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Recordar Nhô Roque

Brito-Semedo, 24 Set 10

 

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– Carlos Filipe Gonçalves (Kalu de Nhô Roque), Jornalista

 

No ano passado recebi um convite para fazer uma saudação numa evocação de Nhô Roque, em Mindelo, mas circunstancias várias impediram-me (eu e mais de uma dezena de convidados) de chegar a S. Vicente. Um temporal obrigou o avião a regressar à Praia… Assim, não pude apresentar o texto que eu devia ler no dia 25 de Setembro de 2009, e que agora disponibilizo aos leitores do Blog de Brito-Semedo.

 

Ao receber o convite para participar nesta mesa-redonda, devo confessar, fiquei um pouco embaraçado… É que eu, um apaixonado pela música, não sou especialista em literatura, nem nunca fiz nenhum trabalho neste domínio.

 

Não me cabe pois, traçar uma biografia ou fazer uma análise da obra, de António Aurélio Gonçalves (S. Vicente, 1901-1984). Esta tarefa cabe às personalidades aqui presentes, estudiosos que se tem especializado na vida e obra deste nosso familiar.

 

Mas, eu não poderia negar a minha presença aqui, na qualidade de membro da família, para dirigir algumas palavras a Vossas Excelências.

 

Como sabem, fui criado e educado, por este meu tio. Com ele vivi sob o mesmo tecto desde a minha tenra infância até aos 21 anos… Tenho pois, o que poderei chamar de uma visão de dentro, deste homem, e que vou partilhar convosco.

 

Antes de mais, Nhô Roque para nós é outra pessoa, porque Nhô Roque para nós é Roque da Silva Gonçalves o meu ilustre avô. António Aurélio Gonçalves, no seio da família é e sempre foi tratado por “Toi” este diminutivo, bem cabo-verdiano de António ou então Mano Toi.

  

Bem, a partir de agora vou falar na situação de dentro da família, como entre nós vimos e vivenciamos a figura do Toi. Porque sempre o tratei por Toi. Vou vos contar o que eu vivi e o que eu ouvi dos meus mais velhos. Comigo vão ter a oportunidade de entrar para a intimidade do n.º 31/33 da Rua da Papa Fria e saber como é que se vivia lá dentro.

 

O meu avô Nhô Roque era uma figura distinta, um homem culto que possuía uma grande biblioteca e era figura destacada da vida mindelense. Nascido em 1866, foi contemporâneo de Eugénio Tavares e Pedro Cardoso, com quem manteve relações de amizade e correspondência, assim como com outras destacadas figuras daquela época.

 

Contavam os meus mais velhos, Toi, esteve ausente de S. Vicente mais de 20 anos. Ele foi para Lisboa em 1917 para continuar os estudos liceais depois do seminário de S. Nicolau e fazer um curso superior. O meu avô, queria que ele fosse médico. Assim, ele matriculou-se em medicina. Ao fim de dois anos, ele escreveu ao meu avô a dizer que ele não gostava daquele curso, sobretudo das aulas de anatomia e da dissecação de cadáveres. Aquilo não era para ele, disse numa carta. E assim mudou de curso. Foi estudar Belas Artes, depois outros cursos e, finalmente, História e Filosofia. E assim, passaram anos e anos…

 

E foi depois de muita insistência do meu avô, que ele voltou. O meu avô queria antes de morrer ver o filho formado. Ele voltou e pouco tempo depois Nho Roque faleceu. E na casa de Nho Roque na Rua da Papa Fria, continuou a viver este homem, distinto, ilustre que passou a ser confundido com o pai já falecido. E assim, de Toi de Nhô Roque, ficou a ser conhecido simplesmente por Nhô Roque.  

 

Toi, é para nós, um entre outros grandes homens da nossa grande família, que tem no seu seio, entre outros, o tio José Lopes, o primo Baltazar, o tio Ferreira, o vovô Armando, e muito e muitos mais, primos ou tios que se destacaram no mundo das Letras.

 

É que quiz o destino que os Lopes da Silva, os Fernandes e os Gonçalves e, finalmente, os Ferreira, em Portugal, tivessem laços através de casamentos e amores.

 

Se António Aurélio Gonçalves, ou seja, o Nho Roque, é uma figura, digamos, mítica para o povo de S. Vicente, devido à sua especial forma de ser e de estar na vida, acreditem que o Toi com quem vivemos é também uma figura especial. Um homem bom, um homem que se comovia depressa com os problemas dos outros, um homem que fazia o bem, que ajudava os outros com o pouco que tinha. Emprestava dinheiro… que jamais lhe era devolvido, comprava revistas e livros que lhe traziam só para ajudar, comprava as coisas mais incríveis que homens e mulheres do povo lhe traziam e julgavam que lhe interessava. Ele comprava só para ajudar. Ele até chegou a pagar uma passagem a uma pessoa para se ir tratar em Portugal! Lá em casa, estas bondades do Toi, quando eram descobertas, levavam a discussões… As primas e a irmã lhe diziam claramente: Toi é jôte!!!

 

Toi era um homem simples, com as suas manias, as suas virtudes e os seus defeitos. Ainda eu era criança com os meus 6 anos, eu admirava quando ele chegava em casa e todo preocupado, andava incessantemente, durante horas, a passos largos cantarolando, entre a sala de visitas, sala de jantar, o quarto da escada e varanda interior. Diziam as minhas tias: Toi está concentrado! E houve um dia que ele trouxe uma pequena mesa redonda, e uma máquina de escrever… passou dias escrevendo (e andar pela casa) e eu encantado junto dele a ver a máquina de escrever tac, tac, tac… E a minha tia me dizia: Silencio! O Toi está a escrever um livro! Vai brincar para outro lado! Mas o Toi nunca me repreendeu, ele ficava ali concentrado a escrever. Hoje eu sei que ele estava dactilografando a novela “Enterro de Nha Candinha Sena”, que viria a ser editada algum tempo depois. Ele escrevia a lápis em cadernos e blocos e depois era ele próprio que fazia a dactilografia. Mais tarde, a partir dos anos 1970, ele passou a pagar a dactilógrafos profissionais, para lhe passarem os textos que depois ele corrigia. 

 

Era à mesa, ao almoço ou ao lanche (o chá das 6 horas, uma tradição mindelense herdade do chá das 5 dos ingleses), que se fazia a grande reunião de família. Era a ocasião para grandes conversas, sobre a vida social mindelense, sobre os acontecimentos do dia e sobre tudo o que tivesse interesse. Sentavam-se as minhas tias (Cármen e Julieta) e um tio cego (o Xavier) que vivia connosco, que era apaixonado por ouvir noticias na rádio e logo era um catalisador das conversas.

 

Devo dizer que foi à volta dessa mesa que recebi as maiores lições da minha vida. Toi era um homem sintonizado com a actualidade, ele ouvia a rádio, lia as revistas Paris Match, Vogue e outras… Saía a passear pelas ruas e lojas de Mindelo, onde encontrava as mais diversas pessoas, que lhe contavam as novidades.

 

Ali por volta dos meus 14 anos, foi da boca do Toi que conheci os Beatles… Ele comentava uma noticia da BBC e explicava à minha tia, que os Beatles tinham-se tornado um fenómeno de sociedade na Inglaterra, devido à moda dos cabelos compridos… Só muito depois tomei contacto com a música através da rádio.

 

Bem, quanto à música, Beatles, eram para ele uma loucura… Toi gostava de música clássica e das mornas (ele comentava sempre sobre os bons compositores crioulos… Pitrinha, B.Leza, Luluzim, etc.). Ele criticava muito os compositores populares, por utilizarem muito, palavras como Sol, Mar, Lua e Céu nas letras. Ele brincava dizendo que este tipo de letras já estava gasto e não constituiu arte. Toi possuía um aparelho “móvel Telefunken” (conjunto de rádio e gira-discos) onde com os amigos fazia sessões de escuta de discos de música clássica, comprados na Casa do Leão.

 

O lanche, às 6 horas da tarde, era um grande momento lá em casa. Para além dos membros da família, havia uma outra figura: o João Lopes. Ele era, note-se, o único amigo de Toi que tinha entrada na intimidade da casa e, connosco, sentava à mesa todos os dias para comer. João Lopes era como se fosse uma pessoa de família. Se chegava antes, entrava e ficava à espera.

 

O lanche obedecia a um ritual. Primeiro, Toi trazia os diversos utensílios para fazer o chá, ou seja, o fogão, a cafeteira e o famoso pacote “Brooke Bond Tea”. Ele próprio acendia o fogão, fervia a água e fazia o chá. Toi teve uma série de fogões: primeiro, um fogão primus, depois um fogão a petróleo, depois um fogão eléctrico e, finalmente nos anos 70, um camping-gaz! Toi tinha o seu bule, a sua cafeteira, o seu frasco de álcool para acender o fogão primus, a sua caixa de fósforos, tudo guardado no escritório, a sala ao lado. Quando era a hora do chá, ele trazia tudo para a sala de jantar e depois tornava a levar para o escritório.

 

Entre acender o fogão, ferver a água e fazer o chá no bule, ele conversava com o João Lopes e nós todos, sobre os mais diversos assuntos. Quando eu já tinha os meus 16 anos, um tema muito discutido era a Guerra do Vietname, os bombardeamentos ao Porto de Haiphong, a atrocidades da guerra, o uso do napalm…

 

Ele sempre se preocupou com a formação das pessoas, já naquela altura, meados dos anos 60, Toi e João Lopes discutiam muito sobre temas de educação, diziam que necessitávamos de gente preparada, educada, formada…

 

Depois do lanche, ele recolhia-se com o João Lopes ao escritório, onde depois da escuta das notícias da BBC, por volta das 20 horas, ou saíam para um passeio ou ficavam a conversar até altas horas da noite. O escritório era o local de encontro com os grandes amigos onde discutiam os mais variados temas. Frequentadores assíduos, ou seja, de quase todos os dias: os dois Dr. Chantre (Chantron e Chantrin), Dr. Teixeira de Sousa, Manuel Lopes, quando estava de visita a Mindelo.

 

Toi, foi um homem reservado, que não gostava de aparecer e de estar em destaque. Festas só ia quando o convite era irrecusável… Ia, mas saía logo depois de fininho. Chegavam semanalmente lá em casa os mais diversos convites, ele lia e depois deixava-os aí, sem dizer nada. Mas ele não perdia as tertúlias, almoços e piqueniques com os outros amigos do movimento Claridade no Mato Inglês ou os almoços em casa do Baltazar ou em casa da D. Lourdes Chantre. 

 

Ele adorava os bibelôs, que ele comprava em quantidade, adorava os bons tecidos, que ele guardava anos e anos, sem jamais confeccionar um fato novo, até que eram comidos pelos bichos. Comprava perfumes chiques, que não usava.

 

Toi foi um homem muito evoluído para o seu tempo, com hábitos de vida saudável, que só hoje estão a ser mais divulgados e valorizados em Cabo Verde. Fazia as suas caminhadas, que os mindelenses achavam exóticas. Uma das favoritas, era nos anos 1950, o passeio até Cova de Inglesa, onde fazia o que chamava exercícios respiratórios. As pessoas pensavam que ele andava a meditar e filosofar, o que inspirou muitas anedotas, no espírito sarcástico dos mindelenses. Mais tarde ele passou a fazer essa caminhada até à Matiota, no que hoje se chama “cross”. O desporto favorito de Toi era o montanhismo (e adorava o alpinismo). No Paris Match, apreciava e comentava as fotos e noticias sobre alpinismo. Ele comprava sempre sapatos adequados para o montanhismo, tinha a sua mochila e houve tempo em que ele ia ao Monte Verde, João d’Évora e outros locais em caminhadas a pé. Todos devem se lembrar das botas que ele sempre usava… Era por isso, porque ele gostava daquele desporto… Hoje os jovens usam sapatilhas de marca!!!

 

Toi, tinha hábitos alimentares, esquisitos para o senso comum. Adorava o chá da Índia, que hoje se sabe é um bom anti-cancerígeno, muita salada, bom peixe, que ele próprio ia comprar ao Pelourinho de Peixe. Aliás Toi é quem fazia muitas das compras lá de casa, inclusive, no talho onde ele recomendava os seus bifes.

 

Espero nestas breves pinceladas ter conseguido traçar o perfil de dentro de casa deste grande homem. Em outra ocasião ou talvez num livro, eu possa aprofundar mais e trazer a público, pormenores interessantes da minha vida junto com Toi.  

 

Para finalizar, devo dizer que foi oportuno assinalar António Aurélio Gonçalves, nos 25 anos do seu passamento.

 

Mas mais oportuno, para mim, foi poder falar do Toi no dia hoje, 25 de Setembro, dia do seu aniversário. Há 25 anos num dia como hoje, Toi estava muito triste, ele tinha recebido no dia anterior a notícia da morte de uma prima muito querida, que vivia há muitos anos na América. Nesse dia ele foi à gaveta da cómoda tirou e vestiu uma camisa, que a prima lhe tinha enviado de encomenda há muito tempo. No dia seguinte, no final da tarde aconteceu o atropelamento na Avenida Marginal. Coisas do destino, como ele costumava dizer…  

 

Para concluir, devo, em nome dos familiares, saudar os especialistas e peritos, que através dos seus estudos e publicações tanto têm feito para engrandecer o saudoso António Aurélio Gonçalves e a sua obra… e devo especialmente agradecer o Governo de Cabo Verde, por toda a atenção que tem dado a esta grande figura da literatura cabo-verdiana (ver aqui a cidade do Mindelo).

_________

NB - Foto Casa de Nhô Roque, Rua António Aurélio Gonçalves, N.º 31/33, antiga Rua de Papa Fria (casa pintada com as cores azul e verde).

 

 

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3 comentários

De norina alves a 25.09.2010 às 21:09

Parabens Calu pela cronica q tao bem descreves.Nho Roque foi meu professor de Historia e Filosofia no liceu e eu convivi de perto c ele,ja que a minha rua joao machado era paralela à vossa rua de papa fria,para onde em miuda ia diariamente brincar.Ele era realmente uma pessoa particular na forma como lidava com os alunos,sempre afavel e bem disposto,que dava a ideia de ser distraido ,mas q no fundo, com o seu ar de filosofo assumido,estava sempre atento a tudo.Na minha turma no sexto e setimo anos,em q tinhamos em comum a disciplina de filosofia a todas as raparigas ele pos o diminuitivo do nome e tratavamos por esse diminuitivo.Daí o meu nome ter ficado Nory,assim como as outras por ex:Loty,Dory,Faty,Cuky,Vony.Bem hajas pela evocaçao desta grande figura.Um bj
.

De Brito-Semedo a 25.09.2010 às 21:44

Cara Amiga, Eu tenho uma certa inveja vossa pelo facto de nós sermos da mesma geração - a Geração da Água do Madeiral - e não ter sido vosso colega no Liceu ou na Escola Técnica. Sobretudo, tenho inveja pelo facto de não me ter privado com professores como Nhô Roque, Nhô Baltas e outros, de que vocês falam com tanto carinho e apreço! Enfim!...
Evocar Nhô Roque "dentro de casa", assim desta maneira, só podia ser uma pessoa como o Calú, que privou com ele na intimidade. Obrigado, Calú, pela partilha!
Desse escritor mindelense, que só via passar na rua, mas com quem nunca troquei palavra, apesar de ser amigo das suas filhas, escreverei no próximo dia 30, fazendo referência à falta que deixa à literatura cabo-verdiana!

De Alice de Matos a 27.09.2010 às 20:50

 

</a>Asiáaati-ca! Asiáaaati-ca! Assim pronunciava Nhô Roque esta palavra que se tornou o elo da minha comunicação com o meu Professor de História. Dita como só ele sabia, numa sonoridade algo pausada algo timbrada, prolongava o “a” acentuado e retinha, mal nada, as duas últimas sílabas, deixando-as cair depois. Para Nhô Roque, eu era a asiática. Não me lembro de lhe ouvir pronunciar o meu nome próprio. Estava eu desatenta nas palavras mas embevecida perante a dimensão do saber que ele tão bem “declamava”? Lá vinha: Asiáaati-ca! Asiáaaati-ca! Aguardava de mim a resposta a uma interpelação? Asiáaati-ca! Asiáaaati-ca! Passava por ele, correndo, em estrondosa cavaqueira com colegas, ou furtava-me ao seu encalço, na rua, fingindo não dar por ele? Asiáaati-ca! Asiáaaati-ca! Assim, duas vezes sempre, num intervalo premeditado entre a primeira e a segunda evocação, dando tempo a que a timidez que se escondia na aluna extrovertida que eu parecia, deixasse sair uma resposta, qualquer coisa.


O currículo, o programa de ensino, não devia fazer o menor sentido para Nhô Roque. E bem que não fazia. Eu que fui para aprender História, aprendi Cultura e Vida. Mulher feita, quando ando pelos museus do mundo, levo o quanto me ficou das aulas do 6º e 7º anos do meu tempo, verdadeiras lições de Arte. Não consta que ele tenha corrido mundo, mas viajou pela cultura universal, através dos livros e revistas que devorava na sua casa da Rua de Papa Fria. Quando pôde (re)encontrar, no real, acontecimentos e lugares, era aquele deslumbramento, como daquela primeira ( e única) vez que visitou Paris, integrado numa delegação do então Presidente da República, Aristides Pereira. Conta-se que era ouvi-lo identificar e localizar, num frenesim descontrolado de menino que responde a uma sabatina, ruas, “places”, boulevards. Quiosques e bistrots. Pontes, igrejas e jardins. Marchés. Nas aulas, ele não expunha. Declamava. Gostava do que falava. Esse amor pelo conhecimento que se transfere conta muito para quem aprende. E Nhô Roque não tinha pressa. Dava-se todo o tempo do mundo para saborear o momento da entrega. Nhô Roque não terminava as aulas. O sino é que muitas vezes lhe/nos punha fim à poesia do saber que ele transmitia.


Quando se evoca Nhô Roque, à saudosa lembrança da frágil figura do meu Professor junta-se a voz que me interpelava, meiga e paternal, sentindo-me como outrora, a menina vaidosa, elogiada pelo nome e pelo professor que mo dera. Asiáaati-ca! Asiáaaati-ca! 



</a>Alice de Matos


</a>

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