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O Golfe, Jogo Naturalizado Mindelense

Brito-Semedo, 13 Nov 12

Foto de Junho de 1953, gentilmente cedida e legendada por Luiz Silva

 

Legenda – De cima para baixo: Nhô Jom Doia (pai de Onésimo Silveira), Ti Djô  Semedo , Pedro Silva (meu pai), Mr. Northon Lewis, Dadal Martins, Henrique Vera Cruz, Djosa Sena, Ti Djô Figueira, Hermínio Pereira; Florêncio Santos (pai do Djodje de Bia), Nhô Damatinha, (…), Lulu Marques, Jom de Rome, do Monte Sossego, Adérito Sena, Djô Dias, Quida, pai do Eduíno, Toi Pombinha e Djunga de Pé de Napla; Segunda fila: Nhô Faia Torres, Cacone, João Faustino, ou melhor, Nhô Jumzim de Central (pai do Manuel Faustino), Mr. Tompson, seguido de outros dois ingleses, Nho Antoni Costa (pai do Guguga), Djidjé Fortunato (pai do Camilo Abu-Raya), Tutchim de Damatinha; Em baixo: Djô d'Iria, que vive nas Canárias e que morava em Monte Sossego, que me enviou esta fotografia, Nicolau de Pinga, (...), Nhô Júlio Vitória, Silva de Nhô Tino e Nhô Yaya de Monte Sossego.

 

 

Torneio de golfe ao  tempo em que o buraco n.° 1 se encontrava na Cova d'Inglésa

 

A primeira referência documentada ao golfe não se trata de um louvor à beleza do jogo, uma carta de regras ou a descrição de um jogo em particular. Datado de 1457, trata-se de um decreto de Jaime II da Escócia a proibir a sua prática, pois, segundo ditam as crónicas da época, o golfe tornara-se tão popular que distraía a formação militar dos seus soldados. Contudo, nem a alta sociedade conseguiu resistir aos encantos deste desporto, e depressa o golfe assumiu enorme popularidade por entre as classes nobres. Ainda hoje um desporto tradicionalmente característico das classes altas, ganha ainda assim cada vez mais adeptos por todo o mundo, com mais de cinquenta milhões de praticantes – por entre profissionais e amadores – e quase trinta mil campos, ambos os números em franco crescimento.

 

 O golfe chegou a Portugal, tal como à maioria dos países, pela mão de emigrantes ingleses e escoceses que assim que se estabeleceram fundaram clubes e associações de golfe. Os dois primeiros clubes de golfe em Portugal estão ligados à presença britânica nos sectores do vinho do Porto e dos telefones, no Porto e em Lisboa respectivamente, em finais do séc. XIX e inícios do século XX.

 

 

A expansão deu-se gradualmente com o passar dos anos, mas foi nas últimas décadas que se verificou uma verdadeira explosão quer na oferta, quer na procura: há vinte anos atrás existiam dezanove campos de golfe em Portugal (continente e ilhas) e cerca de quatro mil jogadores profissionais e amadores; hoje existem quase oitenta campos e perto de catorze mil jogadores, incluindo alguns milhares de mulheres e “juniores”.

 

A tutela do golfe à escala mundial, assim como a elaboração e revisão das suas regras, são da responsabilidade de dois organismos: a USGA (United States Golf Association) nos EUA e o Royal and Ancient Golf Club of Saint Andrews (R&A) da Escócia. Estas duas associações são reconhecidas mundialmente como os órgãos máximos do golfe e a cada quatro anos editam o livro “As Regras do Golfe”, permanentemente actualizado com esclarecimentos relativos a diferendos e dúvidas quanto às regras estabelecidas.

 

À USGA cabe a jurisdição do golfe nos EUA e no México, enquanto que a R&A está encarregue do supervisionamento no resto do mundo. 

 

No que diz respeito ao golfe em Portugal, o seu organismo máximo é a Federação Portuguesa de Golfe, que se encontra inserida na European Golf Association (EGA). Fundada em 1949, a FPG detém o poder exclusivo em Portugal da organização e realização de torneios de golfe, assumindo ainda como um dos seus principais objectivos a divulgação, promoção e fomento deste desporto.

 

Mais recentemente, em 1995, foi criada a PGA Portugal – Professional Golf Association de Portugal – que consiste no departamento da FPG subordinado à prática profissionalizada do golfe.

 

Ao contrário da grande maioria dos desportos, como o futebol, basquetebol ou ténis, o golfe não tem habitualmente uma entidade a que se possa chamar de árbitro. Se por um lado os maiores torneios mundiais têm uma comissão técnica encarregue de supervisionar eventuais diferendos, a grande maioria das partidas joga-se apenas com os jogadores em si. Como tal, cabe-lhes conhecer as regras e aplicá-las de acordo com as situações com que se depararem. 

 

Por isso mesmo o golfe é um desporto que assenta sobretudo na boa vontade e no espírito do fair-play, como aliás se entende pelo pressuposto disponível na edição inglesa do livro “As Regras do Golfe”: “jogue a bola como ela estiver, jogue o campo como o encontrar, e se não o puder fazer, faça o que for justo”.

 

Uma partida de golfe joga-se num campo relvado com dezoito buracos (sendo também possível que existam apenas nove), habitualmente com diversos tipos de relva consoante as três áreas que o compõem: 

 

O tee, que se trata do ponto onde a bola é lançada, dando assim início ao jogo ou ao buraco. É possível e até frequente que num campo existam diversos tees, cada um correspondendo a um nível de dificuldade diferente – é habitual haver um tee específico para as praticantes do sexo feminino;

 

O green, onde está o derradeiro objectivo de uma partida, o buraco – hole – que consiste na área que circunda o buraco propriamente dito, onde o jogador usará pancadas curtas e directas para atingir o objectivo final; 

 

E o fairway, que se trata da área mais abrangente na qual se encontra o green, onde, dependendo do tamanho do campo e da perícia do jogador, se poderá desenrolar o maior número de pancadas.  Podemos ainda considerar a área adjacente que rodeia o fairway, denominada por rough.

 

Um jogo pode ser disputado numa de duas modalidades: por buracos ou por pancadas. 

 

Por pancadas. O jogo por pancadas tem como objectivo meter a bola no buraco no menor número de pancadas possível. Podendo ser disputado por dois ou mais jogadores (ou equipas), o vencedor final é aquele que conseguir completar a volta convencional – o circuito completo de todos os buracos de um campo na devida sequência – no menor número de pancadas. 

 

Por buracos. Sendo um campo composto por, geralmente, dezoito buracos, o outro tipo de partida consiste precisamente no jogo por buracos, em que os mesmos dois ou mais jogadores (ou equipas) têm como objectivo meter a bola no buraco no menor número possível de pancadas. O jogador ou equipa que o conseguir fazer em menos pancadas vence o buraco, passando o jogo ao buraco seguinte até completar a volta convencional. O vencedor final da partida é aquele que tiver conquistado mais buracos. Esta modalidade distingue-se da anterior pelo facto de que o número de pancadas serve apenas para apurar o vencedor de cada buraco individual, e não o vencedor final. 

 

Um dos aspectos mais apelativos do golfe é o handicap, uma funcionalidade exclusiva da modalidade na sua vertente amadora que permite a jogadores com diferentes capacidades jogarem ao mesmo nível. Sumariamente, a cada jogador é calculado um valor numérico que indica, baseando-se na sua perícia e experiência, em quantas tacadas acima do par é que deverá ser capaz de completar um determinado buraco. Como tal, um jogador pior terá um handicap elevado e um jogador com mais experiência terá um inferior (ou até nenhum). O handicap permitirá assim que ambos os jogadores disputem uma partida de golfe em pé de igualdade. O cálculo do handicap é da exclusiva responsabilidade dos clubes aos quais os jogadores de golfe se encontram filiados.

 

No total existem trinta e quatro regras, cada uma delas decomposta em várias alíneas, que prevêem a grande maioria das situações que podem surgir no decorrer de um jogo de golfe. Assim sendo, é bastante difícil para um jogador, mesmo um profissional, conhecê-las todas ao pormenor, pelo que a conduta geral assente no fair-play ajuda a resolver por si só a generalidade das ocorrências.

 

A evolução das regras do golfe não se tem baseado tanto em novas regras, mas antes no esclarecimento de situações anteriormente consideradas dúbias – a actualização do livro “As Regras do Golfe”, a cada quatro anos, consiste maioritariamente em esclarecimentos e pequenas alterações pontuais para maior clareza de interpretação.

 

No que toca às penalizações em caso de violação de uma regra, prendem-se geralmente com a perda do buraco para o adversário (no jogo por buracos) ou em pancadas de penalização (no jogo por pancadas), e só em casos mais graves é que implica a desqualificação do jogador.

 

O golfe é um desporto que é dotado de um imenso vocabulário próprio, que tendo em conta a sua origem e expansão, acabou por se manter na língua original – o inglês – sem tradução para as línguas locais. Se por um lado termos como “abono” até existem, é o seu original “handicap” que goza de uso comum por entre os praticantes. 

 

Além de alguns dos termos já apresentados, existem outros que são de extrema importância para qualquer interessado em praticar golfe: 

 

Par – É o número de pancadas considerada necessária para se concluir um buraco;  Bogey – Diz-se de quando o jogador termina o buraco com uma pancada acima do par. São também usadas variações para duas, três e quatro pancadas acima do par com double, triple e quatruple-bogey, respectivamente; 

 

Birdie – Diz-se de quando o jogador termina o buraco com uma pancada abaixo do par. As variações neste caso são Eagle, Albatross e Condor para duas, três e quatro pancadas abaixo do par, respectivamente; 

 

Tee – Além do nome do ponto de partida para um buraco, é também esta a denominação do pequeno suporte no qual o jogador coloca a bola;  Hole-in-one – Diz-se quando um jogador consegue introduzir a bola no buraco logo com a primeira pancada, algo extremamente raro e que por isso mesmo é sinónimo de grande festejo – nas competições profissionais é costume ser atribuído um prémio especial ao autor de uma proeza desta dimensão;

 

Tratando-se de um desporto de cavalheiros, a etiqueta e conduta ética no decorrer de uma partida é tão ou mais importante que as próprias regras em si. É aliás este o primeiro capítulo da publicação “As Regras do Golfe”, antecipando-se ao restante regulamento estabelecido.   Um dos aspectos que o jogador deve ter em conta é a segurança dos outros jogadores. Deve-se certificar que quando vai jogar não se encontram outras pessoas que possam ser atingidas pelo seu taco ou bola, e caso considere que a bola pode atingir alguém após a tacada, deverá emitir o famoso aviso “fore”. 

 

Deve também mostrar consideração para com os restantes jogadores, não os distraindo nem fazendo qualquer gesto que perturbe o seu jogo. Do mesmo modo, deve-se posicionar num local que não afecte o planeamento da tacada do adversário. 

 

Ao mesmo tempo, deve assegurar-se que mantém o ritmo do jogo, não atrasando em demasia as pancadas e não fazendo os outros jogadores esperar nas deslocações pelo campo. Deve em igual modo respeitar as prioridades do jogo, esperando pela sua vez em casos de estarem a decorrer vários jogos no mesmo buraco. 

 

Por fim, mas não menos importante, deve respeitar o campo de golfe, deixando-o nas boas condições em que o encontrou e procurando minimizar os eventuais danos que possam surgir. Deverá por exemplo alisar as pegadas em obstáculos de areia, repor pedaços de relva que possam ter sido arrancados e ter o cuidado de não danificar a relva ao pousar o seu saco. (Fonte)

 

 

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5 comentários

De Anónimo a 13.11.2012 às 20:41

Excelente
José F Lopes

De ZITO AZEVEDO a 13.11.2012 às 21:59

Mais uma vez me senti a consultar a memória e "vi" o grande amigo José Fortunato Abbu-Raya sobraçando o seu saco de golf a caminho da Ribeira de Julião, onde ele e outros carolas se divertiam, horas a fio,  a dar tacadas, julgo que no único campo não relvado do mundo...Esatavam fazendo História e não se davam conta!

De Valdemar Pereira a 14.11.2012 às 07:46

Excelente ocasião para se falar de jogadores mais velhos ou anteriores ao Djidjê Fortunato que, efectivamente, atravessava a cidade para ir ao campo de jogos.
Não me vou meter neste assunto por ter gente que foi criada com tacos na mão e também os concertava ou os recuperava carinhosamente para oferecer ao miùdos.
Seria ainda mais uma oportunidade para se falar do grande desportista e animador Dr. Antero de Barros e dos seus companheiros, nomeadamente dos que foram representar S.Vicente no Estoril e sairam airosamente. Este é dos mais belos capitulos da Histôria do Golfe de Cabo Verde e pessoa melhor documentada enriqueceria este artigo da Na Esquina do Tempo.

De Anónimo a 14.11.2012 às 14:06

Se fosse posível Nomes na Fotografia, Please
José F Lopes

De Brito-Semedo a 14.11.2012 às 14:23

Caro Amigo, Afinal sempre havia a legenda da foto feita por Luiz Silva (França) em um outro post sobre o tema. De facto, só faz sentido publicar a foto com a legenda :-). Obrigado pelo comentário e, sobretudo, pela observação. Encostar-se à Equina do Tempo é isso mesmo :-). Um abraço

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