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O elenco da 'Escola de Mulheres', com o director artístico

 - Para o Amigo e Homem do Teatro João Branco

 

1. ”Escola de Mulheres”, uma comédia de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (Paris, 15.Jan.1622 — 17.Fev.1673), encenada em 1662 – considerada uma das suas obras-primas – foi adaptada aos tempos modernos, tendo como pano de fundo a cidade do Mindelo, com encenação, cenografia e direcção artística de João Branco e interpretação do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português. É, à partida, um luxo e uma peça a não perder, mais a mais em ambiente de festa de aniversário!

 

Com o auditório do Centro Cultural do Mindelo completamente lotado, o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português comemorou os seus 20 anos com esta sua 48.ª produção.

 

Sentado na segunda fila, pensava em como nunca tinha lido nenhuma peça de Molière, apenas assistira a uma em S. Paulo, numa sala cheia de adolescentes do ensino básico e secundário, nos idos de 1990. Contudo, no meu “TPC” (trabalho para casa), hoje em dia muito facilitado pela internet, procurei informar-me minimamente sobre o autor e a comédia original.

 

 

2. A peça é, antes do mais, uma homenagem à cidade do Mindelo do primeiro quartel do século XX e ao seu carácter cosmopolita, ainda que sendo uma cidade pequena.

 

Esta adaptação tem uma forte marca de identidade local, procurada e aperfeiçoada até à exaustão. Identificam-se os hábitos sociais como o golf, com o seu ritual, vestes e aparato próprio, onde não falta o gin and tonic no final da partida; a fala local, num crioulo castiço sanvicentino, com a presença facilmente identificada do italiano, do inglês, do francês e do português, claro; a música local, como as mornas e as coladeiras, exemplarmente executadas por Khali Angel, o último pianista de Cesária Évora.

 

 

Fotos de ensaios de maquilhagem, figurinos e luz. Gentileza e partilha de João Branco

 

3. Na comédia, há uma personagem feminina, Inês, que é criada isolada do mundo, para dele não absorver mazelas e malícias. A escola da vida pôs essa mulher à prova, testou a sua natureza, o seu carácter, a sua ingenuidade e atribuiu-lhe uma função naquele mundo do século XVII.

 

A peça pode ser vista como uma metáfora em relação à forma como as mulheres eram criadas: sob o jugo do machismo, enclausuradas, subjugadas pela violência, cercadas de superstições acerca de mulheres-bruxas que tentariam os “pobres” homens e os fariam prevaricar.

 

Existe um forte simbolismo no facto de o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português apresentar a peça no mês de Março, conjugando os seus apostos Teatro e Mulher. Isso leva-nos a, mais do que apreciar o bom nível das interpretações dos actores – Edson Gomes, Elba Lima, Elísio Leite, Jair Estêvão, Janaína Alves e Renato Lopes – avaliar a qualidade da iluminação de Edson Gomes e o trabalho de maquilhagem e caracterização de Janaina Alves, que lhe dão um estilo de cinema, imprimindo o efeito de comédia a preto e branco; a música ao vivo de Khali, integrada no enredo e não apenas como um acessório secundário; ou mesmo o burlesco dos tiques, das falas e das pronúncias das personagens, que deliciaram a assistência e arrancaram fortes gargalhadas e palmas entusiásticas, simbolismo este que nos deve levar a reflectir.

 

Qual a condição da Mulher hoje? Como é que ela se posiciona na sociedade contemporânea? Terá ela conquistado o seu espaço ou é uma marioneta num mundo masculinizado que usa novas estratégias de dominação? Ter-se-á ela libertado dos grilhões de preconceitos ou é ainda vítima do culto à beleza, da ditadura da boa forma, das dietas e do consumo?

 

Da mulher vitimizada à supermulher, ela terá hoje melhor auto-estima ou desdobra-se em jornadas múltiplas entre casa-família-trabalho-carreira profissional, esforçando-se num malabarismo que comprove que ela é mais do que a costela do homem que lhe deu origem? Provavelmente, um pouco disto tudo.

 

Que “L’Ecole des Femmes” escreveria Molière hoje? Certamente que não muito diferente da “Escola de Mulheres” de João Branco!

 

É caso para dizer, Molière está em Mindelo "Cangôd"[1] em João Branco!

 
 

Manuel Brito-Semedo

Mindelo, 23 de Março de 2013


Ler mais - "Molière também fala crioulo", in Expresso das Ilhas

 

 


[1] No sentido do espiritismo, muito cultivado em S. Vicente, a expressão “cangôd” quer significar “estar possuído”.

 

 

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3 comentários

De Valdemar Pereira a 24.03.2013 às 18:35

So há lugar para "comentar" mas é coisa que não ouso fazer em obra de Molière nem tampouco onde entra a mão de João Branco. Mas, sinceramente, embora tenha gratas lembranças do meu (pouco) tempo de andanças em teatrinhos, gostaria de viver esta época nesse lugar (Mindelo) com essa equipa do Cento Cultural Português. Não tenho ciúme mas uma outra sensação positiva. Com efeito, tenho imenso prazer, sinto-me imensamente feliz de ver que em boa hora o meu Conjunto Cénico Castilho deu o pontapé de saída de um joguinho que nunca mais acabou e hoje se alinha em partidas internacionais. Saltamos da Rua do Coco para o Eden Park e agora para... o Muuuundo !!!
Viva o teatro Caboverdeano e Vivam as todas as suas Gentes.
Obrigado ao nosso João Branco
e Obrigado Prof.Brito Semedo.
Cada um com a sua função

De João Branco a 25.03.2013 às 20:28

Obrigado, meu querido amigo Valdemar! Não tenho qualquer espécie de dúvida de que foram essas sementes que você ajudou a plantar há tantos anos que contribuíram para o que temos hoje, nomeadamente o gosto do cabo-verdiano pela comédia, algo que vem desde os tempos da boa e nova (e corajosa!) comédia popular crioula!


Bem haja e que nos possamos encontrar mais vezes!


Grande abraço!

De Joaquim ALMEIDA a 25.03.2013 às 20:29

Nao me resisti em alinhar contigo , - companher de escola - no teu desabafo cheio de saudades ,  do teu Conjunto Cénico Castilho ,  a sua contribuiçao no ponta pé de saida no joguinho que nunca mais terminou e como dizes - hoje a partida continua , mas em termos internacional !.. Valeu a pena o esforço e com perseverânça  e se  se testemunho o teu desabafo é porque eu participei nos sacrificios que foram feitos , em prol da cultura , particularmente teatral em Cabo Verde . ( Molière em Mindêlo ) 
Quém tà d ' zê  Val !... Parabéns ao Joao Branco !.. Um Criol na Frânça ; Morgadinho !..

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