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In Memoriam Manuel Lopes

Brito-Semedo, 2 Jan 13

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Selo Des. Leão Lopes, 2007
 

O escritor Manuel Lopes completaria 105 anos de idade no passado dia 23 de Dezembro. Poderia estar vivo e lúcido assim como estava no dia 25 de Janeiro de 2005 no momento em que nos deixou. Digo isso porque convivi com ele até muito perto dessa data. Hoje, dia de Natal, 25 de Dezembro de 2012, após a notícia na nossa TV da morte de Dona Canô, mãe de Maria Bethânia e Caetano Veloso, músicos brasileiros, esperei (inocente) uma nota do tipo; também o escritor caboverdiano Manuel Lopes completaria, há dois dias (como havíamos noticiado), os mesmos 105 anos...

 

Esta expectativa seria natural se os tempos fossem de "memoriam" e se os "mais nossos" tivessem a força mediática que Dona Canô teve para além do Brasil e arredores. Manuel Lopes, apesar de nos pertencer mais de perto não chega - a avaliar pelos supostos critérios da nossa TV - a competir com tão emblemática mãe da qual não se sabe se produziu obra maior que seus dois ilustres filhos.

 

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manuel-lopes.blogs.sapo.cv

 

Manuel Lopes também produziu filhos, três, igualmente ilustres à sua dimensão. E, para além destes, legou-nos a nós, a todos os filhos desta terra, um importante património, uma obra literária que extravasa a exiguidade da nossa insularidade para ganhar foros de uma inquestionável universalidade, aliás, dimensão (total) da estética claridosa, ainda pouco compreendida e mal estudada entre nós. Manuel Lopes foi um dos mais importantes teóricos do movimento fundador "claridade"; de ruptura com os cânones de um romantismo (colonial) tardio, que estas ilhas haviam cultivado até então. Com seus amigos, Baltasar Lopes, Jaime de Figueiredo (este não claridoso), Jorge Barbosa, Manuel Velosa, João Lopes, Félix Monteiro, Augusto Casimiro (intelectual português, deportado em S. Nicolau por Salazar) José Osório de Oliveira (intelectual e funcionário português em serviço nas ilhas) questionaram um tempo, discutiram uma época, que muito se assemelha ao que vivemos hoje, especialmente sob o ponto de vista cultural e económico. Um tempo conturbado, que de alguma forma ainda nos assombra; de consolidação da ditadura do Estado Novo de Oliveira Salazar, de uma Europa a desconjuntar-se com os desastrosos efeitos da Guerra Civil de Espanha às vésperas da 2ª Grande Guerra.

 

Nesse tempo, de rescaldo da revolução industrial e consequente afirmação do capitalismo dito do conhecimento, na perspectiva marxista, estas ilhas já acompanhavam as transformações sociais e culturais que se operavam no mundo com produção de pensamento e conhecimento endógeno, crítico e de projecção internacional. A imprensa era pujante e sintonizada com o mundo, e apesar de colónia, o arquipélago experimentava um processo de afirmação cultural, sui generis, liderado por uma plêiade de jovens que nesses anos de crise e fome, puseram um ponto final à aleatoriedade de um pensamento idílico, romântico, sobre a história e a cultura destas ilhas para o contrapor uma nova estética que tinha Cabo Verde e seus desafios como ponto de partida para um novo ideário fundamentado em novos postulados ancorados na antropologia cultural, ciência então emergente no mundo de língua portuguesa. Estes jovens fundaram a Universidade "real", a "Universidade das Ilhas" - que funcionava entre os bancos da Pracinha do Liceu e o escritório de Manuel Velosa, na penumbra da Biblioteca da Praia, num canto qualquer da Alfândega do Sal, num recanto de Santo Antão ou de S. Nicolau, no meio do povo ou no intimismo introspectivo de cada um - para questionar Cabo Verde a partir de dentro, a partir do âmago da terra.

 

Mindelo era então o centro da criação e laboratório de um pensamento arquipelágico supra regional de dimensão universal, apesar da grande recessão económica (1929), que o mergulharia numa crise da qual jamais se recuperou. Daqui pensava-se Cabo Verde e seu devir, pensava-se as ilhas num contexto global.

 

Manuel Lopes, apesar dos seus dois ciclos de exílio que o levaria a manter-se afastado do grupo de amigos por muitos anos, de 1943 ao fim da vida, nunca perdeu o pé na realidade caboverdeana tendo produzido uma obra de tal integridade que o afirma como um dos intelectuais mais consequentes do movimento claridoso. Estes dois ciclos de exílio, o primeiro, voluntário na ilha de Santo Antão (1939-1943), seguido de um outro, o definitivo e por razões profissionais, para Portugal: Açores (1944-1955) e Continente (1955-2005), constituem o universo do exílio, mas não da obra que não se desenraízou da terra que a fecundou e que Manuel Lopes nos legou, posicionando o autor como um caso de fidelidade, exemplar, a um programa e proposta estética que cumpriu até ao fim da vida. Pois, não tendo partilhado a sua vida quotidiana, o escritor nunca deixou de vibrar em uníssono com o povo caboverdiano "nunca cessou de melhor o conhecer, de melhor o compreender".

 

Apesar do longo exílio, mas sempre comprometido com o mesmo ideal de afirmação de um Cabo Verde enquanto civilização, enquanto expecificidade cultural e identitária forjada por circunstâncias históricas num dado contexto de reconfiguração "espirálica" do mundo, Manuel Lopes terá sido o claridoso que mais sofreu a condição "claridosa" de ter os pés fincados na terra, sofrendo-a duplamente, pela ausência física e pela irremediável e inquietante presença no exílio. Baltasar Lopes, um dos companheiros mais próximos, era sempre lembrado pela renúncia que fez à condição de exilado. Não se deixou convencer a ficar por Portugal preferindo regressar às suas ilhas. "Era S. Vicente o seu lugar, fez muitíssimo bem e foi uma grande coisa que fez para todos nós", confessou-me um dia Manuel Lopes que transferia para Baltasar essa impossibilidade física e operacional de viver a terra na carne.

 

É esta dimensão de exilado que nunca partiu que faz de Manuel Lopes um claridoso particular, porque postulando o mesmo propósito estético cumpre na íntegra o ideal programático de Claridade, a partir de um novo ponto focal, extremamente curioso porque na verdade serão dois pontos focais sobrepostos. Um é o do claridoso que nunca saiu da terra, outro é o do caboverdiano que independentemente da sua entourage física, social ou cultural está irremediavelmente na terra, com a terra. Dois pontos focais que se distinguem mas que se fundem num só tratando-se de Manuel Lopes. O seu ensaio "Os Meios Pequenos e a Cultura", um dos principais textos teóricos do autor, produzido nos Açores, ilustra essa dimensão. Produzido a partir de uma conferência proferida no Salão do Sporting Club da Horta, ilha do Faial, Açores (28 de Março de 1950), o autor expõe a sua teoria de libertação dos espírito pela cultura, defendendo que é ao mesmo tempo o melhor instrumento de libertação dos meios acanhados e de neles promover o desenvolvimento. Manuel Lopes está pensando e projectando as suas ilhas. Contrapõe neste ensaio a noção de "meios pequenos" a de "meios acanhados". Para o autor, os meios pequenos não têm que ser forçosamente acanhados, podem superar os seus limites físicos e territoriais pela cultura do espírito, pelo conhecimento e pela sua produção criativa, enquanto que os meios acanhados, não permitindo "nem livres voos nem livres marchas", limitam iniciativas e restringem esforços individuais. Tanto um como outro meio extravasa a noção quatitativa do território e sua carga demográfica. Os meios acanhados significam carência de possibilidades de riqueza espiritual e material. Tanto um como outro, diria eu, são também resultado de políticas que as configuram enquanto tal.

 

Diz-nos Manuel Lopes que a tendência de meios pequenos (não acanhados):

 

"... é extravasar "todos" os seus limites, ou só "parte", consoante as possibilidades económicas forem satisfatórias ou modestas. Neste último caso socorrem-se do capital humano, - procurarão obter pelo prestígio do espírito em compensação, o que não conseguiram por meios materiais. Embora continuem a ser meios pequenos, já não são, todavia, meios acanhados. O limite físico já não importa visto ser ultrapassado: o espírito superou-o. O prestígio que daí advém provoca certamente um notável alargamento do horizonte psicológico - porta aberta para um sem número de vantagens e compensações, que comportam possibilidades que por sua vez constituem estímulos mais gerais para a realização de actividades até então sufocadas e negadas."

 

Do ponto de vista do autor, o alargamento do horizonte psicológico pressupõe a predisposição de espírito para romper com os limites da mediania de meios acanhados. Predisposição que apenas a cultura, enquanto produção e política para a libertação do indivíduo, logra realizar no espírito de uma Nação.

 

Este ensaio, produzido há mais de 60 anos e a pensar Cabo Verde como um meio pequeno, não acanhado, mereceria ser publicado e lido com os olhos de hoje, neste novo contexto político, económico e cultural. Manuel Lopes salvaguardava o arquipélago de então que a despeito de sua pouca importância populacional e económica não seria classificado de acanhado, ou pelo menos o termo "acanhado" não se lhe aplicaria. Porque nele "os livres voos" eram estimulados e normalmente praticados, aqui existiria um climax particularmente favorável à cultura do espírito e consequentemente condições de libertação do indivíduo. Estímulo que a partir de uma inquietação endógena, colectiva, à margem dos poderes políticos, à margem do discurso oficial (ao tempo colonial) a geração de 30 produziu como catarse, expurgo e libertação das amarras que tolhem e inibem a criação.

 

Claridade, o grupo de amigos, foi o território de purgação onde se processou o movimento de libertação do que era estranho à natureza do sujeito enquanto identidade e personalidade colectiva. É o próprio Manuel Lopes que rejeitando a colagem que muitos estudiosos pretendiam, entre os modernistas caboverdianos (claridosos) e os portugueses (presencistas), afirmou que seu grupo não precisava de mimetizar a proposta presencista. Até porque a dos caboverdianos estava definida à partida, era claramente outra, pois, ao contrário daqueles que procuravam uma estética não comprometida socialmente e nem mesmo politicamente, os claridosos tinham um programa comprometido com o colectivo, com a sua terra, com o seu povo, com a sua cultura.

 

Numa entrevista ao autor desta singela homenagem, em Lisboa, Julho de 1998, Manuel Lopes esclarece a propósito:

 

"... Presença era uma grande revista, mas nós não estávamos para copiar ninguém, não somos capazes de o fazer, não, não íamos fazer isso. Tínhamos personalidade... Cabo Verde tem personalidade suficiente para não precisar disso, tinha tudo. Quem criou a revista Claridade não fomos nós, foi aquela cultura, foi termos música, foi termos uma cozinha, uma dança, foi termos uma língua, foi termos tudo, tudo. De que precisávamos mais?"

 

Cabo Verde tinha personalidade suficiente, tinha tudo para não precisar de mimetizar o outro. Como veria hoje Manuel Lopes as suas tão amadas ilhas das quais nunca "partiu"?

 

- Leão Lopes

Dezembro 2012

 

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Brito-Semedo e Leão Lopes no pátio do edifício do antigo Liceu Gil Eanes, Foto Maria E. Catela, Junho.2010
 

_____________

Nota: Manuel Lopes nasceu em S. Nicolau a 23 de Dezembro de 1907. Com poucos meses de idade veio para S. Vicente com a mãe. Faleceu em Lisboa no dia 25 de Janeiro de 2005. Começou a publicar os seus escritos com cerca de 20 anos (1927) no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. Falucho Ancorado, colectânea de poemas foi a última obra publicada em vida. Tinha 90 anos de idade. A sua obra romanesca, Flagelados do Vento Leste, Chuva Braba, Galo Cantou na Baía, bem como a maior parte de seus ensaios e outros escritos, especialmente os romances, tendo sido editados em Portugal, Brasil, Kiev, França, nunca o foram em Cabo Verde.

 

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4 comentários

De Djack a 02.01.2013 às 13:07

As últimas seis palavras do livro são graves e o que elas dizem não tem desculpa.

Entretanto, fui agora ali à estante confirmar e aqui em casa canta o galo na baía (2.ª edição, ed. Caminho, Lisboa, 1998), sopra o vento leste no corpo dos flagelados (3.ª edição, ed. Vega, Lisboa, 1991 - este custou-me 2500$00, ainda lá tem o preço escrito a lápis) e chobe brabamente (ed. Caminho, Lisboa, 1997). Portanto de Manuel Lopes não está mal a biblioteca pessoal.

E já que surge na foto o Esquineiro junto ao Artista, é de referir que uma das próximas Crónicas do Norte Atlântico será sobre o Leão Lopes, não este, mas o nascido em Santo Antão (com S. entre o Leão e o Lopes) e falecido em Pawtucket (EUA), em 1962. Na devida altura será enviado o dito texto a ambos se não o virem antes no Terra Nova.

Braça,
Djack

De Djack a 02.01.2013 às 13:08

Ali em cima não era do "livro" mas sim do "texto".

De Valdemar Pereira a 02.01.2013 às 15:40



Pois é, e a este grande Homem de letras que deixou uma razoàvel quantidade de obras, não deram o nome na nossa toponímia.
Muita gente que nada tem a ver com a ilha do Porto Grande, nem tampouco Cabo Verde, está referenciada (quase que endeusada) mas os filhos que fizeram com que o nome da nossa Terra ultrapassasse as àguas do Oceano Atlântico não tiveram esta sorte. A honra de um selo não é suficiente e, se não barafustarmos, nunca mais se falará disso porque Manuel Lopes foi escritor de língua portuguesa que está sendo criticada por alguns.
Haja justiça para com os nossos Grandes !!!

De Adriano Miranda Lima a 02.01.2013 às 23:43

É importante manter sempre viva a memória dos nossos Claridosos ",  os arquitectos da nossa consciencialização política, ao mesmo tempo que tecedores da estética que revela e divulga a nossa verdadeira identidade cultural - a crioulidade. As obras de Manuel Lopes são disso  preciosos testemunhos. Os meus agradecimentos ao autor deste precioso texto.

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