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Ainda Sobre a Origem da Morna

Brito-Semedo, 26 Dez 12

 

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Desde há algum tempo, sobretudo dos USA, me têm perguntado sobre a origem da Morna. Pergunta que eu não posso responder com uma certeza científica exata, pela simples razão que não existe (ou se existe ainda não encontramos), documentos ou arquivos comprovativos, mas à qual se pode responder com uma certeza científica concludente, tendo como utensílio a moderna Musicologia Comparativa.  

 

Pois tudo indica que a Morna nasceu na ilha da Boavista. O próprio Eugénio Tavares, grande compositor de Mornas e um homem culto, escreveu no seu livro, em 1930, a famosa frase lapidar: «A Morna nasceu na ilha da Boavista». Existe portanto uma tradição oral que se tem que seguir, estudar, analisar. Foi o que fiz no livro «A Morna-A música tradicional de Cabo-Verde 1», editado sob a égide da UNESCO (isto é, passado a pente fino pelos musicólogos e etnomusicólogos dessa Instituição) e, posterior aprofundamento que será publicado em «Cabo-Verde Ressonâncias», no meu site.  

 

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A ilha da Boavista prestava-se, na metade do século XIX para que esse ‘nascimento’ acontecesse: os ingleses tinham posto uma armada em Sal Rei para controlar a extinção do tráfego de escravos: tornou-se uma ilha de notória dimensão politica e económica, com representações diplomáticas e com tráfego de pessoas de várias nacionalidades: comerciantes judeus do Norte de África, brasileiros, portugueses, espanhóis, franceses, enfim um cadinho de povos e culturas que se juntaram nessa ilha; uns fixados outros de passagem, promulgando-a como uma das mais importantes ilhas de Cabo-Verde do séc. XIX, no domínio da política internacional, do comércio e dos contactos cosmopolitas, portanto culturais. 

 

Os judeus do Norte de África que lá se instalaram, devem ter trazido as suas canções melancólicas em tom menor. Os brasileiros devem ter trazido a modinha (luso-brasileira), os portugueses o doce lundum chorado (que tinha ido do Brasil para as cortes portuguesas). O Tango deu a sua entrada, como também o Rill dos ingleses, que ainda em 1985 fui encontrar em Sal Rei. E talvez pouco mais tarde o Fado (já no principio do séc. XX). Culturas e músicas que não podiam deixar de influenciar o povo ilhéu, povo esse em plena formação cultural, psicológica e física. 

 

A tradição das cantadeiras mantinha-se, e as compositoras compunham as mornas, seguindo a teoria defendida por António Aurélio Gonçalves (teoria essa que pertence também à tradição oral), que achava que no princípio a Morna era cantada por mulheres, as famosas «cantadeiras». A morna cantarolada por António A. Gonçalves, recolhida em 79 por João Freire e publicada em ‘Cabo-Verde Ressonâncias’, além dos temas com «Andamento de Tango» publicadas em 1880 pela Sociedade de Geografia de Lisboa, validam e podem demonstrar essa tradição provinda do «cadinho» citado. 

 

Na minha opinião este assunto, bastante legítimo para todos, não tem de ser desta ou aquela ilha, desta ou aquela convicção. É sim uma situação científica que tem a ver com a musicologia, a etnomusicologia, a musicologia comparada, a história, a linguística, etc. Não se pode pôr em causa uma teoria científica sem se apresentar outra teoria científica. Temos que ser lúcidos e defendermo-nos de ideias regionalistas, ou do demasiado amor que possamos ter à ilha onde se nasce ou se vive, ou ainda, o que é verdadeiramente confuso, a arriscadas distorções intelectuais. Sendo a Morna hoje em dia pan-caboverdiana e mundialmente conhecida, não há mais lugar, quando se deseja um honesto estudo musicológico, para o empirismo ou ideias que não tenham um lastro de competência musicológica. Devemos estar abertos a todos os estudos. Mesmo os que vierem de especialistas estrangeiros. Todo o estudo crível é importante. 

 

- Vasco Martins

Ribeira de Calhau (S. Vicente), 25.Dez.2012

 

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1 comentário

De João Sá a 28.12.2012 às 06:43

Estimado :)


Este delicioso e (para mim) tão educativo post está em destaque Na Rede na homepage do SAPO Cabo Verde (http://sapo.cv).


Lembro que poderá sempre ver o histórico dos destaques - que no seu caso são muitos :) - na homepage dos Blogs: http://blogs.sapo.cv/.


Deixo desde já votos de continuação de boas festas e de um excelente 2013. Que nos encontremos muito por aqui, nesta Esquina onde se está tão bem.

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