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Criôl da Brava é Líder Mundial

Brito-Semedo, 4 Out 10

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Esther Teixeira Spencer Lopes

 

O ano de 2010 está a ser um ano dedicado às comemorações: 550 anos do “achamento” ou “descobrimento” de Cabo Verde, 150 anos da Praia como cidade, 35 anos da Independência Nacional. Desde 5 de Julho de 1975 que nos habituámos a prestar homenagem a todos aqueles que de alguma maneira contribuíram para que hoje pudéssemos dizer que somos cidadãos cabo-verdianos e exibir com orgulho o passaporte que nos acredita como tal.

 

Sem descurar os feitos heróicos dos nossos bravos combatentes da liberdade da Pátria do passado e do presente e porque entendo que homenagear o 5 de Julho, os 150 anos da cidade da Praia e os 550 anos do achamento deste arquipélago é qualitativa e quantitativamente muito mais abrangente, a minha homenagem hoje é direccionada à Ilha Brava, a um filho seu e homem de Deus, o Rev. Dr. Eugénio Rosa Duarte.

 

Sem entrar na polémica sobre o achamento do arquipélago em 1456 por Diogo Gomes, a serviço do Infante D. Henrique, ou sob o comando da primeira expedição do veneziano Alvise Cadamosto, em 1460, ou ainda pelo genovês António da Nóli em vida do Infante, a ilha Brava existe e esta é uma certeza inalienável.  

 

Reza a crónica da epopeia dos descobrimentos que Diogo Afonso teria avistado as ilhas de S. João (nome atribuído inicialmente à ilha Brava), São Nicolau, Santa Luzia, Santo Antão, São Vicente e os Ilhéus Raso e Branco em finais de 1461 ou princípios de 1462.

 

Alvise de Cadamosto foi um navegador veneziano que realizou algumas viagens ao serviço do Infante D. Henrique. Na sua referência às ilhas avistadas escreve: "…não se encontrando nelas senão pombos e aves de estranhas sortes, e grande pescaria de peixe." (Relação das Viagens à costa ocidental da África).

 

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A 22 de Outubro de 1545 são doadas a João Pereira as ilhas BRAVA, do Sal e de Santa Luzia, para povoamento. O nome Brava advém-lhe do seu aspecto florido e selvagem. Ainda se refere a ela como “a ilha das flores” do arquipélago.

 

Todas as ilhas são antecedidas das preposições “de” ou “da” com excepção da ilha Brava por ter sido considerada Selvagem. Tem uma área de 67,4km2 e uma população de 6.462 habitantes; fica situada no grupo das ilhas de Sotavento, ao lado da ilha do Fogo. No mapa terrestre são suas as seguintes coordenadas: Latitude 14° 49' N e 14° 54' N Longitude 24° 40' W e 24° 44' W. A sede da ilha é a Nova Sintra, nome que lhe foi dado devido á sua parecença física e o seu microclima de montanha, com Sintra/Portugal. Conta com 1286 linhas telefónicas fixas instaladas, rede de telefone móvel, câmara municipal, água e electricidade, hospital, bombeiros, bancos, polícia, tribunal, escolas, restaurantes e residenciais.

 

A sua pequenez não fez dela menos importante que as demais ilhas, tendo desempenhado um papel preponderante na economia do então protectorado português e não só. Os colonos, durante o período da chuva faziam de Braga (uma localidade da Brava) a capital do arquipélago para fugirem dos mosquitos. Foram nos ancoradouros de Furna e Fajã d´Água que os veleiros mercantis americanos e mais tarde os baleeiros se refugiavam do mau tempo e se abasteciam de água potável.

 

Santa Bárbara albergou a primeira escola superior de Cabo Verde e a Sede provisória do Bispado. Brava é o berço da Igreja do Nazareno e João José Dias, bravense de gema, foi o primeiro missionário evangélico negro a trabalhar na sua ilha natal; mais tarde chegariam á ilha das flores os primeiros missionários ingleses e americanos para darem continuidade ao trabalho iniciado pelo Rev. Dias.

 

Fontaínhas é o nome do pico mais alto da ilha com 976m. Terra de bravos marinheiros, mulheres bonitas e dengosas (dizia-se que todo o jovem que fosse solteiro para a Brava, regressaria casado), cedo as suas gentes experimentaram o sabor amargo da emigração. Brava possui uma história rica no panorama nacional. 

     

A ilha das flores é o chão de figuras ilustres do arquipélago. Uma dessas figuras proeminentes é o Rev. Eugénio Rosa Duarte que felizmente compartilha berço com um outro Eugénio, esse, Tavares que foi poeta, escritor, hinólogo e compositor. “Força di Crecheu”, de Eugénio Tavares, é um hino á excelência do amor. Todo o cabo-verdiano que se preze, sabe cantar ou cantarolar esta morna sublime. “Para o Céu, ai para o Céu” é a marcha que Eugénio Tavares presenteou aos “Protestantes”, cuja causa ele simpatizava.

 

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Eugénio Rosa Duarte, homem provado e aprovado por Deus, faz de II Timóteo 2:15, o seu lema de vida – “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar que maneja bem a palavra da verdade.”

 

Filho de Francisco Duarte e de Rita Rosa Duarte, nasceu em João da Noli-Brava, no dia 7 de Janeiro de 1953. Completou os seus estudos secundários no Liceu Gil Eanes de S. Vicente. A sua formação teológica em Cabo Verde foi feita com distinção pelo Seminário Nazareno, sedeado em Mindelo, em Julho de 1978, fazendo parte da 10ª.Formatura. A primeira formatura da Igreja do Nazareno em Cabo verde teve lugar em Junho de 1956 e foi Marechal, o Reverendo Doutor Jorge de Barros. É casado com Mª. Teresa Rodrigues Baptista Duarte e desta feliz união nasceram três rapazes: Sérgio Eugénio de 34 anos de idade, casado, pai de dois filhos, formado em Direito, residente na capital do País; Francisco Paulo, de 28 anos de idade, solteiro e residente nos Estados Unidos da América; e Richard Eugénio, de 18 anos de idade, estudante e vive com os pais em Kansas Citty - Estados Unidos da América.

 

O seu currículo académico e homem de Deus diz que, a partir de 1978 e até finais da década de 90, foi pastor, Superintendente Distrital da Igreja do Nazareno em Cabo Verde e dirigiu a Igreja do Nazareno na Costa Ocidental Africana e na Guiné Equatorial. Foi director sub-regional para a África e, mais tarde, em 2005, foi eleito director regional, cargo esse que desempenhou até o ano transacto. Mestre em Liderança, foi eleito Superintendente-Geral há exactamente um ano, um mês e dezasseis dias.

 

O Reverendo Doutor Eugénio Duarte é conhecido como homem simples, servo fiel, marido exemplar, pai dedicado, líder carismático, pragmático e diplomata nato.

 

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Na era da internet digital e da auto-estrada da comunicação, o mundo pôde assistir ao vivo a eleição do 37º. Superintendente-Geral da história da Denominação Nazarena. Deste lado do Atlântico, um grupo de amigos, familiares e nazarenos, a partir do momento em que tiveram conhecimento da possibilidade de um não americano poder ser eleito ao mais alto cargo da sua liderança, oravam fervorosamente pedindo a Deus a Sua intervenção num momento ímpar da nossa história como Nazarenos. A sua eleição emocionou os agora colegas Superintendentes-Gerais.

Muito já se disse e se escreveu sobre o Dr. Eugénio Duarte. Não estarei a dizer nada novo mas eu gostaria de salientar o homem de Deus que ele é.

 

De todos os títulos que possui e que contribuam para que o seu currículo seja excelente, acredito que para ele o que mais ressalta é ser “Pastor”, pregador da Palavra, que ama missões. O seu relacionamento com Deus fê-lo identificar que esse mesmo Deus o tinha separado para O servir e na véspera de viajar para a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde tencionava licenciar-se em engenharia electrotécnica, disse SIM ao chamado e Cabo Verde acabara de perder um futuro engenheiro, seguramente competente mas, por outro lado, acabara de ganhar um servo cujo relacionamento com o Pastor dos Pastores era e é assaz íntimo.

      

Quero crer que o Rev. Duarte teve muitos momentos marcantes ao longo da sua vida e que terá ainda muitos mais, mas eu atrevo-me a citar alguns desses momentos marcantes “públicos”:

 

Casal Duarte: Maria Teresa e Eugénio Rosa

A CHAMADA – A Ilha do Maio consta do seu canhenho como o lugar onde tudo aconteceu. Conheceu aquela que é a sua mulher, mãe dos seus filhos e companheira de jornada; Escolheu a melhor e a mais sublime profissão do mundo: Ser pastor.  

 

ENTRADA NO SEMINÁRIO NAZARENO – Entra no Seminário com família constituída. Durante três anos preparou-se teologicamente para poder executar bem o chamado. Professores, funcionários do Seminário e colegas, elogiam-no como aluno distinto, homem de carácter e simples.

 

FORMATURA – Nervosismo miudinho porque a hora da largada para o campo chegara de verdade. Já não era o Seminarista exercendo de pregador mas era o pastor saindo para o campo à procura do rebanho, usando a linguagem Bíblica.

 

PASTOREAMENTO NAS ILHAS – Santo Antão foi o seu primeiro amor mas S.Vicente também ocupa um lugar especial na vida da família Duarte.

 

SUPERINTENDÊNCIA - Nas mãos e na Graça do Senhor. Fez e deu o seu melhor.

 

ÁFRICA – Cabo-verde, Angola, Guiné Equatorial, Zimbabwé, África do Sul, só para citar alguns países deste continente, têm um lugar especial e cativo no coração deste bravense de gema.

 

I AM WILLING TO SERVE. Esta é a frase marcante do primeiro discurso do recém-eleito primeiro Superintendente-Geral, não americano e poliglota! Brava e Cabo Verde fazem história! Bravo!

 

Dita a lógica, a lei das probabilidades que neste século, não teremos, infelizmente, o prazer de ver outro cabo-verdiano a ascender ao mais alto cargo da direcção da Igreja do Nazareno Internacional.

 

É este homem que dispensa apresentação mas que tenho orgulho em chamar de: Pastor, irmão e amigo, Eugénio Rosa Duarte. Minha oração por si e sua família é que Deus continue a usá-lo como instrumento nas Suas mãos. Sei, sabemos, que a Nação Nazarena está em boas mãos.

 

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Os Duarte, Filhos e Netos: Sérgio Eugénio (Primogénito), Mirian Rosilda (Nora), Sérgio Gabriel (1.º neto) e Benjamim Amar (2.º neto)

  

Parabéns ilha Brava por nos teres dado tão ilustre figura!

 

Praia, 16 de Agosto de 2010

 

(Entrevista do Rev. Dr. Eugénio Duarte à TCV a 23.Agosto.2010)

  

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2 comentários

De Ernestina Santos a 06.10.2010 às 20:36

Interessante esta homenagem a um filho da ilha das flores que, por coincidência, tem o nome do poeta mais querido de Cabo Verde, que tanto fez em prol dos direitos do seu povo.

Felicito a autora do texto pela generosidade em partilhar a vida e obra do Superintendente Distrital da Igreja do Nazareno em Cabo Verde e de assim lhe prestar uma singela homenagem.

De Brito-Semedo a 10.10.2010 às 20:42

Caro Amigo, Penso que o "Na Esquina" deve "revisitar" as figuras e os factos de diazá "trazendo-os" para a nova geração, mas também deve estar atento e partihar o motivo de orgulho das figuras gradas da nossa terra, mais a mais quando é a esse nível mundial e são antigos colegas, parentes e amigos!

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