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08 Novembro 2012

Uma Visão Antropológica da Igreja do Nazareno de Cabo Verde - Parte I

Igreja do Nazareno da Praia

 

1. Trago, como minha contribuição para este Colóquio, “Uma Igreja para Cabo Verde”, algumas considerações para uma reflexão conjunta e mais alargada, resultantes da minha visão da Igreja do Nazareno face aos desafios da sociedade cabo-verdiana de hoje, 112 anos depois da sua fundação.

 

Ponho-me na situação de observador-participante privilegiado, já que detenho algum conhecimento da etnologia e da etnohistória de Cabo Verde, por um lado, e uma visão de dentro, do funcionamento dessa micro-sociedade, enquanto ex-Pastor Nazareno, por outro. Por isso, optei por fazer um cruzamento dessas duas perspectivas e enquadrá-lo por uma visão crítica que possa contribuir para uma melhor intervenção e crescimento da Igreja do Nazareno em Cabo Verde.

 

2. Clifford Geertz, considerado por três décadas como o antropólogo mais influente dos Estados Unidos, falecido em 2006, propõe, para o estudo da religião, uma abordagem simbolista, na qual os símbolos estabelecem a harmonia na vida e nas relações pessoais e precisam de ser contextualizados. Nesta visão, a religião precisa de ser entendida no seu contexto histórico-cultural; é, pois, necessário compreender-se a história da sociedade para se entender os seus desdobramentos culturais, sociais, políticos e outros.

 

Igreja do Nazareno do Mindelo

 

3. É assim que, no meu entender, uma visão antropológica da Igreja do Nazareno terá, obrigatoriamente, que ter uma abordagem holística e contextualizada, sendo dificilmente entendida isolada do desenvolvimento social, económico ou, mesmo, político de Cabo Verde, pelo menos, nos últimos cem anos – da Monarquia à República, do Estado Novo à Independência Nacional, até chegar aos nossos dias.

 

I – A IGREJA, UM LUGAR DE MEMÓRIA E DE IDENTIDADE

 

1. Émile Durkheim (1858-1917), um dos pais da Sociologia moderna, tem uma definição de religião que difere, em muito, da do seu colega Max Weber (1864-1920). Enquanto este último considera a religião como uma espécie de empresa de salvação das almas, Durkheim sublinha, justamente, o seu elemento de solidariedade. Portanto, podemos dizer que a religião vincula os indivíduos no interior de uma igreja e, na decorrência, um lugar de memória e de identidade.

 

Quanto ao conceito de identidade, ao congregar as pessoas, a religião fornece-lhes um referente comum, através do qual a identidade do grupo se pode exprimir. Já o conceito de memória refere-se à celebração das lembranças, aproximando os indivíduos antes dispersos, pelas suas memórias comuns. Daí o conceito de memória colectiva.

 

É, também, ponto assente para inúmeros autores que a identidade não é estática, mas sim um processo de construção permanente, pelo que tende a transformar-se drasticamente com o processo da globalização.

 

2. A emergência do Estado moderno, secularizado (ou seja, não vinculado a qualquer igreja), levou vários autores a considerar o estado como associado à coisa pública e a religião ao domínio do privado. É assim que, na literatura sociológica, a relação religião e política têm sido pensadas como antitéticas – ou seja, que encerram oposição ou contraste – e isso tem sido um tema recorrente no debate sobre as religiões.

 

No caso de Cabo Verde, as igrejas e as universidades não estimulam a aproximação entre o público e o privado e não despertam nos estudantes a curiosidade para o tema, continuando a existir, como consequência, o pensamento dicotómico de que a ciência e a religião se opõem, não se cruzam, não se coadunam.

 

3. A Igreja do Nazareno, como uma igreja protestante, interpreta o mundo de uma determinada maneira, diferente da Católica, maioritária no país. Por isso, veio a fundar uma ética específica, bem como uma conduta ajustada a um conjunto de valores previamente prescritos. A ética protestante – melhor, das igrejas evangélicas – deverá significar, portanto, uma acção interventiva, já que representa valores diferentes dos existentes na sociedade cabo-verdiana, predominantemente católica.

  

(Continua)

 

Manuel Brito-Semedo

Praia, 8 de Novembro de 2012

 

 

publicado por Brito-Semedo às 13:00

1 comentário:

Como sempre, à tua medica. Muito bom. Mantenhas.
Alvaro Andrade a 8 de Novembro de 2012 às 16:07

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