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Lembras-te!?

Brito-Semedo, 26 Nov 12

 

Dadal.jpeg

Dadal e Astrid Martins, Foto propriedade de Jorge Martins

 

À memória do Tio Dadal.

 

Idos de 60, ainda jovens, naquela irreverência própria de quem tinha o mundo nas mãos, o impossível era tão trivial que cabia num simples bolso ou numa revista de “quadradinhos”?

 

O que era o horizonte senão uma linha algures lá longe, que de tão longe, ficava já ali ao virar da primeira traquinice!

 

O que eram para nós os Super-Homens, Mandraque, Fantasma, Capitão Colt ou Ogan?

 

- Uns míseros heróis, cuja vida não durava mais do que meia dúzia de páginas duma revista qualquer trocada entre amigos.

 

Nós não! Juntos viajámos por Mundos que ainda hoje não foram descobertos, nesse transatlântico que, teimosamente, ficou sempre empilhado sobre um monte de cordas no quintal da vossa casa.

 

Cavalgámos pradarias no dorso de cavalos imaginários e fomos conquistadores de terras aos Índios, ou derrotámos esse invasor Cara Pálida em batalhas sem quartel.

 

Mas, o que é que havia de melhor que a travessia de continentes nesse único e infalível Mchimbombo, que mesmo parado andava, porque era guiado por um sonho de liberdade...

 

... são 17h 30m de um qualquer fim de tarde calmo, nessa madorna que só Mindelo conhece.

 

Com aquele ar, só dele, qual comandante de todos os mares e nós, a sua tripulação, abastecidos de víveres para atravessar uma galáxia – um sóc d’pom quent, compród na padaria de Nh’Antone Djudjim, um pacot de mantega d’bord e um faca – zarpávamos rumo ao desconhecido, ali mesmo, em percursos feitos vezes sem conta, repetidos outras tantas, mas em tudo diferentes.

 

Ainda hoje, refaço essas viagens na minha imaginação. São Pedro, Salamansa, Baia, Mot’Inglês, Craquinha, Seixal, percursos dessa realidade da infância de todos nós, lembras-te?

 

Esse odor único da mantega d’bord, comprada ao Cartolina ou na Ti Djô Figuera, e aquele pom quente... manhente!!

 

Tio Humberto, rabugento como ele só, era o responsável pelos víveres e na sua ausência, o meu pai, Titino, sempre mais fácil de enganar, naquela batota d’spissadeza para comer mais um pãozinho ou uma dose mais reforçada d’mantega, que, derretida, nos escorria pelos queixos.

 

Normalmente era tempo d´frio, na altura d’escola e aquele ventinho de fim de tarde, rafilon, castigava-nos pelas frestas do velho Machimbombo. Mas lá íamos nós pois esse era o momento mais aguardado do dia.

 

Um passeio pelas estradas da nossa infância onde havia sempre uma estória para contar ou uma pessoa para dar uma boleia, aliviando-lhe o peso de um penoso fim de dia d’mãe d’parida, naquele mourejar escravo, de catá um cathupa pa tapá boca d’stome num dzimparim.

 

Foram essas as expedições e as conquistas de uma juventude despreocupada, mas amiga e solidária.

 

Essa foi a nossa juventude. Lembras-te!?

 

Zoy (Jorge Martins)

Oeiras, Portugal

 

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4 comentários

De zito azevedo a 26.11.2012 às 22:18

Dadal era daquelas pessoas a quem ninguém conseguia ficar indiferente...Foi meu amigo, pessoal e profissionalmente e em ambas as circunstancias provou ser merecedor da nossa mais elevada consideração e estima o que, obviamente, tornou mais doloroso o seu desaparecimento...Passamos muitas horas, em sua casa, aos fins-de-semana, adiantando o serviço de extensíssimos despachos da firma em que eu trabalhava, numa dádiva de esforço que mais reforçava a nossa admiração...Acho que foi um privilégio tê-lo conhecido de tão perto...Saúdo-lhe a memória com a reverência que os bons merecem!
E aproveito para daqui mandar um apertado abraço ao Zoy!

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 27.11.2012 às 10:20

Na verdade , como escreveu o Zito , Sr. Dadal Martins , como homem e como um mindelênse , - ( doido varrido do club Mindelênse ) era uma pessoa popular... nao me esqueço quando êle saia das alfândegas à hora do almoço , sempre êle fazia uma paragem no Café Royal na rua de Lisboa , para tomar um aperitivo e escutar o trio em que eu fazia parte , como trompetista, o "tchuf " Pedro Alcântara no violao com a sua bela voz e também o " Lela de Preciosa " . Devo dizer que a familia Martins , pessoas que possuiam boas cordas vocais , que cantavam belissimo bem e que eu tive o prazer de acompanhar alguns tais como ; Adalberto Martins , Albertino Martins e também o sobrinho , " Cotxi " !.. Boa ideia Jorge , em teres trazido aqui na esquina do tempo , a memoria da tua familia - como disse o Zito- , bem merecido !..
Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..

De Anónimo a 30.11.2012 às 17:59

Um abraço Morgadin. Mantenhas

De Anónimo a 30.11.2012 às 17:58

Obrigado Zito e para ti e todos os teus também.

Mantenhas

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