes, Foto Maria Catela, Junho.2010

 

- Manuel Brito-Semedo

 

Mindelo, 23.Outubro.2013

 

 

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9 comentários

De Valdemar Pereira a 24.10.2012 às 12:59



Senhor Vice-Reitor Brito Semedo, Meu Caro Manel,
Quando aos meus 12 anos, fazia o mesmo percurso para ir ao, então, Liceu Gil Eanes não pensava que um dia o filho da Xanda, a amiga que víamos de soslaio (era a idade só de mandar olhadas enquando batia os primeiros toques de coração adolescente) não pensava que décadas depois o seu filho havia de fazer o mesmo percurso já como Mestre, e que seria admirado pelos mais novos, orgulhosos, de poderem falar com o Senhor Vice-Reitor.
Manuel, a tua dedicatória me caiu fundo e, como deves calcular, com o orgulho de teres lembrado do mim, fico cheio de saudades das nossas gentes e do mesmo percurso atravessando o nosso bairro da Chã de Cemitério, do nosso Grémio Castilho, dos pãesinhos quentes da Padaria de Nhô Anton Djudjim e do Liceu Gil Eanes agora majestosa Universidade onde exerces, com competência e dignidade, as altas funções de Vice-Reitor.
Por este implacável "castigo" (sodade ê grande e reconhecimento também) mando-te com, o meu Obrigado,
Um braça grande do comprimento do percurso que percorri menino e que percorres agora como o "Homem más grande" da Universidade recém aberta no cidade onde nascemos.
Bem Haja !!!
Valdemar

De Lídio de Silva a 24.10.2012 às 17:32

Caríssimos, muito boa tarde, estive cinco anos na Casa Parlamentar, todos os anos coloquei pelo menos uma vez a questao do Liceu velho, Gil Eanes do nosso tempo e todas as vezes obtive uma resposta mais desfarrapada que a outra daquele lunatico que era ministro da cultura e do seu (des)governo. Da última vez, Dezembro de 2010, a resposta foi "já estamos a trabalhar no projecto de recuperacao do edificio e breve vamos lancar um concurso", na verdade lá esteve uma placa anunciando obras de recuperacao e a placa foi colocada junto à pracinha e do lado da Secretaria, mas para vos dizer a verdade, foi mais uma manobra de campanha, pois pouco tempo depois das eleicoes de 2011 a placa voou sem deixar rastos, porque era mais uma propaganda enganosa desse (des)governo que continua a merecer a confianca!!! do povo!!! nunca vi um pocvo tao sabio como o Caboverdeano...
Fraterno abraco a todos, Lídio

De ZITO AZEVEDO a 24.10.2012 às 13:40

Eu não tinha esse percurso mas conheço-o como às palmas dos meus pés... Este postal e o comentário do Val vêm, afinal, confirmar aquilo que a gente sabe mas teima em ignorar: NÓS VIVEMOS NUM MUNDO MARAVILHOSO POVOADO DE GENTE MARAVILHOSA...O resto é a excepção que confirma a regra!
Um abraço comovido até às lágrimas da saudade!
Zito

De Djack a 24.10.2012 às 13:53

Postal de primeira, no texto e nas imagens, só estragado pelo aspecto decadente da grande "universidade" que foi o Liceu Gil Eanes. Deus e os homens de boa vontade o salvem!

Djack dixit!

Aquel braça c'som de sine tocóde na primer andar de nôs liceu

De Adriano a 24.10.2012 às 17:27

Este percurso a pé que o Brito Semedo faz diariamente entre a casa e a universidade é coisa que apetece a todo o menin de Soncent que vive longe da terra. Em imaginação, fi-lo muitas vezes ao longo de uma ausência de 40 anos sem revisitar a terra. Felizmente, ainda no passado mês de Julho o fiz mais de uma vez, e no tchom real, mas de carro porque estava com a minha mulher e uma netinha e elas de certeza que não respiram nem têm de respirar os meus gostos retrospectivos, por mais que eu fale disso e tente explicar o mistério das coisas simples e insondáveis da minha infância.

Como está aqui a imagem da escola primária do bairro, mais uma razão assiste a que eu me delicie com a retrospectiva. A minha primeira escola foi a Escola Camões, junto à Pracinha da Igreja, mas, por a minha família se ter mudado para o Fonte Cónego, a partir da 3ª classe a minha escola passou a ser esta, a da Chã do Cemitério. Foi aqui que a minha professora me acertou na testa com a palmatória por mero acidente e em parte por culpa minha ao tentar recuar a mão para me furtar à trajectória do maldito instrumento suplicial, o que terá feito com que a minha cabeça, num fenómeno físico de compensação, se tenha inclinado para a frente alguns graus. Fui logo levado ao hospital e o enfermeiro aplicou-me uns pontos para costurar o pequeno rasgão, cuja cicatriz ainda é levemente visível. A razão do castigo é que eu e uns poucos alunos não acertámos com a conjugação perfeita do conjuntivo do verbo amar, o que fez com que fôssemos enfileirados junto ao quadro preto para a aplicação do devido (mas não justificável) correctivo. Éramos 6 e eu estava em 3º lugar, pelo que o 4º, o 5º e o 6º se livraram do castigo, pois a professora quase ia desmaiando quando viu o sangue a escorrer-me da testa. Coitada, ela passou por um mau bocado. O meu pai desistiu de fazer queixa porque era amigo do pai dela, e eu, criancinha obediente e de boa índole, não fiquei com qualquer espécie de ressentimento. Tanto que em 2003, na minha primeira revisita a Cabo verde após 40 anos de ausência, fui ver essa minha professora e conversámos sobre o infeliz incidente ocorrido pouco mais de meio século atrás. Não porque eu me tivesse identificado como o aluno supliciado, mas sim porque ela, estranhamente, reconheceu no meu rosto traços da criança de 8 anos, e talvez porque o episódio lhe tenha doído a alma mais do que doeu a minha testa, a ponto de ficar imperecível na sua memória. Se, da minha parte, nunca me esqueci da professora não foi pelo infeliz incidente mas pelas suas grandes qualidades como tal. Infelizmente, já não está entre nós, e Deus a tenha em boa paz.

O que precede só veio por acaso, a talhe de foice, digamos que só por vontade de falar. O que nunca esqueci foi o trajecto que diariamente, e no tempo escolar da 3ª e 4ª classe, fazia entre Fonte Cónego e a escola da Chã de Cemitério. 

Outro episódio de que também me lembro é mais picaresco e divertido. Estávamos no intervalo da aula e fomos a uma esquina próxima ver um jogo de “dupatrão”, como naquele tempo se dizia, e que era um jogo de dados com aposta em dinheiro. Sucedeu que naquele dia eu estava verdadeiramente possuído pela arte do adivinho. O homem do jogo lançava o dado e eu dizia em voz alta o que ia sair, acertando. A certa altura, os jogadores começaram a seguir o meu palpite e a arrecadar dinheiro. Só que, a certa altura, o dono do casino, aflito e já farto de mim, atirou-me com um punhado de terra à boca no preciso momento em que eu ia sentenciar a jogada. Não tive outro remédio senão limpar a boca e regressar à aula.

Só mais um reparo. Registei o facto de o professor primário se ter dirigido em crioulo ao professor universitário. Os tempos de facto mudaram. 

Resta dizer que adorei ler este percurso do Brito Semedo e oxalá ele o inspire diariamente, no silêncio dos seus passos, para as importantes decisões que o seu cargo exige. Ah, achei ternurenta a dedicatória ao meu amigo Valdemar Pereira.

De Brito-Semedo a 24.10.2012 às 18:11

Caríssimos Amigos, Estou sensibilizado pela forma como este meu despretensioso postal mereceu a vossa atenção e comentários. Estou certo que, para além da vossa generosidade, isso deve-se ao facto de, independentemente da nossa diferença de idade, termos um património e uma memória comuns. Assim sendo, voltarei com outros Postais do Mindelo! :-)
A propósito da língua utilizada, fui eu que, primeiro, me dirigi aos alunos na língua da terra e de afecto. Daí o Professor ter continuado nessa linha :-).

Um abraço a todos!

De nita ferreira a 25.10.2012 às 08:37

Ao abrir o meu PC deparei com o recado do meu amigo Valdemar. Imediatamente acessei o site indicado onde me deliciei com o Postal do Mindelo. Comecei a leitura com agrado, reconheci a pena do Adriano, do Djack , do Val , sem mesmo ter chegado ao fim onde esta a marca de cada um deles.
Nao me lembro do autor do Postal do Mindelo, mas o meu muito obrigada pela iniciativa, os meus parabens ! Ja fui muitas vezes a Cabo Verde, de ferias, ao nosso Mindelo querido. O meu sonho e precisamente fazer esse trajecto de reconhecimento e de lembranças das nossas velhas ruas onde estao marcadas em cada pedra os impulsos dos nossos passos. Estou muito feliz e ja adotei no coraçao , esse blog para futuras leituras e informaçoes. Parabens ao sr . Vice-Reitor da Universidade do Mindelo. Demorou, mas a coisa tende a andar, pois temos que fazer parte dessa evoluçao que e uma lei universal.
Braça a moda de Son Cente.
Nita

De M Conceição Fortes a 28.10.2012 às 01:45

Embora tenha feito a instrução primária na escola da Praça Nova, o meu exame da 1.ª classe foi na escola de Chã de Cemitério. Na época achava o percurso longo, mas com o tempo aprendi que não há longe nem distância, quando a ordem é instruir. Ainda bem que esta e outras escolas se mantêm de pé, para boas recordações dos meninos de ontem e alegria dos de hoje.

De Ernestina Santos a 26.01.2013 às 20:01

Ah, Prof., quem se sentiu agora como um passarim nove fui eu! Não me tinha dado conta que tem a sorte de estar a viver na tchom de Soncente! Mea culpa, pois ando afastada em consequência da crise que assola este mundo, com mais trabalho e desgaste pela luta contra os que se julgam donos das empresas, tratando trabalhadores como se máquinas fossem...
Despertou em mim o passarim que me assopra, no início de cada ano, quando começo a planear cuidadosa e emotivamente as próximas férias, "Cabo Verde". Mas o mundo é grande e há que conhece-lo, pois assim crescemos como pessoas...
As maiores felicidades, que bem merece, pois trabalhou para isso, nesse pedacm de tchom! Quando percorrer essas ruas, mande um passarim com mantenha a esta amiga que viveu junto ao Liceu Gil Eanes, na ex-Rua Duarte Custódio, muito feliz até que, menina e moça, me trouxeram da casa e da terra que para mim eram o mundo! 
Junto-me aos da sua escola que têm orgulho em si, pelo que conquistou e pelo que não perdeu ao longo da sua vida, que é o seu caráter!
Abraço amigo!
ES

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