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1. Minha Passagem, de Paula M. Fortes, é um livro inspirador pelo conteúdo e a beleza da narrativa. E eu não resisto à tentação de vos contar como o manuscrito me chegou às mãos. Conhecedora da situação pessoal, em 2011, a Paula veio de Lisboa, onde tinha estado em tratamento médico, despedir-se da família, companheiros e amigos. A Helena e eu convidámos para um jantar inesquecível.

 

No fim, ela surpreendeu-nos dizendo: antes desta doença acabar comigo vou terminar o testemunho que quero deixar às gerações dos meus filhos e futuras. Isto é o que desejo, mas enviar-vos-ei o manuscrito por intermédio da Dori (Maria das Dores Silveira) e dele farão o que entenderem. Embaraçados, agradecemos pensando no que fizemos para merecer tão grande distinção, que interpretámos também como uma ordem de partilha. Imediatamente depois de nos separarmos para sempre, surgiu a necessidade de nos livrarmos do mais do que provável excesso de subjectividade decorrente da relação especial existente entre ela e nós.

 

Foi nessa altura que eu pedi a um livreiro e a uma historiadora, que não conheciam pessoalmente a Autora, o favor de avaliarem a qualidade documental e literária do manuscrito. Ambos leram e entusiasmados confirmaram que tínhamos nas nossas mãos um belo documento. Estão nesta sala. Decidimos avançar com a edição e foi impressionante o número de amigos que aderiram à ideia da publicação de Minha Passagem.

 

2. A Equipa sem fronteiras incluiu os filhos Marina N’Deye e Paulo Umarú, o Joaquim Morais, a Ângela Sofia Coutinho, o Bento Alexandre, o César Schofield Cardoso, as Organizações para as quais a Paula Fortes mais trabalhou, como os depoimentos e as presenças já mostraram, o Presidente da Fundação Amílcar Cabral, a qual editou a obra, Vocês todos e muitos mais.

 

3. Três mensagens que tenho de mencionar: Dr. Jorge Figueiredo, Mário Paixão e Mayra Andrade

 

O senhor Presidente da Câmara Municipal da ilha do Sal, Dr. Jorge Figueiredo, veio expressamente participar neste tributo; o segundo caso é o Dr. Mário Paixão que queria mas não pôde estar connosco e, em síntese, manda dizer o seguinte: fico contente por saber que a Paula deixou um manuscrito de memórias, o qual será publicado pelos amigos e admiradores (…). Informo que na data de 26 de Janeiro estarei ausente no estrangeiro, pelo que tenho imensa pena de não participar no evento. Recordando a amiga e companheira de algumas jornadas na ilha do Sal, onde exerceu importantes missões como Delegada do Governo e anestesista no Centro Cirúrgico do Aeroporto do Sal, registo o facto de a Paula nos ter deixado um exemplo de dedicação, generosidade e profissionalismo. Por sua vez Mayra Andrade escreveu de Paris: Que o lançamento de Minha Passagem seja um momento de grande comunhão e celebração da vida de D. Paula. Faço votos para que, de certo modo, todos os amigos estejam presentes, para o conforto do Paulo e da Marina, que estarão seguramente muito emocionados. Mãe, compra um exemplar do livro, porque quero ler!

 

4. Amigos que nos enchem de orgulho: patrocinadores e jornalistas combinando objectividade, admiração e carinho.

 

Somos os financiadores da primeira edição de Minha Passagem. Nós quem? Nós os amigos de Paula Fortes e não mencionamos nomes por uma razão simples. Somos muitos! Façam o favor de ler a imprensa escrita, os jornais virtuais e as redes sociais. Em matéria de comunicação social, mesmo antes de ser lançado, Minha Passagem é um fenómeno extraordinário nas ilhas e nos países de acolhimento da diáspora cabo-verdiana. Em nome dos filhos e outros organizadores, um muito obrigado aos amigos – patrocinadores e comunicadores!

 

5. Enfim, o que é Minha Passagem: estrutura, conteúdo e exemplo a registar

 

Minha Passagem é uma narrativa de percurso. Autobiográfica, é surpreendentemente rica no conteúdo e bela no estilo. A apresentação pela Marina e o Paulo é uma peça que nos lembra uma expressão que a mãe utilizava com grande gozo e sem nunca perder o sentido de rigor: perfume não se vende em garrafão. Temos cerca de 100 páginas de texto original, 60 de entrevistas, 40 de artigos de jornal e 80 de discursos em eventos nacionais e internacionais. As 100 páginas originais são a soma de capítulos cujos títulos falam por si: consciencialização (antes de partir), Lisboa: curso de enfermagem geral e formação política (na clandestinidade), o salto (de Portugal do Estado Novo ao encontro da Liberdade), o encontro (com Amílcar Cabral), Marina (nascimento e infância em Conacri, Boké (hospital de guerra), a proclamação do Estado da Guiné-Bissau, Cabral e a Cultura, o assassinato (de Amílcar Cabral), a URSS, Holanda (com mutilados de guerra), regresso (à Mamãe Terra, em 1974), a Independência e a reconstrução nacional (em Cabo Verde), a luta da mulher: OMCV e VERDEFAM, no Parlamento, na ilha do Sal, na ilha do Fogo, no hospital Agostinho Neto e em Cuba.

 

6. Três constantes ao longo desse percurso:

 

(i) a política como condição e prolongamento da cidadania;
(ii) a ética profissional como base de legitimação da crítica;
(iii) a voz a quem menos a tem.

 

Na verdade, além de confessar a sua admiração quase sem limite por Amílcar Cabral, Aristides, Carlina Pereira, Abílio Duarte ou SS o Papa João Paulo II, os nomes são raros no livro de Paula Fortes.

 

O Dr. Manuel Boal, companheiro de várias batalhas no campo da sobrevivência e da saúde, o Batcha, também presente nesta sala, a Zazá – a outra Enfermeira Coragem da Libertação Nacional, recentemente falecida – o Dul (Adriano Brito) e outros heróis populares como nhô Djunga ou Bia d’Frank confirmam a regra. A acção colectiva nos domínios da saúde, educação, cultura e reconstrução nacional é o objecto principal do livro e a perspectiva é complementar das conhecidas descrições e reflexões sobre a política, a diplomacia e a estratégia militar.

 

Os artigos, as entrevistas e os discursos são documentos descritivos da visão e da prática de Paula Fortes nas diversas frentes de batalha pelo bem-estar do povo cabo-verdiano e do mundo.

 

7. Fecho ou que mais me impressionou no livro?

 

A coragem da afirmação, a honestidade e a consistência entre o discurso e a prática. O livro é uma imagem fiel da Paula que conheci e uma excelente lição de vida, que recomendo a quem anda sinceramente à procura de causas nobres.

 

- Corsino Tolentino

Praia, 26 de Janeiro de 2013

 

Título: Minha Passagem

Autora: Paula Fortes

Ano Publicação: 2013

Edição: Fundação Amílcar Cabral

 

 

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