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Na novel República Portuguesa, implantada a 5 de Outubro de 1910, era oferecido significativo relevo à educação. De modo que essa era uma das áreas que o regime recém-instalado mais se preocupava em desenvolver e melhorar. Mas Cabo Verde ficava longe e como tal, mais do que de orientação da mãe-pátria, o que ali se fazia a esse respeito era obra de gente do lugar. Logo no seu primeiro número, em 1 de Maio de 1913, O Futuro de Cabo Verde anunciava que o professor Gama Lobo abriria do dia 15 seguinte uma escola de instrução primária na Rua Serpa Pinto, na Praia. Mais interessante que isso, era o anúncio da página 6, alusivo ao Colégio Moderno de Aveiro. O dito colégio, “dirigido por mestras competentemente habilitadas”, tinha por finalidade “ministrar às suas alunas uma educação esmerada, moral, literária, científica, artística, física e doméstica, habilitando-as assim a ocuparem devidamente um lugar na sociedade”.

 

Mais concretamente, as meninas aprenderiam as línguas portuguesa, francesa, inglesa e alemã, para além de desenho, pintura, música, costura, bordados a branco, matiz e ouro, a fazer flores de pano, veludo e cera e mais prendas. Ou seja, toda uma cuidada preparação por uma mesada de 12$000 réis que incluía, entre outras coisas, a lavagem da roupa. Para além disso, tinham de adquirir lavatório de ferro e arranjos competentes, cama também de ferro (conforme feitio e medidas que se indicavam no colégio), duas cadeiras, uma grande e outra pequena, louça de quarto, seis lençóis, três cobertores, duas colchas, seis fronhas de travesseiro e outras tantas de almofada, mais seis toalhas de rosto, talheres, guardanapos, um saco de chita e roupa de uso suficiente.

 

O enxoval importava em 20$000 réis. Digamos então que por estes preços só as famílias abastadas de Cabo Verde (muitas das quais viviam na Praia ou no Mindelo) se podiam dar ao luxo de colocar as filhas no colégio aveirense de onde sairiam prontas para casar – como diz a conhecida frase, a saber “tocar piano e a falar francês” ou um pouco mais, neste caso.

 

 

O arquipélago ainda não tinha liceu e esta era, para quem tinha posses, uma das possibilidades de envernizar as jovens de sociedade. De qualquer modo, a burocracia educacional ia-se desenrolando: a 8 de Maio, O Futuro anunciava que estava aberto, pela Comissão Municipal do concelho da Praia concurso para o provimento de três cadeiras (devia querer dizer lugares) de instrução primária no concelho da capital da colónia e uma no da Brava. E a 5 de Junho era nomeada para exercer interinamente o cargo de professora oficial da ilha do Sal, Maria da Conceição Vera-Cruz. Na mesma altura, José Rodrigues de Carvalho era nomeado professor oficial de 2.ª classe, também na Praia.

 

Ora adivinhámos através do anúncio anterior a preocupação que se tinha com a educação das filhas da “alta” sociedade cabo-verdiana. E havia-as de facto, em particular na cidade principal do arquipélago, oriundas de gente do meio castrense, comercial e de serviços, sobretudo. Tanto assim que uma delas, “gentil leitora” de O Futuro, pedia à Comissão Municipal que mandasse alumiar o largo Monte Agarro, pelo menos com dois candeeiros próximo ao depósito da água. Em alturas de calor, era esse um dos pontos de fresco para meninas e senhoras. Só que estas à noite evitavam o local, por falta de iluminação. Mas se de ensino e de meninas prendadas temos vindo a falar, muitas não iriam para Lisboa mas sim para S. Nicolau – porque de mais parcos recursos que as possíveis clientes do colégio de Aveiro.

 

Uma das novidades trazidas pela I República foi a do ensino em educação. E em 1913, esta era de facto praticada no Seminário-Liceu de S. Nicolau. Mas isso não agradava a pelo menos um sujeito que, sob o pseudónimo de “Piloto”, numa carta publicada na Voz de Cabo Verde, por volta de Junho de 1913, se insurgia contra o facto. Do desabafo do indivíduo dava conta O Futuro de Cabo Verde, na sua edição de dia 19. Dizia o jornal que na ilha havia grande consternação pela maneira “deprimente e injuriosa” como o autor da missiva se referira ao “seminário-liceu a propósito de nele serem leccionadas (sic) algumas senhoras”. Lembrava o periódico que este estabelecimento era o único de “ensino superior” de Cabo Verde e que as suas tradições eram gloriosas. E tecia-lhe rasgado elogio, com indicação de nomes sonantes da cultura cabo-verdiana que por ele tinham passado: “Nele receberam a cultura intelectual essa plêiade de rapazes que nas belas letras, no magistério, na burocracia e na imprensa têm honrado o nome cabo-verdiano, pela sua elevada cerebração, pela integridade de carácter e pelos seus princípios rasgadamente liberais, e que se chamam José Lopes, o poeta impecável, o prosador cultíssimo, Pedro M. Cardoso, o patriota indomável, José Calazans, João de Araújo, Augusto de Miranda, os professores exímios, Corsino Lopes, o parnasiano de rara sensibilidade, o funcionário prestimoso, Lela Lopes, o proficientíssimo advogado, Serafim de Oliveira, o valente militar, e tantíssimos outros que seria fastidioso enumerar, sobre quem ninguém com imputação moral, com a consciência do que diz, jamais ousou lançar o infamante labéu de reaccionários.”

 

O mais interessante era a forma como O Futuro fazia a defesa da presença do sexo feminino na famosa escola, perguntando o que haveria de criminoso ou que perigos adviriam para a sociedade cabo-verdiana por nela se irem instruir senhoras que não tinham meios para ir para a Metrópole estudar. O jornal comparava até a situação com a de Lisboa, onde só havia uma escola feminina, a D. Maria Pia  (embora com maioria de professores) e onde “as senhoras [frequentavam] em promiscuidade com os homens, os liceus, as politécnicas, escolas médicas e universidades”. Perguntava entretanto, com sobeja razão, por que havia de ser mau em Cabo Verde aquilo que em Lisboa era reputado de bom, declarando ao mesmo tempo que numa terra onde os meios para obter instrução eram tão parcos, pretender fechar o único estabelecimento de ensino desse nível a quem desejava instruir-se (no caso, gente do sexo feminino) era não só um erro mas “grande falta de patriotismo”. Jornal de cariz republicano, O Futuro seguia assim com vigor a doutrina educativa que enformava o regime, trazendo para as suas páginas e consequentemente para as ilhas o arejamento de ideias progressistas que Lisboa já encarava com alguma naturalidade.

 

Mas, talvez por causa da venenosa carta do Voz de Cabo Verde e da pronta e acutilante resposta de  O Futuro (ou potenciado por ambas), logo a 3 de Julho desse mesmo ano de 1913, este jornal avança com longo artigo anónimo a duas colunas em que se fazia a apologia de um liceu para Cabo Verde. A ideia era antiga, mas não havia meio de o poder de Lisboa (através dos ministérios da Instrução Pública e das Colónias) se decidir pela sua criação, nem sequer após a implantação da República. Neste caso, como em muitos outros, aliás, tudo continuava na mesma, apesar da mudança de sitema político. O que os cabo-verdianos queriam era que os filhos pudessem progredir nos estudos na sua terra, em vez de serem remetidos para Lisboa com os enormes dispêndios que isso comportava, como vimos atrás.

 

O dito artigo era peremptório desde o início, argumentando o seu autor do seguinte modo: “Desde há muito que a opinião pública tem reclamado do poder central a criação de um liceu em Cabo Verde. O estado de progressividade intelectual sempre em aumento do cabo-verdiano, dava-lhe e dá-lhe direito a possuir um instituto de ensino, equiparado para os efeitos subsequentes aos similares da Metrópole, onde os seus filhos possam concluir a sua educação. Este desejo, filiado numa aspiração ardente, que nada contraria, e contra a qual todos os argumentos não são outra coisa que uma má vontade contra a instrução – encontrou até hoje, da parte do ministério das Colónias uma instintiva e obstinada repulsa.” Curiosamente, esse desiderato estava perto de ser atingido, pela mão de uma figura que ainda hoje é motivo de orgulho para Cabo Verde, o senador Augusto Vera-Cruz.

 

Na próxima crónica, desenvolveremos este assunto.

 

 

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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