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A Chave do Cadáver

Brito-Semedo, 17 Dez 12

"A ideia central deste livro foi a de passar em forma de livro alguns contos escritos em crioulo, na variante sanicolaense.

 

Eis que a melodia e a doçura, parte integrantes com que é formado e falado este idioma, me vêm assediando e enfeitiçando dias há, num convite persistente e, portanto, irrecusável, para assentar no papel esses contos maravilhosos, resgatando-os assim da vala do esquecimento, e não só.

 

Entre eles há uma interacção natural, um abraço mútuo, como é óbvio, do verdadeiro e do fictício, em que este, mais lhe serve de almofada.

 

Optei no entanto, por obedecer ao critério fonológico em lugar do etimológico por me parecer mais cientifico escrevendo as palavras na exacta forma em que são pronunciadas e cantadas fugindo também, quanto me foi possível ao estrangeirismo, uma vez que o crioulo sanicolaense de algum tempo a este parte, vem sendo “ enriquecido” com termos estrangeiros, provindos de fontes várias sendo o seu veículo, o emigrante.

 

Dada a fluidez com que se fala este idioma em pauta, isto é, sem quaisquer nós no discurso, a perturbar a sua suavidade escorregadia e a sua vizinhança com a língua mãe - o português - não vi a necessidade de fazer a sua tradução.

 

Entretanto, reflectindo sobre o assunto, fui conduzido, ao amparo de associações de ideias, a consultar o Mestre Baltasar Lopes da Silva, quando disse e escreveu que - 97% o nosso crioulo proveio do português - in Escritos Filológicos e Outros Ensaios, pag. 223. Fim da citação.

 

O nosso crioulo é um português, dir-se ia mal falado: não é preciso ser-se linguísta ou filólogo, para constatar isso.

 

Há uma similitude entre o crioulo e o português, tal qual se nota entre as línguas novi-latinas.”They are fruits of the same root”, ou, para quem quiser, são frutos da mesma raiz.

 

Portanto, o crioulo de São Nicolau é uma mistura do português arcaico com alguns termos do crioulo africano, fundidos no mesmo cadinho.

 

O crioulo é originário do encontro de dois povos com culturas diferentes, cores, usos e costumes que se juntaram em lugar também diferente para ambos e que se cederam de parte a parte em simbiose para poderem sobreviver, cfr. João Lopes Filho.

 

Eis senão quando, com a vinda dos colonos não havia mão-de- obra, pelo que viram obrigados a pôr o problema ao reino, o qual lhes facultou um documento denominado Carta de Privilégios, com o qual passaram a comprar escravos na costa da Guiné, por algum tempo, sendo-lhes posteriormente retirado a tal Carta.

 

Posto isso, os colonos passaram a viver com as africanas, tendo resultado, dessa miscigenação, o nascimento de um povo híbrido - o cabo-verdiano mestiço e de uma nova língua.

 

Temos nove ilhas, cada qual com o seu idioma que as caracteriza. Não se misturam, cada uma tem a sua personalidade própria, o seu talento próprio, e bem assim o seu estatuto, o que se pode constatar pelo falar dos habitantes de  cada ilha, que pelo seu falar já se identifica de que ilha pertence.

 

Na minha opinião, salvo a melhor, e porque não embarco em hipóteses especulativas, essas variantes deverão ser conservadas e preservadas, a fim de não perderem a sua originalidade e/ou essência, atendendo a que representam um dos nossos mais valiosos tesouros antropológicos […]".

 

in "Prólogo" do Autor

 

 

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1 comentário

De Adriano Miranda Lima a 18.12.2012 às 00:52

Gostei imenso de ler a apresentação deste livro, que gostaria de vir a adquirir. Registo a afirmação do autor de que o crioulo tem no português a língua mãe, verdade indesmentível que parece causar engulho e embaraço a algumas pessoas geograficamente localizadas.

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