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 Planta de Localização do Projecto
 

- Guilherme Mascarenhas

 

Docente do Departamento de Engenharia e Ciências do Mar (DECM), Uni-CV; Membro da direção do Núcleo de Energias Renováveis; Mindelense, praticante de mergulho e frequentador assíduo da Laginha

 

O Projeto de “Alargamento do Terrapleno, Construção da Nova Via de Acesso na Zona Nordeste do Porto Grande & A Construção de um Esporão na Zona da Praia da Laginha”

 

O projeto prevê a criação, de quatro faixas de 3m cada, para sair do Porto, duas de 3m para entrar, uma faixa de estacionamento de cada lado, com 3,5 m de largura cada e 1 passeio para circulação pedonal com uma largura mínima de 2,5 m, totalizando cerca de 27,5 m, que serão conquistados ao mar. Será ainda aumentada a área do terrapleno já existente, totalizando para esses dois casos uma área de expansão do terrapleno prevista de 25.000 m2 (Será conseguida à custa da translação da retenção marginal norte cerca de 110 m numa extensão de 210 m).

 

Propõe-se também, um avanço de 60 m, sensivelmente paralelo à linha de água, do areal da praia atual, usando areias de granulometria idêntica às existentes. O volume de areia a colocar na Praia é estimado em cerca de 150.000 m3. Para proteger uma captação de água salgada para alimentação da central dessalinizadora do Mindelo, a norte da praia atual, será construído um esporão de contenção das areias colocadas na praia, para impedir que estas venham a atingir a zona da captação. O esporão de contenção das areias, localizar-se-á a cerca de 400 m a norte do limite do alargamento do terrapleno portuário. Terá 130 m de comprimento, entre o enraizamento, junto ao muro marginal, e o centro de rotação da cabeça.

 

Pormenor do projecto de “Alargamento do terrapleno e da nova via de acesso na zona nordeste do Porto Grande”

 

Do estudo de impacto ambiental (resumo não técnico) [Loyd, 2010] disponibilizado no site www.sia.cv e do documento que analisa os efeitos dessas obras sobre a Praia da Laginha [Loyd, 2009] fica-se com a ideia de estar a faltar a avaliação de muitos aspetos fundamentais numa avaliação de impacto ambiental (AIA) e de não se ter em conta o referido aumento do areal e o esporão que se irá construir. A informação constante no primeiro documento não fornece dados suficientes para se avaliar o impacto ambiental. O segundo documento fala apenas do impacto na dinâmica costeira. Iremos avaliar apenas os dados disponíveis, esperando que se exija um estudo de impacto ambiental, em conformidade com a nossa legislação. Desses dados, na  pág. 17, e na tabela 1, do documento [Loyd, 2009], quanto à agitação medida em alguns pontos da Laginha, se fizermos as contas vai diminuir no ponto 1, 21%, no ponto 2, 23%, e no ponto 3, 25%.

 

Efeitos prováveis  da redução do índice de agitação na Praia da Laginha

 

i) Redução da biodiversidade marinha no local

 

Sabendo que a biodiversidade marinha no local é mantida devido ao hidrodinamismo que faz constantemente a renovação da água, se ocorrer uma diminuição na agitação das águas, muitas espécies poderão desaparecer da Laginha, ou então seguir o mesmo caminho do Conus matiotae.

 

ii) Redução da vida marinha

 

A menor oxigenação das águas provocará uma diminuição na vida marinha. Sendo um berçário para muitas espécies muito exploradas comercialmente, tal como o olho largo, irá ter implicações no sustento das muitas famílias que vivem da pesca.

 

iii) Aumento de incidências de doenças transmitidas através da água do mar ou da areia

 

Para além dos efeitos ecológicos devastadores, não se pode esquecer do efeito que a obra terá na saúde dos utilizadores da praia. A praia é uma das mais frequentadas de São Vicente e a menor renovação da água acarretará aumento da incidência de doenças transmitidas através da água do mar, e a redução das ondas implicará uma menor lavagem das areias da praia, aumentando também as doenças transmitidas através da areia. Note-se que no Verão, altura do ano em que a praia é mais frequentada, têm-se verificado casos de banhistas com doenças de pele, contraídas na Laginha.

 

iv) Redução das ondas, na zona de corais atrás da ELECTRA

 

Também os praticantes de Body board (note-se que um Mindelense, o Jason Mascarenhas, já foi campeão de África) e surf, poderão ser seriamente afetados caso isso signifique uma redução das ondas, na zona de corais atrás da ELECTRA.

 

v) Diminuição da qualidade da água potável produzida pela ELECTRA

 

Sabendo que a ELECTRA possui duas alimentações de água, localizadas entre a CABNAVE e a Laginha, uma no mar, a uns 2-3 metros de profundidade, e outra, um furo de 25 metros de profundidade, localizada a cerca de 3 metros do mar, e que o sistema de dessalinização, que funciona a baixas temperaturas, filtra películas superiores a 5 µm (reforçado com um sistema de coagulação), a redução do índice de agitação aumentará o grau de poluentes e o risco de contaminação no local da tomada de água da Electra (situada em local relativamente abrigado do vento e das correntes, em princípio tem um menor risco de contaminação por derrames provenientes do Porto Grande) o que poderá eventualmente, acarretar sérios riscos para grande parte da população que bebe essa água. Note-se que a ELECTRA desinfeta a água distribuída por cloragem com hipoclorito de cálcio[1], e realiza controlos laboratoriais de parâmetros que indicam risco de contaminação[2] e o carácter agressivo e incrustante da água [Electra, 2010]. Questionamos é se os testes utilizados serão sensíveis a metais pesados e hidrocarbonetos. Não devemos esquecer também que o Porto Grande é um dos mais importantes clientes de água potável, consumindo de 100-200m3 por navio [Pereira, Marina,2005].

 

Efeitos do alargamento do areal da Praia e da construção do esporão a Norte da Laginha

 

É imprescindível que se faça um estudo de impacto ambiental com um bom nível de precisão e detalhe, não se esquecendo de avaliar as espécies existentes no local e a eventual sazonalidade da sua ocorrência[3]. Contudo, podemos adiantar alguns dos prováveis efeitos:

 

i) Aniquilamento de parte significativa da comunidade coralina

 

A comunidade que se estende paralelamente à praia e a pouca distância do areal, será totalmente soterrada e aniquilada. Será um autêntico crime contra a biodiversidade.

 

ii) Diminuição da profundidade do arrastadouro da Cabnave e soterramento de uma das tomadas de água da Electra.

 

iii) Aumento de incidências de doenças transmitidas através da areia

 

Aumentando a distância do areal de mais 60 metros, será muito difícil que as ondas consigam chegar a todo o areal, impedindo assim que as areias sejam lavadas.

 

iv) Diminuição da segurança para banhistas  e necessidade de colocar mais nadadores salvadores e luzes na praia

 

O aumento da distância do areal fará com que o mar fique mais distante do passeio pedonal diminuindo a segurança dos banhistas. Assim, será necessário colocar mais nadadores salvadores e se quisermos manter o privilégio dos banhos noturnos será ainda necessário colocar luzes, e eventualmente polícias, próximos do mar.

 

v) Interdição aos banhistas de tomarem banho na praia durante as obras

 

Quanto tempo demorará a obra? Já se considerou o incómodo e transtornos que isso vai provocar nos muitos frequentadores da Laginha e nos moradores? Note-se que a Laginha tem um papel importante na qualidade de vida dos Mindelenses, reduzindo o stress e aumentando o bem estar psicofisiológico de muita gente, cuja qualidade de vida que praticamente não consegue.

 

vi) Ruídos e poluentes durante as obras

 

Já se considerou devidamente os efeitos do ruído e poluentes expelidos para o ar e para o mar durante as obras?

 

Algumas questões pertinentes

 

i) Será que o tráfego vá ser de tal ordem, que justifique vias de acesso novas (quatro faixas de entrada e duas de saída), que na prática não irão resolver os congestionamentos, já que o congestionamento continuará a se verificar na Av. Dr. Alberto Leite (Rua da Escola Técnica).

 

ii) Qual será a necessidade de haver duas faixas de estacionamento, junto ao novo acesso que se quer construir?

 

iii) Qual a necessidade de alargar o terrapleno existente? Não haverá atualmente uma área significativamente grande disponível? Não haverá uma área bem grande nas antigas instalações da Interbase ou na zona onde foi colocada a tenda, que poderá ser utilizada para esse fim?

 

iv) Será que a Laginha e uma das mais belas baias do mundo é a área que mereça menos proteção?

 

v) Será que a construção da Cabnave na antiga Matiota, destruindo a nossa melhor praia não nos serviu de lição?

 

Como podemos constatar no seguinte texto (Extraído de [Costeau, Schiefelbein, 2007]):

 

O saque começa onde a vida começou: nos berçários do mar. A vida multiplica-se em três áreas distintas dos oceanos: nas águas da superfície, que são penetradas pela luz do Sol, onde desabrocha a vida das plantas; no fundo, onde assentam os detritos orgânicos; e na área onde se combinam estes dois fatores de sustento da vida, a plataforma continental, que principia na beira da água e se prolonga até profundidas que atingem cerca de 180 metros. Como escrevi antes, a zona mais frágil das plataformas continentais é também a sua zona mais fértil: as águas costeiras de pouca profundidade. A vida marítima acumula-se na orla costeira tal como a vida terrestre se junta na margem do rio; é ai que os peixes se alimentam da flora e põe os seus ovos nos prados marítimos onde prolifera a planta aquática posidónia. Estas águas, que são apenas metade de 1% do espaço total do oceano, sustentam 90% de toda a vida marítima. No conjunto, segundo já calculei, as orlas costeiras têm, em todo o mundo, menos hectares do que todos os rios do mundo.

É precisamente nestas orlas costeiras, tão reduzidas, que os saqueadores causam maiores estragos...”

 

são as orlas costeiras que sustentam 90% de toda a vida marítima, daí que mexer nelas só em casos extremos, após se esgotarem outras alternativas.

 

Do resumo não técnico do estudo de impacto ambiental e da breve vista de olhos que me foi possibilitado fazer à versão completa fiquei com a impressão que se limitaram a falar das espécies existentes em Cabo Verde, chegando-se a referir inclusivamente a várias espécies de baleias e golfinhos, indiciando que não se fez uma avaliação local. Parece-me que, se os autores do projeto tivessem essa consciência, teriam evitado as três vias de acesso extra, e teriam feito o acesso encostado à Moave no terrapleno já existente, e evitariam ao máximo qualquer conquista de terrenos ao mar. A nossa inconsciência ambiental leva-nos a destruir exatamente a nossa zona mais rica que é a orla marítima, quando há na ilha outros locais com um índice de vida e biodiversidade consideravelmente inferiores.

 

Praia da Laginha

 

Aspetos sociais

 

A Praia da Laginha é das Praias mais frequentadas de Cabo Verde. Graças à iluminação, nos dias quentes de Verão podemos encontrar banhistas desde a madrugada até altas horas da noite, numa utilização quase contínua dessas poucas centenas de metros de praia. Gente de todas as idades, de todos os escalões sociais, de todos os bairros da Cidade do Mindelo, saudáveis ou doentes (físicos ou mentais), gente integrada ou marginal, todos procuram a praia da Laginha  para passear, correr, nadar, mergulhar, fazerem outros exercícios, ou simplesmente para conversarem. Podemos considerá-lo o local mais democrático da Cidade do Mindelo, onde toda essa gente citada, interage, geralmente, de forma harmoniosa e tranquila. Se formos considerar os benefícios que a praia da Laginha confere à nossa Cidade, será difícil enumerar todos: diversão e lazer, desporto, fisioterapia, psicoterapia, sensibilização ambiental, etc.

 

Assim, enumerem todos os benefícios do atual projeto e ponderem bem. Será que não há outros espaços cuja alteração nos afecte menos?

 

Mindelo, 15 de Fevereiro de 2013

 


[1] Procurando ter como limites de cloro livre a concentração de 0,3mg/l à saída dos reservatórios e 0,1mg/l na rede de distribuição.

[2] Cloro residual, sólidos totais dissolvidos, nitritos, nitratos, azoto amoniacal, turvação, contagem de microrganismos totais a 37º e contagem de coliformes totais e fecais.

[3] No estudo de impacto ambiental do Parque eólico da Cabeólica em S.Vicente não consideraram a multiplicidade de espécies que ocorrem apenas após as chuvas.

 

 

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1 comentário

De Joaquim ALMEIDA a 17.02.2013 às 15:56

 Pedimos à Nossa Senhora da Luz  e ao Senhor Sao Vicente , para que a praia da Laginha nao venha ter a mesma sorte que teve a praia dos Falcoes , mais conhecida por ( Step ) , pequena mas belissima praia bem frequentada aos domingos , mas que com a indepedência de Cabo Verde , ela foi condenada a desaparecer para dar lugar ao estaleiro naval . Para mim desfiguraram aquele canto que em outros tempos foi um dos belos sitios do nosso Sao Vicente !.Um Criol na Frânça ;Morgadinho ;

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