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Bói d’ Conjunto

Brito-Semedo, 30 Dez 12

Foto Jorge Martins, Oeiras, 26.Dez.2012
 

 

- Para as manas Liliza e Raquel

 

Conversando com uma menina do meu tempo sobre o Bói d' Conjunto de hoje, dia 29 de Dezembro, o 1.º a que faço questão de ir, apesar de não ser de dançar nem ter par, baile esse que é realizado no Alta Maré, numa tenda montada à frente da Gare Marítima, com um naipe de músicos  de luxo: Tito Paris, Dûdû Araújo (estes, dois meninos da Chã de Cemitério como eu), Cabo Verde Show e Leonel Almeida. Na embalagem da conversa evocamos os bóis d’ conjunto de diazá, do tempo das nossas mães.

 

Contei da Xanda, de como ela se arranjava e se punha bonita para ir para esses bailes de viola e bic, de rabeca e de clarinete e trompete no Zé de Canda e Jon Bintim e de como os preparativos começavam muitas horas antes lá em casa.

 

A Xanda começava por pôr o cabelo no rolo, pintava as unhas das mãos, caprichava no traço das sobrancelhas com lápis preto, carregava no pó-de-arroz, borrifava-se com perfume da Drogaria Djandjan, fazia um sinalzinho na cara com a ponta do lápis, que molhava na boca, pintava o bico de vermelho, punha um vestido de cor clara que lhe assentasse bem, calçava seus sapatos de festa, umas sandálias de tiras com salto, e lá ia ela vaporosa e feliz! Já taludinho, eu é que não gostava nada de a ver sair assim! Morria de ciúmes dela. Nesses dias dormia sempre tarde, mas ficava atento e à espera que ela voltasse para casa, o que normalmente acontecia lá pela manhãzinha, trazendo para mim e para a minha irmã uma barrinha de chocolate, uns drops, um pacotinho de bolacha ou uma latinha de Sumo Compal. Sabe de mund! Nessa hora eu sentia-me compensado!

 

 

Foto Jorge Martins, Oeiras, 26.Dez.2012

 

Nostálgica, a minha amiga acompanha-me nessas recordações: - A minha mãe fazia seus próprios vestidos de baile, de bolinhas, de saia godê, cinturinha bem marcada e lá ia ela com as amigas e a tia-guarda-costas. O meu pai, nessa época apenas namorado, caprichava no lustro do sapato, na gravata borboleta e na brilhantina de boa qualidade.

 

Foi assim no SonCent de diazá, ano após ano, todos os sábados, até 1982, com os conjuntos King's, Grito de Mindelo e Granada. Em 2006, mais de vinte anos depois, Tito Paris "desencova" os  bóis d' conjunto e passa a realizar duas edições por ano, uma no Mindelo e outra na Praia.

 

- Manuel Brito-Semedo

 

Mindelo, 29.Dez.2012

 

 

 

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9 comentários

De Adriano Miranda Lima a 30.12.2012 às 12:53

Gostei de ler este texto. Eu que não fui um grande frequentador de bailes, por sinal mau dançarino, reconheço, no entanto, notável autenticidade nesta narrativa do Brito Semedo sobre os hábitos e costumes daquele tempo. Para mais, há uma nota de ternura e mitigada saudade que aflora nas suas palavras sempre que evoca a mãe.

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho ) a 30.12.2012 às 14:06

Oh... Brito-Semedo , " jà bô batê justim na nhâ técla " , Oh.. qu' sabe , teres trazido aqui nesta esquina , Boi d' Conjunto de diàzà , dos velhos tempos no Mindêlo . Devo dizer-te Brito , para além de eu ter animado bailes em quase todas as salas do Mindêlo , também eu assistia com um prazer imenso ,- boi de viola e bic- ...que se se aproveitava naquele ambiente tipicamente tradiconal o que era totalmente diferente de outros bailes , mais ou menos selectos !... Boi de viola e bic , mais tarde bailes de " rabeca " , com os famosos e inesquiveis tocadores ; Mochim d' Monte e Querena !.. Nos meados dos anos cinquênta , veio aparecer bailes com clarinete e trompete , em que eu fiz parte como mùsico durante alguns anos , antes de deixar Cabo Verde !..
Aquele obrigado pela lembrânça ;
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho ;

De Valdemar Pereira a 30.12.2012 às 14:25

Ahaha !!!
O Morgadim e também o Brito Semedo enganaram-se num pequeno detalhe porque um não se lembra (penso) e outro deve ter ouvido coisa de outra era.
Os bailes de que falam não eram de "viola e bic". Vão-se lembrar de certeza que eram de "bic e toc"; e acrescentavamos que eram "fnhenga de bic e toc".
Ou não serà? Penso estar no certo, rapazes.
Seja como, fizemos uma longa e bela viagem que merece um braça rije.

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho ) a 30.12.2012 às 18:25

Sim " VAL " tens razao !.. ( f nhenga d' bic e toc ) era utilizôde naquele tempe , na guarda cabeça , qu ' um garrafinha d' grôgue pâ tude gente , tocôde na dôs violao desafinôde !.. Nesta Esquina , o tempo volta para tràs e nao falta motivos , para nos fazer reviver com melhor gosto e ligria !..
Aquele abraço para todos os " bloguistas ", com boas entradas e até para o ano se Deus quizer !..
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho !..


De Valdemar Pereira a 30.12.2012 às 14:17



Leio o que diz aqui o dono do "Na Esquina do Tempo" e vivo momentos especiais da minha adolescência. Não que estivesse nos bailes com a Xanda porque ia aos meus que eram no Castilho das 16 às 20 horas e era mesmo sabe e por ela ser uma das mininhas da nossa Chã de Cemitério.
Mas tenho outras lembranças, não as que diz o autor do texto de hoje. Primeiramente da Xanda (penso que nascemos no mesmo ano) e que, embora não pensássemos ainda em namoricos, ela era mnininha de nôs laia, que viamos passar, e tudo ia nos conformes até o dia em que apareceu o pai do seu filho que havia de revolucionar tudo. Já falei disso neste blog hà tempos e lembro-me que todos tínhamos um ódio (ciume !!!) ao forasteiro que ainda por cima policia. Quando sai de S.Vicente com 21 anos já não pensava em nada disso mas o amor que o Manel guarda para a sua mãe faz-me perdoar ao pai a afronta que nos fez na altura.

De Brito-Semedo a 30.12.2012 às 14:24

Amigo Valdemar, Este seu comentário fez-me dar uma sonora gargalhada que ainda ressoa cá em casa! Essa foi boa! E foi assim que o destino impediu que fosse meu pai :-)
Braça grande da li-té lá.

De Valdemar Pereira a 30.12.2012 às 14:37

Os meninos costumam dizer "quando for grande caso-me com...". Penso que jà não empregava essa frase tão infantil mas que traduzia um sentimento especial para alguém (de qualquer idade) que queriamos. Também porque aos 17 anos se pensava mesmo que era quase hora de ter uma "piquena" e... talvez o que diz não sucedeu porque apareceu o tal "pliça de Praia" a "estramontar" a harmonia dos rapazins do largo de Tchã d'Sumter".
Acrescento que, por nunca mais ter revisto a Xanda, guardo ainda tudo de quando ela tinha aos seus 17 anos: beleza, educação e seriedade.
Pode rir, rapaz. Quem teve sorte foi o outro.

De Adriano Miranda Lima a 30.12.2012 às 21:42

Rapazes, não tenho vergonha de confessar a inveja que sinto de vocês por não ter tido  usufruto desses nossos  bailes antigos,  que normalmente me chegavam pelos sons de clarinete transportados pelo vento. . Terá sido por isso que num poema que escrevi há anos (Evocação da Praça Estrela) meti estes versos:


A espaços sulcam os ares gemidos de rabeca

Que o vento sacode na sua perdulária diversão

Como que despeitado pelo virtuosismo alheio

Janelas iluminadas engalanam um baile do Amarante

Para onde caminham raparigas de língua de prata

E saia plissada agitando-se ao sabor do vento

 

Nem mesmo quando comecei a ter a rédea mais solta me deu para entrar nesses bailinhos, a não ser em duas situações muito pontuais, e já com 19 ou 20 anos. Uma foi no terraço da casa do Manuel Chantre (mais conhecido por Lela Veneno), que deu um bailinho, reservado a amigos e  pessoas mais chegadas, para comemorar o sucesso no seu exame do 2º ano do liceu. Ele adulto, homem casado e com filhos, eu um rapazola, que, não obstante a pouca idade, fora o explicador e preparador para esse exame. A outra vez creio que foi o baile de finalistas do 7º ano. Ah, tomei parte também num baile de Carnaval no Eden Park, o meu último Carnaval em S. Vicente. Mas esses eram do género tudo ao molho.

Mas aqueles bailinhos populares é que tinham o seu sabor poético, e são eles que, por isso, puxam hoje para o meu imaginário, mesmo que eu não tenha passado de um mero espectador.

Também me ri um bocado com o “paradoxo da paternidade” que fez soltar a gargalhada ao Brito Semedo.

 

 

 

De Brito-Semedo a 30.12.2012 às 22:01

Caro Amigo, Agora com a reedição dos bailes de conjunto, sempre se pode matar a curiosidade ou mesmo a saudade :-) Precisa vir cá passar um fim do ano, com direito a um Bói d' Conjunto.
Um abraço e boa passagem de ano!

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