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Mindelo, Entre o Passado e o Futuro

Brito-Semedo, 14 Abr 13

 

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Regressar para viver em S. Vicente, depois de 37 anos, tem sido deveras gratificante. Os meus amigos dizem que ando nas ruas “pulando moda um passarim". Visito os lugares de diazá com nostalgia, à cata de memórias; paro nas ruas a tentar descobrir os lugares e a recordar como eram antes as lojas e as casas e quem eram os donos ou nelas vivia; cumprimento a todos, sobretudo as pessoas mais velhas, da minha infância; cruzo-me com antigos colegas da escola e revejo amigos desse tempo, que me fazem festa e dão as boas-vindas. Sabe de mundo!

 

O convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal para falar nesta sessão solene, que celebra uma data histórica para a Ilha de S. Vicente - os 134 anos da elevação da Vila do Mindelo à categoria de Cidade - é uma grande honra e tem um sabor muito especial, só comparado com as pirinhas-das-ilhas, as guloseimas da minha infância, vendidas a meio tostão cada uma e com sabor a hortelã-pimenta, a minha preferida. Os da minha geração lembram-se certamente dessas perinhas do Nhô César do Monte. De chupar, fechar os olhos e estalar a língua no céu-da-boca de tanta satisfação.

 

Em dia de festa de aniversário, os meus parabéns vão para a nossa Cidade do Mindelo e para todos os Sanvicentinos que nela vivem e labutam diariamente. Numa terra escassa de flores, mas de muitos artífices, fotógrafos e escreventes, optei por trazer e partilhar convosco perinhas-das-ilhas na forma de cartões-postais da Casa do Leão e da Papelaria de Toi Pombinha.

 

Socorro-me do cartão-postal, porque foi ele o principal meio de veiculação da imagem fotográfica entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, trazido pelas companhias inglesas e pelos italianos do Italcable, tendo acompanhado todo o processo de desenvolvimento da Cidade do Mindelo, que registou.

 

A primeira pirinha-das-ilhas, ou o primeiro cartão-postal, a preto e branco, desbotado pelo tempo e cheio de pó, recorda o percurso da Aldeia de Nossa Senhora da Luz até à sua elevação a Cidade do Mindelo.

 

A segunda pirinha-das-ilhas, ou o segundo cartão-postal, a sépia, já de um passado mais próximo, evoca o percurso de desenvolvimento e progresso do Mindelo, enquanto Cidade-Ilha do Porto Grande.

 

A terceira pirinha-das-ilhas, ou o terceiro cartão-postal, a cores, sobretudo de um azul-esverdeado, lembra que a Cidade-Ilha está suspensa entre um Passado de Progresso (de sonho) e o Futuro do dito programa Cluster do Mar (de esperança), que tarda em arrancar.

 

1. Cartão-Postal em Preto e Branco – Da Aldeia de Nossa Senhora da Luz à Cidade do Mindelo

 

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Em 1795 chegariam os primeiros colonos: vinte casais e cinquenta escravos, trazidos do Fogo pelo recém-nomeado capitão-mor de São Vicente, João Carlos da Fonseca Rosado, homem abastado natural de Tavira, sul de Portugal, justamente homenageado na toponímia da cidade (situada entre a Rua do Côco e a Rua de António da Noli). Uma dúzia de barracas e cabanas, erguidas no local onde hoje se localiza a Pracinha da Igreja, constituíam a Aldeia de Nossa Senhora da Luz.

 

Em 1819, não tendo São Vicente mais de 120 habitantes, o governador António Pusich, apercebendo-se das potencialidades do Porto Grande, traz mais 56 famílias de Santo Antão. Sonhando com a criação de uma cidade, rebaptiza a povoação com o pomposo nome de Leopoldina, em homenagem à arquiduquesa Maria Leopoldina de Áustria, esposa daquele que viria a ser o primeiro imperador do Brasil (1922-1831) e depois rei de Portugal (1926-1928) como D. Pedro IV.

 

Em 1838, a companhia inglesa East India estabelecia em São Vicente o primeiro depósito de carvão, ao mesmo tempo que, na metrópole, o Marquês de Sá da Bandeira (também este fazendo parte da toponímia da cidade, situando-se entre a Rua de São João e a Rua da Luz) decretava que a povoação na baía do Porto Grande adoptasse o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército expedicionário de D. Pedro IV nas praias perto da localidade do Mindelo, em Portugal.

 

Em 1879, época em que a povoação já tinha 27 ruas, 1 praça – a célebre Praça D. Luís, iluminada por um bonito candelabro – 5 largos, 11 travessas, 1 beco e 2 pátios, quase todos calcetados, arborizados e iluminados por um total de 120 candeeiros de petróleo, e uma população de 3300 habitantes, foi formalmente elevada à dignidade de cidade.

 

2. Cartão-Postal a Sépia – Mindelo, a Cidade-Ilha do Porto Grande

 

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Em 2010, a ilha de S. Vicente, com uma área de 227 Km2, tem uma população de 76.107 habitantes (seg. Censo de 2010). Desses, cerca de 62.970 vivem no centro urbano do Mindelo, cujo limite territorial é de apenas 75 Km2, fazendo deste um dos espaços mais densamente povoados de Cabo Verde. O desenvolvimento da ilha tem acompanhado, ao longo dos tempos, o desenvolvimento desta urbe, que se mantém o polo económico, social e cultural da população da ilha. De tal modo que a referência à ilha e à cidade se confundem nas conversas do dia-a-dia.

 

É a baía do Mindelo que determina toda a vivência desta cidade. Conhecida como a Baía do Porto Grande, foi a partir dela que a cidade se foi expandindo para o interior. E foi o movimento crescente dos barcos neste porto que lhe conferiu um carácter urbano marcadamente cosmopolita.

 

Acompanhando esta evolução, a cidade foi-se afirmando como um centro cultural importante, onde o desenvolvimento artístico – nomeadamente, a música – a intelectualidade e o desporto seguem as tendências internacionais, sem deixar de expressar um cunho marcadamente mindelense.

 

O importante Liceu de S. Vicente, fundado em 1917, foi o único da província até 1960. Por ele passaram várias gerações de escritores e pensadores caboverdianos, o que constitui um motivo de orgulho para os mindelenses.

 

Considerado, desde há muito, como o centro cultural de Cabo Verde, S. Vicente é conhecido pelo seu Carnaval, que se assemelha em muito ao carnaval carioca do Rio de Janeiro, com desfiles de grupos carnavalescos, carros alegóricos, blocos e concurso, pelo Festival de Música da Baía das Gatas, realizado no primeiro fim-de-semana de lua cheia do mês de Agosto, pelo Março, Mês de Teatro, pelo Festival de Teatro MindelAct, realizado anualmente em Setembro e tido como a maior mostra de teatro de África e um dos maiores de língua portuguesa, e, principalmente, por ser a terra natal de Cesária Évora.

 

3. Cartão-Postal a Azul-Esverdeado – Mindelo Suspenso Entre um Passado de Progresso (de sonho) e o Futuro do dito Cluster do Mar (de esperança)

 

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Foto Ana Brito-Semedo, Março.2013

 

Neste meu regresso a Mindelo, a impressão que me fica é que a cidade está parada, que as pessoas sofrem de um sentimento de orfandade, de abandono e de perda.

 

A verdade é que S. Vicente não consegue reter os seus quadros, pois, ao longo dos anos, vem sofrendo de uma verdadeira hemorragia, saindo muitos para ir trabalhar na Praia – nos Ministérios, nos Bancos, nas Alfândegas, nas Empresas – quando não vão para o estrangeiro, simplesmente porque SonCent ca tem trabói, explicou-me um velho conhecido.

 

Existem, porém, pessoas que resistem e que teimam em ficar, disse-me outro – mas, até quando? Outras, entretanto a viver fora durante muitos anos, mal conseguem a aposentação, regressam a S. Vicente para desfrutar da morabéza, da beléza e da moléza desta ilha.

 

Durante o dia, cruzo-me com essas pessoas na Rua de Lisboa, no Café Lisboa, no Snack-Bar Katem, na Casa-Café Mindelo, na Pont d’Água, ou simplesmente as encontro na sua caminhada ao fim do dia na Avenida Marginal, ou na Lajinha aos fins-de-semana.

 

Não, não é esta a Mindelo que queremos para nós - uma Mindelo que as pessoas só visitam nas férias e quando se reformam. A Mindelo que queremos é aquela onde as pessoas possam fazer a sua vida, com oportunidades e realização profissional. Não uma Mindelo que só viva de momentos pontuais de pujança ou apenas das lembranças dos bons tempos de diazá.

 

A Mindelo que desejo é aquela Mindelo doce e singela como a Menina Xanda (minha mãe), que vendia alegremente o seu cuscuz quente e fazia os rapazinhos arregalarem os olhos quando passava, só para melhor apreciarem a sua graça.

 

A Mindelo que desejo é como a minha avó Mãi Liza, altiva e elegante; bonita, asseada e aprumada; enérgica e séria, quando necessário; ciosa das suas obrigações e honrada com o trabalho que faz, por mais simples que ele seja.

 

Tenho saudades desse futuro!

 

Feliz Aniversário! Viva a Cidade do Mindelo!

 

- Manuel Brito-Semedo

 

Discurso proferido na Sessão Solene da Câmara Municipal de S. Vicente pelo Dia da Cidade do Mindelo

 

Mindelo, 14.Abril.2013

 

 

 

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4 comentários

De Valdemar Pereira a 14.04.2013 às 14:25

Parabéns, Manuel, por esta prosa elucidadtiva de Mindelo de dias-hà, Mindelo das pirinhas-das-ilhas e do cuscus que vendia (no meu bairro) uma moça cuja encanto mexia na cabeça dos adolscentes (e não so...), Mindelo daquele tempo cantado por Sergio Frusoni na sua mora "Tempe de Caniquinha".
Espero, Amigo, de todo o coração, que volte mais vezes a esse lugar e a outros mais para falar (também) de Nha Candinha (dos rebuçados) de Tuda (das sucrinhas) e de mais pessoas que guindaram a nossa Cidade às alturas intra e extra muros.
Avé !!
Um braça pertode na estilo de nôs tempe

De Joaquim ALMEIDA a 14.04.2013 às 15:29

Este " Blog " é simplesmente extraordinàrio ; a Esquina do Tempo so nos traz assuntos que nos deixam com os olhos a brilhar ,  matando saudades de longe vendo essas fotografias com um contraste de preto e branco  fazendo-nos lembrar  praia de bôte daquele tempe... ( tempe de caniquinha ) e as cores d' agora  colorindo a nossa bela baia do  " nosso porto grande  " !.. Na verdade é de dar parabéns ao Brito !..
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho ;

De Djack a 14.04.2013 às 17:16

Depois do que os dois comentadores anteriores comentaram, o meu comentário de comentador só pode ser comentar o seguinte: muitos parabéns pela sentida prosa e viva o Mindelo!

Braça,
Djack

De José a 15.04.2013 às 12:57

Gostei. Excelente artigo
José F Lopes

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