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A Cerâmica em Cabo Verde

Brito-Semedo, 29 Jan 13

 

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Leão Lopes / M. Henze, Des., 1989

 

Podemos perspectivar o desenvolvimento da cerâmica em Cabo Verde a partir das expressões por que ela se manifesta hoje e das potencialidades que oferece como actividade criativa e económica, geradora de bens de que a sociedade carece.

 

Cerâmica Tradicional – Olaria

 

Produzida pelos métodos dos mais antigos que as civilizações conheceram, a olaria cabo-verdiana atravessa a história do cabo-verdiano, da sua origem até o momento.

 

Um dos ex-libris da cultura material cabo-verdiana, ela ainda adopta as mesmas técnicas milenares de preparação de pasta, modelagem e cozedura. A introdução da roda de oleiro há escassos 40 anos frustrou-se, mantendo-se o processo de modelagem a partir de um bolo de barro em cujo centro se faz um buraco para daí fazer crescer as paredes dos vasos.

 

Produzida neste momento apenas na Boavista e Santiago, essa cerâmica foi fonte de autosustentação económica das comunidades que a produz, tendo sido a única actividade económica em tempos de grande crise.

 

Actividade feminina por excelência, aliás como grande parte das culturas antigas, a cerâmica tradicional cabo-verdiana é essencialmente utilitária e destina-se a usos domésticos. Uma pequena estatuária popularmente designada por brinquedos, é habitualmente produzida por crianças e adolescentes no contexto de uma didáctica de passagem de conhecimentos práticos.

 

Embora como um mercado perigosamente reduzido devido à concorrência da indústria de utensílios domésticos, ela subsiste, com alguma dignidade, pela perseverança das mulheres dessas ilhas que fazem dela a sua vida. É uma cerâmica em risco, pela degradação de alguns rigores tecnológicas e formais, pela falta de protecção efectiva de instituições culturais e educativas e ainda por já não significar um forte atractivo económico para os jovens locais.

 

Em todo o caso, assista-se a um nascimento de uma geração paralela e de formação urbana que a partir do saber tradicional, tenta introduzir uma cerâmica decorativa como base nos materiais e técnicas, vidas da tradição.

 

Cerâmica de Construção

 

Por mais estranho que pareça, Cabo Verde já é produtora de cerâmica industrial, para a construção civil. Na Boa Vista, entre Rabil e Praia de Chaves, funcionou no iniciou deste século, uma fábrica para a produção de tijolos e telhas, uma estrutura industrial ao nível da tecnologia europeia de então. A fábrica que produzia essencialmente para a exportação aos países da África Ocidental, fechou as suas portas por volta de 1928, por razões ainda desconhecidas. Os seus produtos eram de alta qualidade, uma vez que trabalhava modernamente para a época. Empregava várias dezenas de operários oriundos doutras ilhas, que não só da Boa Vista.

 

A chaminé ainda intacta emerge imponente sobre as dunas da Praia de Chaves, testemunho desse grande empreendimento cujas ruínas estão quase totalmente submergidas pela areia e pela memória da ilha.

 

Uma outra iniciativa no sector teve lugar nos finais dos anos 50, por determinação da Administração Colonial. Foi criada a Olaria Escola de Chaves, que com a instalação de prensas manuais iniciou uma produção de telhas e outros produtos executados à roda. Data desse momento a introdução da roda do oleiro movido a pé, que não chegou a implantar-se de facto. A escola de Olaria fechou com o advento da independência. Desde então, tentativas várias e frustradas têm sido feitas para a sua reabilitação.

 

Em S. Domingos, Santiago, a mesma iniciativa da Administração Colonial, criou, pouco antes da independência a fábrica de S. Domingos, uma pequena unidade fabril que iniciou uma produções incipientes de telhas, tijolos e objectos feitos a roda. Essa produção interrompida com a independência, mais não teve continuidade. Têm-se tentado, desde essa altura reconverter S. Domingos num projecto de cerâmica dinâmico e de produção das artes populares mas sem resultados.

 

Cerâmica Contemporânea

 

Desenvolvida a partir de S.Vicente, uma ilha até então sem tradição tecnológica na área, a cerâmica contemporânea cabo-verdiana introduziu no país novas técnicas e alargou com estudos e ensaios, o leque de uso das matérias-primas locais, para além de promover a actividade da cerâmica através da formação de jovens originários de várias ilhas.

 

Pode tomar como marco histórico a independência do país em 1975, que despoletou um entusiástico sentido patriótico e vontade de participação na modernização do arquipélago.

 

A investigação cultural e tecnológica levou ao conhecimento das potencialidades existentes em várias áreas de cerâmica foi uma das eleitas. Dezenas de jovens foram iniciados e alguns deles têm actividade própria como artesões.

 

Em S. Vicente, já se produz normalmente uma cerâmica de ateliê com características criativas próprias.

 

É uma cerâmica de barro vermelho, de entre 1.000 a 1.100.ºC, de uma só cozedura e de duas cozeduras. De pequena estatuária a peças utilitárias, de mesa, passando por um leque bastante diversificado de peças utilitárias decorativas, a cerâmica de S. Vicente promete progredir para novas utilidades e novas expressões, incluindo para as artes plásticas, de que há exemplos de representação do país em certames internacionais.

 

in (Keramiké) Cerâmica – Pequeno Guia de Divulgação, Edições Ponto & Vírgula, Mindelo, 1994.

 

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2 comentários

De Valdemar Pereira a 30.01.2013 às 14:35


Esta postagem foi transcrita integralmente no blog http://www.fotolog.com/valdas (http://www.fotolog.com/valdas)  onde se apresenta regularmente coisas da nossa terra e da terra de adopção.

Ao Amigo Prof. Brito Semedo as minhas desculpas em não pedir a autorização antes.

Abraço chãdecemiteriano

De Brito-Semedo a 30.01.2013 às 18:10

Nossa, quanta cerimónia para quem é da casa, melhor dizendo, da Esquina :-) É uma prazer e uma satisfação saber que a partilha feita na Esquina é re-partilhada pelos seus colaboradores e elitores assíduos, mais a mais sendo da Chã de Cemitério, nôz Zona. Braça grande! 

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