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Esporão na Praia da Laginha - Parte I

Brito-Semedo, 16 Fev 13

Vista do Cais Acostável do Porto Grande, Mindelo

 

- Guilherme Mascarenhas

 

Docente do Departamento de Engenharia e Ciências do Mar (DECM), Uni-CV; Membro da direção do Núcleo de Energias Renováveis; Mindelense, praticante de mergulho e frequentador assíduo da Laginha

 

Apesar de ter conhecimento do projecto há algum tempo só agora decidi escrever o artigo pois pensei que a Direção Geral do Ambiente não iria aceitar a versão actual do projecto. Não sendo eu político, nem biólogo marinho, fiquei à espera que outros se posicionassem. Infelizmente isso não aconteceu e perante a minha percepção da gravidade do que poderá acontecer, como conhecedor do mar da Laginha e interessado pela biologia marinha, procurei durante estes últimos dez dias, apesar das minhas muitas limitações em conhecimento e disponibilidade de tempo, elaborar um artigo que consciencialize os nossos governantes e a população em geral, da grande riqueza que temos na Laginha, “à porta das nossas casas”, um “canal Odisseia” nosso, que não gasta energia e é de graça e para todos nós. Seria interessante se os nossos decisores e a população se disponibilizassem para, apenas com uma máscara de mergulho e um tubo, apreciar o que há lá, e terem uma noção clara do que estamos em risco de perder.

 

 

 Praia da Laginha, Mindelo

 

Contextualização de Cabo Verde na biodiversidade mundial

 

Os locais mais marcantes do planeta são também os mais ameaçados. Os hotspots são as mais ricas e ameaçadas reservas de animais e plantas do planeta (Conservation International [CIa, 2013]. O Arquipélago de Cabo Verde está enquadrado no hotspot [lugares críticos] do baixo mediterrâneo, um dos 34 hotspots de biodiversidade Mundial [CIa, 2013], [CIb, 2013].

 

Essa denominação deve-se ao facto de conter um grande número de endemismos (espécies exclusivas do arquipélago de Cabo Verde), para uma área relativamente pequena, cuja conservação é considerada prioritária, devido ao risco de extinção acarretado por ações antropogénicas. Além disso, Cabo Verde é considerado desde 2002 como um dos onze hotspots de recifes de corais (comunidades coralinas em Cabo Verde), que são os maiores centros de endemismos mundiais, ocupando o nono lugar, numa escala de maior grau de ameaça [Roberts, 2012].  Para além disso é o único localizado no Atlântico NE, o que faz com que seja o local mais próximo da Europa e África Ocidental, para investigadores. É de realçar que as Ilhas de Cabo Verde têm um grau de endemismo de peixes costeiros, muito superior às outras ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira, Selvagens e Canárias) [Freitas, 2012].

 

Papel de São Vicente no estudo da biodiversidade Cabo-verdiana

 

A ilha de São Vicente é uma das ilhas onde muito se tem feito para estudar a biodiversidade marinha de Cabo Verde (artigos científicos em revistas, trabalhos de disciplinas, projetos e monografias de fim de curso, teses de mestrado e doutoramento, projetos de investigação), representando, muito provavelmente, a área em Cabo Verde com maior produção de conhecimento científico, e que tem despertado maior interesse de cientistas internacionais à investigação colaborativa. Na ilha se situam os maiores produtores de conhecimento no âmbito do mar (a Biosfera I, o DECM da UNICV, o INDP, e o Observatório de Cabo Verde: Humberto Duarte Fonseca ). A construção na ilha, com início previsto em 2013 e conclusão em 2014, do OSCM (Ocean Science Centre Mindelo) enquadrado no projeto de cooperação entre o INDP e o GEOMAR, Instituto Oceanográfico da Alemanha, é um forte indício do interesse científico que a ilha tem, pois a região tropical do Atlântico onde se situa, aliada à nossa biodiversidade e geodiversidade, constitui um excelente tampão ou laboratório natural para o estudo de diversas questões de interesse global, especialmente o seguimento de mudanças do clima através da Oceanografia e a Climatologia.

 

A biodiversidade na Praia da Laginha

 

A praia da Laginha, localizada na Baía de Porto Grande (classificada pela UNESCO como uma das mais belas baías do mundo), constitui um berçário (nursery) para diversas espécies que buscam zonas protegidas de corais e algas para os primeiros estágios de vida ou também para minimizar a predação.

 

É de salientar que a zona é equiparada a zonas de alta biodiversidade, muito provavelmente devido à diversidade e complexidade estrutural de habitats, tais como areias, corais, pedras, macroalgas e algas calcárias. Com uma localização geográfica privilegiada, a zona da Laginha dá o seu contributo no suporte de uma zona de berçário onde, simplesmente com mergulho livre, a poucos metros do areal e a pouca profundidade, pode-se desfrutar de uma rica diversidade de peixes e invertebrados, muitos deles endémicos das ilhas de Cabo Verde. Já foram visualizadas com sucesso na área da Laginha, as seguintes espécies:

 

i) Peixes (a maior parte pode ser vista quotidianamente): Sargos (Diplodus sargus lineatus, D. fasciatus, D. prayensis - todos endémicos), Burrinhos (Chromis lubbocki - endémico; Chromis multilineata), Bidiões (Sparisoma spp.), Garoupas (Serranidae), Rei e & Rainha (Holoncentridae), Peixe pedra[3] (Scorpaena laevis e Scorpaena scrofa), peixe borboleta (Chaetodon robustus), peixe lagarto (Synodus saurus), peixe-sapo (Antennariidae), Salmonete (Pseudopeneus prayensis), Barbeiro (Acanthurus monroviae), Façola (Priacanthus arenatus), Tururu (Fistularia petimba), Moreias (Muraena, Gymnothorax spp. - pintada, preta, branca), cobras de mar, cabrinha, porco-espinho (da família Diodontidae), pá-mané de rabo branco (Similiparma hermani - género endémico), olho largo (Selar crumenopthalmus, ocorrem em cardumes, muitas vezes com centenas a milhares de indivíduos), Bonito (Caranx crysos), Pelombeta (Trachinotus ovatus em cardumes), bombom, tainha (Chelon bispinosus - endémico), Abroto (Haemulidae, com pequenos cardumes), Pôsse ganet, cação, linguado, fotch, peixe-agulha (Platobeloni lovi - endémico), fambil, pómbe, enforcado, badejo, bedja, entre outras espécies, algumas críticas.

 

Peixe Borboleta (Chaetodon robustus)

 

ii) Moluscos: Conus (pelo menos três espécies e ainda o Conus decoratus, que ainda os autores do artigo não viram, mas que já foi visto na Matiota, Salamansa, Calhau e Santa Luzia [Tenório, 2012] e  Conus matiotae, que provavelmente já está extinta devido às intervenções antropogénicas no local), polvos (várias espécies), chocos, lulas, búzio cabra (Strombus latus), Tona galea, Cipreas (C. lurida, C. spurca e C. picta), Pinna rudis, Venerídeos (cerca de sete espécies, em que a Circomphalus foliaceolamellosus, à partida, a Laginha é o único local de Cabo Verde onde pode ser encontrado), Aplisidae (A. punctata e A. dactilomela), Nudibrânquios, etc.

 

Circomphalus foliaceolamellosus

 

iii) Outros invertebrados: Massivas populações de corais pétreos ou duros (Porites porites, Porites asteroides, Siderastea radians, Millepora alcicornis, Favia fragum), Palythoa caribaeorum (coral mole), ctenóforos (reconhecidas cinco espécies), Equinodermes (pepinos do mar, ouriços-do-mar - Echinometra lucunter, Arbacia lixula, Diadema antillarum & espécies de espinho mais grosso Centrostephanus longispinus; Heterocentrotus mammillatus), várias espécies de estrelas-do-mar, Ofiurídeos, Anelídeos (Hermodice carunculata – sampé d’mar), Esponjas marinhas (mais de três espécies massivas), ascídias (várias espécies) incluindo outros invertebrados menores.

 

Alguns corais encontrados na Laginha

 

iv) Aves marinhas: guincho (Pandion haliaetus), garça lavadeira, maçarico-galego, etc. coabitam na área.

 

v) Crustáceos: lagosta (verde e castanha pelo menos), caranguejos (várias espécies)

 

vi) tartaruga comum (Caretta caretta). Convêm salientar que há cerca de dois anos que temos três espécimes de diferentes tamanhos que residem na praia, sendo vistos quase que diariamente, e em que certas ocasiões chegam a ficar bem próximos dos banhistas ou mergulhadores.

 

Toda essa variedade faz com que haja mergulhadores (uns para observarem, outros para fazerem pesca submarina, principalmente de chocos na época mais fria) assíduos nessa zona, haja alguma pesca com rede (apesar de ser proibida, os pescadores arriscam quando vêm grande cardumes de “oie lôrgue”) e com linha. Também alguns professores do DECM, dos cursos de Licenciatura em Biologia Marinha e de outros cursos que exigem aulas de natação, realizam aulas práticas de biologia, e de natação na Laginha. Convêm salientar ainda que alguns privados ainda leccionam aulas de natação e algumas vezes de mergulho livre. Outras vantagens do local são o mar relativamente calmo, não exigindo muitos dotes para os iniciados em natação ou mergulho. Por isso tudo, pensamos que a zona devesse ser transformada numa zona semi protegida, onde nacionais e estrangeiros pudessem conhecer e/ou apreciar, ao vivo, as muitas espécies marinhas existentes.

 

Poluição na Laginha

 

Poluentes detectados (indicamos apenas os que temos conhecimento)

 

i) Metais pesados

 

“...Das análises efetuadas conclui-se que a Baía do Porto Grande está poluída por metais pesados como o Zn, Pb, Sn e As, estando este facto relacionado com fontes de poluição pontual (efluentes domésticos e industriais) e difusa (lixeira, adubações, atividade portuária, navegação e reparação naval) na bacia de drenagem da Baía e nesta. A comunidade de macroalgas, estabelecida a partir de seis locais no interior da Baía e em três campanhas de amostragem (Março, Junho e Outubro de 2002), revelou a presença de 33 espécies e evidenciou a abundância de Ulva rígida, bioindicadora de eutrofização” [Almeida,Cunha&Cruz, 2008].

 

Segundo o mesmo documento, a portaria nº24/2009 (B.O nº27/Série I) da República de Cabo Verde[4], estabelece os teores máximos permissíveis de Cádmio (Cd) e Chumbo (Pb) de 1,5mg/kg (equivalente a 1,5µg/g). Infelizmente a autora não cita os valores máximos permissíveis para os outros componentes. Podemos constatar pela tabela que o local  A2 ( Laginha) apresenta concentrações de Cd, Cobre (Cu), Níquel (Ni) e Zinco (Zn) muito elevadas relativamente ao local da amostra de controlo. Ainda segundo o mesmo documento:

 

a)   O Cd é grandemente utilizado na galvanoplastia, no fabrico de pigmentos, esmaltes e tintas.

b)   A principal aplicação do Zn, cerca de 50% do consumo anual, é na galvanização do aço ou do ferro para protegê-los da corrosão e que o óxido de Zn é utilizado como base de pigmentos brancos para pintura.

c)   O Ni é principalmente empregue no fabrico de aço inoxidável[5].

d)   Os principais usos do Pb estão relacionados com a indústria petrolífera, baterias, tintas, corantes, cerâmicas e munições. A gasolina disponível e com a maior procura na ilha é a com Pb.

e)   O Cr é utilizado principalmente na metalurgia, com a finalidade de aumentar a resistência à corrosão.

 

ii) Hidrocarbonetos

 

Num estudo realizado no Porto Grande, (Cabnave, Porto, Cais da Enacol e Galé)  foram detectados valores significativos de Hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PHAs) em músculos e fígado de tainhas. Contudo, apenas no Porto, no Cais da Enacol e na Galé, os valores de um dos PHAs, benzo(a)pireno, no fígado, excedeu os valores máximos recomendados pela legislação. Na Cabnave o valor foi de 75% do valor máximo recomendado. Nesse estudo indica-se que a origem dos PHAs na zona da Cabnave seja pirolítica, petrogénica, petróleo, combustão, combustão de biomassa e carvão.

 

iii) Coliformes fecais

 

Análises realizadas, há alguns anos, indicaram valores ligeiramente acima dos valores máximos recomendados para águas balneares. Também no furo da Electra foram registrados valores bastante altos numa determinada altura, obrigando a Electra a proceder a desinfeção do local.

 

Principais fontes de poluição da Laginha são:

 

i) CABNAVE: as águas de lavagem e limpeza (lançadas no mar após passarem por um sistema de decantação), derrames[6], resíduos provenientes das operações de decapagem dos cascos dos navios (areias impregnadas de tintas anti vegetativas utilizadas com a finalidade de impedir a fixação de organismos marinhos nos cascos das embarcações) [Pereira, 2005][7], barcos sem sistema de coleta de fezes[8].

 

ii) ELECTRA: Gases produzidos na queima dos combustíveis, ruído, resultante da limpeza anual das tubagens que às vezes vai para o mar por acidente (Maio de 2005?) e Salmoura. Considerando a taxa de conversão (cerca de 45 a 48%) dos dessalinizadores de osmose inversa utilizados, se desprezarmos as perdas, o volume da salmoura será ligeiramente superior (compreendido entre 108% a 122%) ao volume de água potável produzida  pelos dessalinizadores[9], cujo valor médio diário foi de 3.700 m3 em 2011(=1.350.636/365)[ELECTRA, 2012], resultando em cerca de 4008 a 4522 m3 de salmoura diária. A salinidade da salmoura será próxima do dobro, compreendido entre 182% a 192%, da água do mar no local da toma de água.

 

iii) Enxurradas das chuvas: Trazem uma quantidade imensa de lixo variado, compostos tóxicos e de fezes humanas depositados na valeta de água ou resultantes do transbordamento dos esgotos[10].

 

Para além dessas fontes convêm referir que todas as outras atividades que acontecem no Porto Grande (navios, empresas de combustíveis Enacol e Vivo Energy, etc.), apesar de serem em menor escala, acabam por afetar essa zona, muito provavelmente a alterações nas correntes devido às marés. Esse efeito é mais pronunciado quando há alterações significativas nas correntes, e nessas situações, pouco frequentes, uma grande quantidade de lixos (até animais mortos) costumam sair na praia da Laginha. 

 

A biodiversidade marinha no local somente é mantida devido ao hidrodinamismo que faz constantemente a renovação da água e das poucas zonas de corais que dão sustento à vida marinha local. Salientamos que uma percentagem grande dessas espécies vive numa faixa entre 2 a 10 metros da Praia, associados aos corais existentes nessa faixa. (Cont.)

 

Mindelo, 15 de Fevereiro de 2013

 


[1] Criado em 2006, numa iniciativa conjunta entre a Alemanha e a Grã-Bretanha. Ver mais em http://www.ncas.ac.uk/index.php/en/cvao-home .

[3] Também designado garoupa de madeira ou fanhama

[5] À partida será utlizado nas dessalinizadoras, juntamente com o Cu. (nota do autor)

[7] Há cerca de três anos, um dos autores deste artigo, GM, deparou com uma camada de poeiras de tinta avermelhada, com uns quarenta centímetros de espessura, relativamente à superfície da água, quando praticava pesca submarina, com um colega, junto à CABNAVE. 

[9] Os valores da salinidade e do volume de água foram calculados em função dos valores da taxa de conversão e desprezando as perdas.

[10] Importa alertar que uma das causas do transbordamento dos esgotos é o facto de haver muitas habitações que canalizam as águas das chuvas para os esgotos, sendo prioritário agir para que tal deixe de acontecer.

 

 

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