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'O Bordo É Livre'

Brito-Semedo, 22 Mar 13

 

Estou aqui na qualidade de editor mas também de amigo do autor, engº Amiro Faria,  que me honrou com o convite para apresentar o seu livro O Bordo É Livre.

 

Mas devo também desde já dizer que este foi um daqueles convites que uma pessoa aceita com agrado porque O Bordo É Livre é um livro que se lê com prazer e se chega ao fim e continua-se dentro dele e pensa-se, "bem que podia ser um bocadinho mais comprido, não me importava de continuar a ler um pouco mais".

 

Creio que acontece desse modo, porque estar a bordo de O Bordo é estar dentro, é estar a bordo, da cidade do Mindelo: da sua vivência, das suas gentes, das suas figuras carismáticas e características, mas também das suas paródias e anedotas e má língua, das suas festas, enfim, da sua vida inteira com todas as suas alegrias e tristezas e misérias. Como escreve o autor, em Mindelo no tempo em que o seu personagem desembarcou na cidade, “respirava-se um clima de vida alegre, tanto para ricos como para pobres. A chacota, os insultos irónicos, as partidas dirigidas a determinadas vítimas eram a ocupação dos tempos livres e a especialidade de uns tantos mindelenses”. É verdade que hoje já não é tanto assim, porém esse clima de boemia ainda se respira nesta cidade.

 

Para contar a sua estória de Mindelo, que é a Mindelo que ele conheceu e onde viveu desde menino, Faria cria um personagem de nome Joaquim Gonçalo Costa e é através deste personagem que vamos acompanhando, em pinceladas, algumas breves, outras mais demoradas, porém todas sempre bem humoradas, e até algumas vezes bem cáusticas, a cidade do Mindelo desde os inícios dos anos 1900 até mais ou menos 1960, que é praticamente a duração da vida útil do personagem Gonçalo Costa.

 

Amiro Faria, o autor, nasceu na ilha Brava, mas viveu a infância e adolescência aqui em Mindelo, junto à Pracinha da Igreja, como diz a biografia “na zona de passagem de marítimos para o Lombo e onde se encontravam os botequins e canecadinhas mais frequentadas por trabalhadores de bordo". Bem entendido que no tempo do autor Mindelo já não era infelizmente a cidade florescente que tinha sido nos finais do século 19. Como escreve, “Nos anos vinte Mindelo era uma cidade bem miserável... Uma grande parte da população andava de pés descalços, não havia luz elétrica, proliferavam os funcos, embora edifícios construídos pelos ingleses já marcassem a distinta arquitectura da cidade.”

 

Tal qual o autor, o personagem Joaquim Costa também é estrangeiro em Mindelo, também veio da Brava. O pai era funcionário da Fazenda Pública, colocado nessa ilha onde as mulheres são famosas pela sua beleza. E o homem teve necessidade de arranjar uma empregada doméstica, e não tardou que arranjassem um filho.

 

Mas antes de mais entrar no personagem, falemos um pouco do autor:


Ele confessa o seu indefetível amor pela sua muito querida cidade do Mindelo, afeto que todos nós que viemos de fora e adotámos e fomos adotados pela cidade muito bem compreendemos.

 

E o mais engraçado é que Faria consegue criar um personagem que vive a maior parte da sua vida em Mindelo, porém sem nunca ter conseguido habituar-se ou integrar-se na vida da cidade, nessa forma leve de deixar as coisas andar, nessa capacidade que o mindelense cultiva de brincar e rir, nessa cultura de "depois de sabe morré câ nada"!… Por exemplo, ao longo de todo o livro nunca encontrámos o Joaquim Costa, numa festa, numa paródia com amigos, ele foi um homem incapaz de alguma vez pensar na ideia de entrar num baile popular das fraldas da Morada, quanto mais dançar na rua num grupo de carnaval.


Isso porque a essa forma chocarreira de encarar a vida, ele opunha de forma dramática a maneira solene e majestática como se encarava a si próprio, fato que por sua vez provocava maiores dichotes à volta da sua pessoa.

 

O autor, ele próprio, diz que viveu a sua adolescência à roda da Pracinha da Igreja, e é precisamente nesse local ainda hoje belo e algo misterioso que começa a desenrolar-se a estória, ou melhor, as estórias que Amiro Faria nos conta ao longo das mais de 150 páginas de O Bordo É Livre.

 

Nesse tempo em que o livro começa, Joaquim Gonçalo Costa, dito Djack Bruto, já era bem conhecido na cidade onde tinha desembarcado aos 18 anos. Segundo o autor, a natureza tinha sido avara com ele em termos estéticos, parecia um monstrinho. A mulher também era bastante feia. Mas enquanto que ela, consciente da sua feiura, era retraída e simples, ele, pelo contrário, tinha uma enorme incapacidade de autoapreciação, pelo que era possuidor de um majestoso convencimento em relação à sua figura física.

 

Ora depois de ter viajado durante alguns anos como piloto em diversos navios, onde, aliás, sempre deixou a sua fama de desaforado que não admite abuso de ninguém, Djack tinha acabado por se fixar em terra, tendo conseguido, através das suas cunhas como membro da União Nacional, um lugar de fiel de armazém da companhia Wilson.


Era um emprego fixo e relativamente bem remunerado, porém sem o prestígio a que ele se achava com direito.

 

De modo que quando foi convidado para exercer como presidente da Câmara Municipal, não hesitou nem um só instante, ainda que soubesse que daquela função não lhe viria um só tostão, mas apenas aborrecimentos. Mas era um lugar sem dúvida de grande prestígio social, e isso compensava as chatices do cargo.

Mas os anos foram passando e veio a acontecer com a Wilson o que viria a acontecer com todas as companhias estrangeiras instaladas em S.Vicente: os contratos de concessão chegam ao seu termo e ala de fechar as portas. E de facto a Wilson está a indemnizar os seus trabalhadores porque vai encerrar as suas instalações em Mindelo.

 

Djack tem, pois, urgente necessidade de inventar um outro modo de vida. É certo que ganhava mais ou menos bem na Wilson, era um homem no geral muito poupado, mas tinha infelizmente uma extravagância que não lhe permitia criar um pé de meia: tinha a mania de escrever livros e publicá-los à sua custa!

 

E é então que começa a pensar em como resolver o problema da sua vida e acaba por decidir abrir uma mercearia com o dinheiro que vai receber da indemnização.

 

É que o nosso Joaquim, marítimo de profissão, percorreu já diversos empregos, sem no entanto nunca ter conseguido fixar-se em nenhum deles, sempre devido ao seu génio quezilento, sobretudo com os seus superiores porque, cioso dos seus pergaminhos, não aceitava fosse o que fosse que mesmo de longe lhe cheirasse a alguma hipotética ofensa ou falta de respeito. Nesse sentido estava sempre alerta e sempre pronto a disparar impropérios sobre os atrevidos, particularmente se eram negros.

 

Aliás, o nome de Djack Bruto, ele não o tinha apanhado no chão, antes tinha-o conquistado devido à forma arisca e mesmo desaforada como reagia a toda e qualquer brincadeira que achava poder ser desrespeito.

 

Tinha cerca de 12 anos de idade quando o pai foi transferido da Brava para S.Nicolau, levando consigo o filho que matriculou no seminário-liceu onde realmente Djack estudou alguma coisa, o suficiente para ser amanuense na administração pública.


Mas os estudos não serviram para o melhorar, se calhar até foi o contrário. Dado que era de tez relativamente clara, não perdia nenhuma oportunidade de afirmar a sua superioridade racial. A uma empregada de limpeza que descuidadamente lhe sujou um sapato, ele bradou, "Limpe imediatamente o que sujou, sua negra!"

 

Nunca perdia uma única oportunidade de mostrar a sua superioridade. Por exemplo, quando entrou como piloto a bordo de um navio, um antigo companheiro cumprimentou-o, "Djack, parece-me que me lembro de ti!" Mas ele cortou-o logo: "Certamente lembras-te de um colega da tua camada a quem tratavas por tu; para ti, hoje em dia, eu sou o Sr. Gonçalo Costa, ou mais propriamente, o sr. Piloto".

 

Mas Djack Bruto tinha uma coisa boa, distribuía a sua brutalidade com a maior justiça para toda a gente, não desculpava ninguém, nem grandes nem pequenos. Era patrão-mor em S.Nicolau e deu ordens ao servente para ir fazer-lhe um trabalho em casa. E como o homem tivesse recusado, ele aplicou-lhe duas bofetadas. O fulano queixou-se e um tenente da armada portuguesa foi encarregado de instruir o processo disciplinar que lhe foi levantado. E quando o tenente se apresentou na Patronia e lhe pediu um certo livro de serviço, Djack pegou no livro, fingiu entregá-lo ao tenente mas depois recuou a mão enquanto perguntava, "Mas o senhor sabe ler e escrever?"

 

Mas já se passaram alguns anos sobre esses episódios e finalmente o sr. Joaquim Costa, presidente da Câmara de S. Vicente, está deixando o lugar pouco prestigiante de fiel de armazém, onde também arranjou diversos problemas, diga-se de passagem, para passar à dignidade de comerciante, dono da Loja Continental.


As pessoas ainda não sabem que ele é o dono e toda a gente está curiosa. Mas foi sempre assim nesta cidade: toda a gente acha que sabe ou tem que saber da vida de toda a gente, e naquele tempo devia ser ainda pior, toda a gente achava que conhecia toda a gente, que era do domínio público tudo que se passava na cidade.


E eis que está aparecendo uma loja na Pracinha da Igreja, e ninguém consegue saber nada acerca dela, nem a quem pertence nem o que é que vai comerciar.

 

E a maior ofensa à cidade coscuvilheira é que a parte de frente da loja está provida de uma grande montra envidraçada que no futuro vai permitir que se espreite tudo que nela acontecer. Porém, no presente toda a montra está tapada por jornais que impedem que se veja o que está acontecendo lá dentro. A única coisa que quem está sentado na pracinha consegue observar é a entrada de grandes embalagens, porém de formato impossível de dar ideia do seu conteúdo.

 

Djack é feio, é malcriado, mas também é sorteado. Por exemplo, vive no Mindelo um fidalgo português de nome D. Diogo Álvares de Mendonça Pampilhosa da Serra, monárquico convicto, deportado pelos republicanos após a revolução de 1910. Ora D. Diogo muito se divertia com as saídas do Jack. E quando este lhe disse que ia ficar no desemprego e pensava abrir uma mercearia, D. Diogo deu-lhe o endereço de um amigo em Portugal, produtor dos mais variados artigos de mercearia e que lhe forneceu a crédito o necessário para abrir a Loja Continental onde as pessoas puderam encontrar bacalhau de primeira qualidade, azeite de baixa acidez, azeitonas sem caroços, grão de bico topo de gama e muitos outros produtos finos, e tudo a preços mais baixos que os de qualidade comum disponíveis na concorrência. Acharam que ele estava vendendo abaixo do preço de custo, mais uma prova de que era doido varrido.

 

Assim, mesmo com todos os seus defeitos, a vida poderia ter corrido muito bem ao Djack, se ele não tivesse uma fraqueza: queria ser escritor, poeta, um intelectual conhecido. Tinha sido obrigado a aceitar aquele empregozinho com os ingleses, mas tinha consciência de que aquilo estava abaixo das suas capacidades e competências. Assim, nas suas muitas horas vagas no armazém, dedicou-se a escrever. Como tinha viajado bastante como piloto, escreveu e publicou um livrinho, “Notas de um marinheiro dado às letras”. À sua custa, claro, nem havia editoras quanto mais alguma disposta a publicá-lo. Mas o vencimento de dois contos de reis de que usufruía na Wilson permitia-lhe certas estravagâncias, e uma delas foi a publicação de livros em edição de autor, tendo chegado a publicar quatro, considerando-se a si próprio como um “escritor português de Cabo Verde”.

 

Bem entendido que não quero de modo nenhum contar-vos as aventuras do Djack Bruto, esse prazer será melhor usufruído através da leitura direta do livro. Assim imensas situações caricatas da vida desse homem serão encontradas, sobretudo por força do espírito brincalhão de dois seus conhecidos que parecem não ter mais que fazer na vida do que inventar partidas para pregar ao Djack e levá-lo à irritação.


Por exemplo, essa parelha arranjou formas de Djack receber vindo da França uma carta do escritor Albert Camus que dizia estar a passar em tal data por Mindelo num dos paquetes da Mala Real Inglesa a caminho da América do Sul e desejar muito conhecer o colega por quem tinha grande admiração. E porque a paragem no porto era breve, pedia que o colega o procurasse a bordo. Djack viveu feliz por muitos dias, alardeou para quem quis ler a carta que o consagrava com escritor de craveira internacional mas no dia da chegada do paquete foi inutilmente que procurou Albert Camus na lista dos passageiros. Mas mesmo ainda não lhe ocorreu ter sido enganado, antes insinuou que o mais certo era a lista de passageiros estar mal organizada.


Também deixarei para os leitores de O Bordo É Livre as várias peripécias por que passou o sr. Joaquim Costa enquanto presidente da Câmara Municipal sem vencimento. É verdade que a cidade em geral não se agradou dessa nomeação achando que estava representada por uma figura algo caricata, mas é também verdade que Joaquim Costa foi o primeiro edil a se preocupar e conceber um plano sanitário para a cidade do Mindelo (pg 93).

 

Tenho para mim que aqueles que chegam de fora para viverem numa dada sociedade obtêm dela um conhecimento que tende a escapar aos naturais. No caso de S. Vicente é sobretudo verdade que a maioria das pessoas que escreve sobre o lado picaresco dessa realidade é gente que veio de fora, esse ter vindo de fora permite surpreender uma visão da realidade que de certa forma escapa aos aqui “nascidos e criados”.

 

E é isso que acontece com Amiro Faria e o O Bordo É Livre. A própria frase O Bordo É Livre é típica de uma cidade porto que vive do mar e para o mar, e portanto onde não pode ser proibida a entrada a bordo dos navios. O próprio Djack toma consciência disso certa vez que surpreende um fulano a subir a bordo do Cacheu, navio de que era imediato. "Que vem fazer a bordo, pergunta, quer fugir?" Ao que o fulano responde: "Fugir num barco português? Seria a última coisa que havia de fazer na minha vida, o bordo é livre!"

 

Nós vivemos numa cidade cheia de estórias e onde a realidade é muitas vezes tão fantástica que chega a ultrapassar a ficção. É nesse sentido que Djack Bruto surge como uma personagem quase real, sendo na verdade uma caricatura de diversas figuras que vamos encontrando espalhando pelas ruas e becos desta cidade. É evidente que haverá sempre a tentação da identificação com A ou B, mas isso é algo que deve sumamente agradar ao escritor, criar figuras capazes de serem reconhecidas nas pessoas com quem convivemos.


Visto nesta perspectiva, Djack Bruto é bem sanvicentino ainda que nascido na Brava e com vivência de S. Nicolau. Amiro Faria passou grande parte da sua vida em S. Vicente e exerceu diversas profissões que lhe proporcionaram um excelente conhecimento do meio e lhe permitiram oferecer-nos este excelente livro, O Bordo É Livre, que espero delicie os leitores como a mim me deliciou.

 

 

Germano Almeida

Mindelo, 21 de Março de 2013

 

 

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