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Não levem em conta este meu texto de apresentação mal alinhavado – juro que não foi por falta de ciénça – de que só me decidi a fazer depois do Comunicado Urgente da NASA sobre o dia 21 de 12 de 2012, data essa marcada pela II Feira da Palavra do Ministério da Cultura para a apresentação do livro de Tchalê Figueira, que passo a reproduzir:

 

“Depois de intensas investigações sobre o fim do mundo vaticinado pelos ‘Os Maias’, afirmamos que:

 

- No dia 21 de Dezembro, ao fim da tarde, o céu se escurecerá, pelo que não há motivos para se preocupar.

 

Isto deve-se a um fenómeno muito comum e interessante chamado ‘noite’, que ocorre cada dia devido à rotação da Terra”.

 

E eu que pensava que me ia safar deste compromisso tenho agora a responsabilidade de não fazer feio nem de deixar o meu amigo Tchalê Figueira ficar mal.

 

Este é o segundo livro que Tchalê Figueira me pede para fazer a sua apresentação e creio isto ser devido, por um lado, à nossa amizade de diazá e, por outro, como jóia de admissão à ASBA-50. Há também o descaramento do Tchalê: “Um ca ta dzê obrigado pa mode um cre más!!!!” Um amigo atura cada coisa!

 

Atenção, não estou a falar de as bá cabéça ou djá-z ba cabésa (já perderam o juízo), se bem que não estejamos livres desse rótulo. Refiro-me à sigla Associação da Safra Boa dos Anos 50, um projecto da criação de uma associação dos nativos mindelenses dos anos cinquenta com alguma pancada, melhor, com alguma queda, digo, dom. A dificuldade que temos vindo a enfrentar na constituição dessa associação é a da falta de definição dos critérios de admissão, se bem que já tenha avançado com os de inteligência, independência de pensamento, verticalidade, sensibilidade, charme e bom gosto.

 

 

Fotos Roland Anhorn, Praia, 21.Dez.2012

 

Agora que fui mandado para SonCent vou fazer por ser admitido na Confraria do Arco, onde têm assento permanente os confrades Germano Almeida, Vasco Martins e o próprio Tchalê Figueira, e convencê-los, primeiro, que também mereço lá estar e, depois, da justeza desse nosso propósito em criar a ASBA-50.

 

Para quem não saiba, o Arco fica na Praia do Norte, na ilha de S. Vicente. Norte que, de facto, fica a Este, situado aproximadamente a 23,33 (segundo medição GPS do François Guy da Boa Vista), acima do nível do mar e virado na direcção do Sol Nascente, talvez 14,5º Nordeste. A construção deste arco é de 1998 e deveu-se a Vasco Martins por imperativos filosóficos e poéticos.

 

O que estava a dizer mesmo?! Perdi-me nestes atalhos e devaneios. Bem, já não interessa! O importante mesmo é falar do livro e do seu autor.

 

O artista plástico Tchalê Figueira, nascid e criód na Rua da Praia de Bote, cidade do Mindelo, e cidadão do mundo, é, para além de pintor, poeta e ficcionista, tendo já editado Todos os Naufrágios do Mundo (1992), Onde os Sentimentos se Encontram (1998), O Azul e a Luz (2002) e A Viagem (2012), poesia; e Solitário (2005), Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-Navegação (2005), Contos de Basileia (2011) e agora, claro está, A Índia que Procuramos.

 

Esta novela do Tchalê Figueira -  A Índia que Procuramos - é, na verdade, uma estória sobre questões da identidade crioula, contada através de duas viagens de amigos. Uma, geográfica, cujas referências são Mindelo, Praia e Basileia, da personagem-narrador António Pereira, e outra, psicológica, pelos labirintos da mente e pela Índia mística e ancestral, da personagem Roberto Hauser Soares.

 

A estória de Hauser Soares – um meio cabo-verdiano meio suíço, filho de pai de Santo Antão e mãe suiça, velho amigo e colega na escola de arquitectura em Basileia – “a história da minha viagem em busca de paz interior”, que chega como uma encomenda em forma de manuscrito expedido da Índia, e que nos é narrada em fragmentos, de forma on-off, aos bochechos, ou melhor, a golos do um bom vinho tinto Quinta dos Carvalhais, casta Touriga Nacional, oferta de João d’Aveiro, director do CCP. “Nestes momentos de excitação e curiosidade é certo que um bom vinho dá tranquilidade ao espírito”.

 

A “pessoa de papel”, a personagem António Pereira, confunde-se com o seu criador, o autor – “tenho 1 metro e 95, sou mulato com cabelos lisos compridos. Há quem diga que tenho pinta de um cacique índio” […]; “vesti o meu fato de linho, calcei umas elegantes alpargatas” – que transfere para ele a sua postura de artista anarquista usando um discurso crítico e agressivo feito com palavras duras, as mesmas que Tchalê Figueira usa nos seus textos de intervenção social e nas suas pinturas fortes, de que é exemplo a exposição “Homens e Bestas”, a decorrer na Praia, neste mesmo espaço do Palácio da Cultura Ildo Lobo.

 

A estória angustiante de Hauser Soares é contada em breves e doloridas palavras:

 

“Meu nome é Roberto Hauser Soares. Nasci na cidade de Basileia, na Suíça, nos anos cinquenta. Sou filho de Marta Hauser e de Francisco Soares, oriundo da ilha de S. Antão, uma das ilhas do arquipélago de Cabo Verde. Logicamente que sou mulato, de pele e fisionomia pelo lado do meu pai, mas sou a mistura de continentes. Segundo os paleontólogos, a África é o berço de todos os homens. Infelizmente, por ignorância e preconceito, todavia muitos rejeitam ainda este facto e, como dizia o filósofo alemão Schopenhauer, quanto mais conheço os homens, mais gosto do meu cão.

 

Como homem de pele escura, passei na minha infância em Basileia sérias contrariedades. Algumas, logrei superá-las graças à ajuda de meus pais e dos poucos amigos que tive. Como dizia anteriormente, nasci na cidade Helvética de Basileia, onde fui, durante muitos anos, a única criança mulata naquela cidade. Este facto complicou muito a minha existência. Ser aparentemente desigual pode ser terrivelmente angustiante […]”.

 

Não esperem que vos vá contar a estória ou revelar o seu final, pois não? Ainda apanho na cabeça e perco o direito a ser membro-fundador da ASBA-50

 

Autor: Tchalê Figueira

Título: A Índia que Procuramos

Ano de Edição: Dezembro de 2012

Editora: Dada Editora

 

Manuel Brito-Semedo

Praia, 21.Dezembro.2012

 

 

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2 comentários

De Maria Antónia a 28.12.2012 às 10:21

Como se define um intelectual??? Como se ganha esse Titulo??? A meu ver intelectual é um pensador, com uma grande cultura e experiência de vida!! Aquele que faz uso da sua "intelectualidade" na resolução das questões sociais, ou seja que contribui e ajuda no desenvolvimento da sua sociedade. AGORA GENTE QUE SE ACHE ARTISTA E COM ISSO O ESTADO LHES ATRIBUI UM SALARIO VITALICIO DE 80.000$00 SEM DAR NADA EM TROCA A NÃO SER A ELES MESMOS, ISSO É INTELECTUALIDADE??? GENTE QUE NÃO FAZ NADA E PORQUE PRODUZIRAM UM LIVRINHO DE HISTORINHAS RECONTADAS OU POESIAS MEDIOCRES ACHAM-SE INTELECTUAIS? Pelo Amor de Deus vão trabalhar e deixam de ser sanguessugas dessa sociedade!!

De Roberto a 06.05.2013 às 12:05

Muito obrigado por este post. É sempre um prazer ter notícias da vida cultural caboverdeana, para quem vive longe desta terra. Gostaria muito de ler o livro de Tchalé Figueira. Onde se pode encomendar? A Dada Editora não parece ter sítio eletrónico e as livrarias qui em Suiça não têm contactos com ela... Alguem me poderia ajudar? Obrigado e muitos cumprimento de Basileia!

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