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Texto da comunicação apresentada no I Congresso Internacional de Língua Portuguesa, realizado em Lisboa nos dias 27 e 28 de Fevereiro, em representação da Universidade de Cabo Verde.

 

Cabo Verde alberga uma sociedade que, antes do mais, fala crioulo cabo-verdiano como língua materna. Sendo uma língua marcadamente oral e com muitas variantes regionais, são recentes as iniciativas para o seu registo escrito de uma forma sistemática, o que tem promovido a importância académica da língua cabo-verdiana.

 

Ainda que “parente” do português, a transposição das competências linguísticas do cabo-verdiano para o português não são simples nem automáticas. A língua oficial é a portuguesa, razão pela qual o ensino da Língua Portuguesa é incumbência do Ministério da Educação, já que se trata da língua oficial, sendo esta, ainda, a língua de ensino em todo o sistema educativo. A escolaridade obrigatória é alcançada, em Cabo Verde, quase em pleno, o que tende a formar uma sociedade bilingue. Assim sendo, quando os alunos ingressam na Universidade, já dominam, ainda que com um grau de proficiência variável, a língua portuguesa. É a partir dessa plataforma que a Uni-CV actua, intervindo em três vertentes: (1) o treino e aperfeiçoamento da leitura, da escrita e da oralidade no decurso do processo ensino-aprendizagem nas diversas disciplinas, (2) a oferta de disciplinas de Língua Portuguesa com pendor mais ou menos técnico-prático e (3) a formação em Língua e Literatura Portuguesas ao nível da graduação e da pós-graduação.

 

Nesta comunicação, abordarei os tópicos: (i) A Uni-CV, uma Universidade Pública com desígnio nacional e (ii) A estratégia do reforço da Língua Portuguesa pela Uni-CV – Realizações, perspectivas e parcerias.

 

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Praça Dr. António Lereno, com Reitoria da Universidade de Cabo Verde ao fundo

 

 

1. A Uni-CV, uma Universidade Pública com desígnio nacional

 

Criada a de 20 de Novembro de 2006 pela fusão das instituições de ensino superior públicos, a Universidade de Cabo Verde, “em ordem à cabal prossecução das suas actividades no território nacional e de forma a torná-las acessíveis aos cidadãos da diáspora cabo-verdiana, adopta funcionalmente o modelo de organização em rede, que consiste em integrar e potenciar a capacidade das suas diversas unidades orgânicas e bem assim das organizações a que estiver associada, independentemente da sua localização geográfica” (Regulamento Orgânico, Artigo 5.º, N.º 3).

Sendo Cabo Verde uma sociedade diasporizada e com uma comunidade linguística considerada bilingue, a Uni-CV assume essa identidade do país e posiciona-se em relação quer à língua materna e nacional, o crioulo cabo-verdiano, quer à língua portuguesa, oficial e veículo de conhecimento científico.

 

Língua Cabo-verdiana, materna e nacional

 

Na 1.ª semana de Língua Materna, realizada em Fevereiro de 2012, o Reitor, discorrendo sobre a importância dessa realização, afirmou o seguinte:

 

“Trata-se agora de darmos um salto qualitativo definitivo: o país, a nação, clamam por esse salto.

 

Salto que será dado a dois níveis: um interno, através da instalação do núcleo de investigação em língua cabo-verdiana. Uma unidade funcional virada para a investigação através de projectos e linhas de um programa maior: a língua cabo-verdiana. Uma unidade que, através da participação activa em projectos, incluirá os nossos académicos, de outras instituições, da sociedade civil, unidos em torno de uma tarefa comum respeitante à nossa língua […].

 

O outro nível é de âmbito maior: é através da criação ou participação numa Academia de Letras de Cabo Verde. [..]. A fixação das normas de uma língua, carece desse, digamos, Conselho Científico Nacional que, de forma académica mas integrada, inter e transdisciplinar se debruçam sobre o saber produzido. De forma madura e desapaixonada. Tendo em conta a literatura, a arte, a cultura, a política e as propostas fundamentadas de universidades, cientistas, ou legítimos cidadãos” (sic).

 

O Núcleo de Estudos da Língua, Literatura e Cultura Cabo-verdianas foi criado em Julho de 2012 e em Dezembro do mesmo ano nasceu a Academia Cabo-verdiana de Ciências e Humanidades de Cabo Verde. Está, ainda, a ser anunciada para breve a criação da Academia Cabo-verdiana de Letras.

 

Língua Portuguesa, oficial e veículo de conhecimento científico

 

É o mesmo Reitor que, nas comemorações do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura Lusófona, a 4 de Maio, promovidas pela Reitoria, ao partilhar algumas reflexões sobre o papel da língua portuguesa no ensino das ciências, sistematizou a sua comunicação da seguinte forma:

 

1) O recurso a certas línguas e linguagens locais e maternas ainda em desenvolvimento é bastante vantajoso para certas vertentes da educação, mas pode ser altamente pernicioso para a educação científica, pois esta fica limitada aos recursos dessas línguas.

 

2) A educação científica na língua portuguesa, para além de facilitar o acesso e à prática da língua oficial, permite: - O acesso às obras produzidas em todo o espaço CPLP, evitando-se os custos de traduções (quando essas são virtualmente possíveis); - A possibilidade de partilhar materiais didácticos e educativos.

 

3) Hoje defende-se, mesmo em Portugal, que a ciência se escreve em inglês, e até, se fala em inglês. Nós, porém, defendemos que a ciência também se escreve e se fala em português. Mormente nos nossos países, onde é o recurso mais próximo e, seguramente, o mais adequado. É o melhor para nós, e para a própria língua portuguesa, que sem os subsídios vindos das linguagens científicas, empobrece e, em parte, morre.

 

2. A estratégia do reforço da Língua Portuguesa pela Uni-CV 

 

Realizações

 

2012 foi declarado o Ano da Língua Portuguesa na Uni-CV, com a fundamentação de que “a Língua Portuguesa constitui um dos pilares estruturantes de actuação da Universidade de Cabo Verde, por ultrapassar o domínio da formação inicial específica, e abranger as fontes, metodologias, projectos e orientações estratégicas, na fundamentação de novas opções no contexto nacional e internacional”.

 

O programa realizado nesse âmbito contemplou diversos projectos e acções, desde (i) um Workshop Internacional Sobre o Ensino da Língua Portuguesa, Matemática e Disciplinas Afins; (ii) dois ciclos de conferências, realizados em parceria com o Observatório da Língua Portuguesa, o primeiro na Praia, a 4 de Maio, com o tema “A Universidade de Cabo Verde e os Desafios Actuais da Língua Portuguesa” e o segundo no Mindelo, a 17 de Setembro, sob o tema “A Internacionalização da Língua Portuguesa”; (iii) a comemoração, a 25 de Maio, do cinquentenário da revista Seló, Página dos Novíssimos, à qual pertenceu o Poeta Arménio Vieira, Prémio Camões 2009; e (iv) cursos de divulgação da nova norma ortográfica, apenas para me referir aos mais relevantes.

 

Perspectivas

 

A Lei de Bases do Sistema Educativo Cabo-verdiano, de Maio de 2010, no seu Artigo 53.º, trata já da questão da Educação relativa às comunidades cabo-verdianas no estrangeiro, nos seguintes termos:

 

“1. São incentivadas e apoiadas as iniciativas educacionais de associações de cabo-verdianos, assim como as actividades desenvolvidas por entidades estrangeiras, públicas ou privadas, que contribuam para a prossecução [de actividades que digam respeito à preservação da cultura e da identidade cabo-verdianas].”

 

A Universidade de Cabo Verde, por seu lado, está em negociações com o Ministério das Comunidades sobre a extensão da sua oferta formativa à comunidade cabo-verdiana na diáspora, naturalmente em Língua Portuguesa, em regime semi-presencial, usando as novas tecnologias, cujos níveis serão da licenciatura, nas áreas das Ciências Sociais e das Tecnologias de informação e Comunicação, bem como dos Cursos de Estudos Superiores Profissionalizantes, dirigidos a um público-alvo situado na Grande Lisboa, São Tomé e Príncipe e Países da Benelux. A previsão é a sua implementação já no próximo ano lectivo, dependendo apenas dos recursos financeiros.

 

Aproveitando a sua vocação e experiência de Escola de Formação de Professores e Instituto Superior de Educação, a Uni-CV tem programada para o próximo ano lectivo a criação de um Mestrado em Ensino do Português (língua segunda) aberto aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Perspectiva-se, ainda, a possibilidade do ensino do Português, enquanto língua segunda e estrangeira, nas diásporas.

 

Parcerias

 

Para cumprir a sua missão e responder aos desafios dessa nação diaspórica que é Cabo Verde, num mundo cada vez mais globalizado, a Universidade de Cabo Verde espera poder contar com parceiros como o Observatório da Língua Portuguesa, Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e o próprio Instituto Internacional da Língua Portuguesa, como forma de criar sinergias e estabelecimento de laços de cooperação, que potencializem os seus esforços a favor desta língua, que é, afinal, a língua de todos nós.

 

 

- Manuel Brito-Semedo

Lisboa, 28.Fevereiro.2013

 

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3 comentários

De Adriano Miranda Lima a 28.02.2013 às 20:26

 Registe-se a relativa prudência que a Uni-Cv demonstra numa altura em que se assiste a um voluntarismo intelectual, com foros de autêntica militância, em torno da promoção do crioulo a um estatuto a que, julgo, dificilmente poderá corresponder.

Diz assim a UNI-CV: “O recurso a certas línguas e linguagens locais e maternas ainda em desenvolvimento é bastante vantajoso para certas vertentes da educação, mas pode ser altamente pernicioso para a educação científica, pois esta fica limitada aos recursos dessas línguas.” Confesso que não consigo divisar as vertentes educativas em que o crioulo possa concitar preferência ou tratamento privilegiado a não ser na perpetuação de certas tradições orais, nomeadamente em matéria de contos. Mas mesmo nestes casos é fácil constatar que, dum modo geral, a matriz da língua portuguesa está presente e com ela o essencial do imaginário cultural. Mas, enfim, aqui dou de barato.  Quanto ao uso do crioulo na educação científica, dizer que é “altamente pernicioso” é quase um eufemismo, na medida em que não consigo imaginar a mínima possibilidade de sucesso do crioulo naquele tipo de indumentária mais sofisticada, a menos que recorra ao empréstimo do vocabulário da língua mãe.

Em outra passagem do texto deste spot lê-se o seguinte: “Aproveitando a sua vocação e experiência de Escola de Formação de Professores e Instituto Superior de Educação, a Uni-CV tem programada para o próximo ano lectivo a criação de um Mestrado em Ensino do Português (língua segunda) aberto aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Perspectiva-se, ainda, a possibilidade do ensino do Português, enquanto língua segunda e estrangeira, nas diásporas.”

 

Para mim é uma surpresa que se considere a língua portuguesa como “língua segunda”. Creio que é a Constituição que o diz, mas, se é assim, temos de reconhecer que o classificativo resulta de uma decisão meramente política, para mais com o entorse de provavelmente não ser representativa da maioria do povo. E mais, é “língua estrangeira”, vejam isso! É caso para perguntar por que é que somos membros da CPLP ou fazemos questão de nela continuar.

Tenho dificuldade em presenciar toda esta preocupação com a promoção do crioulo, querendo domesticá-lo à força. Tarefa inglória. Ainda há dias, num outro comentário sobre este assunto, equiparei este processo à domesticação de um pássaro adulto selvagem que se captura e se mete numa gaiola julgando que vai sobreviver. Não sei qual é a estatística para casos destes, mas, mesmo que o pássaro sobreviva, a sua existência será triste e amordaçada. Nunca mais será o mesmo porque perde as referências espaciais e as coordenadas interiores que modelavam a sua existência. No caso do crioulo, pretender organizá-lo e discipliná-lo com uma gramática, a prevalecer tanto na escrita como na oralidade, não o fará definhar, como o pássaro, porque pura e simplesmente ele não se deixará engaiolar. Continuará o seu voo livre e selvagem entre as ilhas e em cada uma delas. (Continua)

De Adriano Miranda Lima a 28.02.2013 às 20:28

 (Continuação)

Preconceito da minha parte em relação ao crioulo? Pesporrência de quem comunica normalmente em português e relega o crioulo para um plano de acanhada inferioridade? Não é o caso, e digo-o com sinceridade. Em Julho do ano passado, passei um mês em S. Vicente e não me passou pela cabeça falar outra língua que não o crioulo com as vendedeiras no mercado, com os lavadores de carro nas ruas, e até em circunstâncias em que se meteu uma “pirraça” na conversa. Ah, e com as vendedeiras de fruta na rua naturais de Santiago, uma ou outra vez entrei em conversa fiada com elas, com os interlocutores “enfiode” não enjeitando o crioulo da sua ilha de nascimento, sem qualquer problema ou constrangimento comunicacional. Mas claro que os nossos crioulos entraram em cena tal como verdadeiramente são, livres de qualquer fatiota linguística, soltos na sua expressividade natural, o que só é possível, convenhamos, na comunicação oral. Ora, experimentem agora imaginar que num futuro qualquer essa conversa será, por decisão administrativa, num crioulo uniformizado e “alupecado”. Será isso possível? Mais, acham que vale a pena consumirmos energias e recursos querendo domesticar este pássaro selvagem que vive em nós e só se sente feliz e autêntico na tchom da sua própria ilha?

 

Mas imaginando ainda que num futuro qualquer o crioulo conseguirá alcançar o seu objectivo (língua oficial e língua de ensino), como será possível coexistir linguisticamente com os mais de 200 milhões de falantes da CPLP? Eles vão aprender o crioulo num esforço de amável empatia para comunicar connosco, de modo a poderem ler os nossos livros e negociar ajudas, intercâmbios e parcerias, em que por certo seremos nós os interessados? Isto, supondo, claro, que o conhecimento e o domínio fluente do português já serão pertença do passado, desterrada a língua de Camões para um qualquer desvão de memória. Por outro lado, e não menos importante, importará saber como será o futuro dos nossos estudantes nas universidades de língua portuguesa ou os nossos trabalhadores no mercado exterior a que possam aportar, em Portugal como no Brasil ou em Angola. Uma Angola que, continuando a emergir como potência económica, poderá ser um destino privilegiado, uma Angola, que tanto quanto se sabe, não pretende abdicar do português como língua oficial, como o fazem os pretensiosos cabo-verdianos. E é uma Angola que, por sinal, até não aprovou o novo acordo ortográfico, por achar que é uma aberração, o que é pura verdade, justificando que eu esteja aqui a escrever segundo as regras antigas e que espero venham a prevalecer.  

 

 

 

 

De Angelino Martins a 05.03.2013 às 04:37

 oi gosto  muito do seu blog, de facto  a algo de especial nele. Quero partilhar contigo algo que li num outro blog, que tambem chamou me muita atensao.. visite  o post http://kabuverdinos.blogs.sapo.cv/32700.html (http://kabuverdinos.blogs.sapo.cv/32700.html)

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