Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

© Manuel Roberto/Público

 

- Suzana Abreu, Lisboa *

 

Uma das coisas que a vida me tem ensinado é que as certezas têm uma vida muito curta.  

 

Manter crenças sem beliscadura é muito confortável, mas mudar radicalmente de opinião pode ser um privilégio e não um sinal de fraqueza de carácter.

 

Durante muitos e muitos anos, nutri pelo futebol uma indiferença comatosa. Era de todo incompreensível a graça que tinha ver 22 fulanos e 1 sicrano em calções abichanados a correr desalmados atrás de um “esférico” aos quadradinhos. Sempre que me juntava ao grupo de amigos para ver a “bola”, eu era seguramente a companhia mais enfadonha do mundo. Para ali ficava como uma múmia, sem mexer uma pestana, não fossem os malfadados bocejos que me acometiam de forma súbita… Ai, era cada um de repente que quase desencaixava os maxilares!  

 

Esta impassibilidade televisiva recordava-me sempre da minha avó Laurinda, senhora vitoriana de uma vontade indómita, fina que nem um coral, perita em achacamentos de escolha múltipla, também ela espectadora glacial e imperturbável.

 

A única diferença é que ela ficava com um brilhozinho quase imperceptível no olhar e ligeiramente arfante ao ver um desafio de boxe, um filme de cobóis e uma partida de futebol. Entredentes, articulava baixinho “toma que já levaste!”, (o que dava para o chumbo e para o knockout) e “eh lá, duas piruetas e já estás a comer relva…”. 

 

Quando eu lhe perguntava se estava a gostar, respondia logo, seca e certeira, sem dar aso a retorno: “ó menina, olhe o disparate, vamos lá a ter juízinho…”. 

 

Eu percebia mas fingia que não e ela fazia-se de desentendida. Entediamo-nos às mil maravilhas! 

 

Esta minha apatia manteve-se, constante e viçosa, até chegar o Euro 2004. De repente, o campeonato europeu cai aos trambolhões em cima da minha mesa e vi-me a braços com um pesadelo logístico, o controlo sufocante do tráfego aéreo e terrestre, a ronda de negociações diplomáticas, o périplo de acções de marketing e relações públicas, improvisação de guia turística e geringonça ambulante de GPS à procura das “encomendas vip” extraviadas. Tudo porque a instituição bancária onde trabalho tinha um camarote para os clientes e eu, falante de alguns idiomas, estava mesmo ali a jeito! Para ironia do meu desatino e por generosidade de uma alma elucidada, lá fui parar ao estádio no jogo de abertura do Europeu e em quase todos os seguintes. 

 

Assisti a uma partida, ao vivo e pela primeira vez, num estádio cheio, exultante, vibrante, com direito a tapeçaria de cachecóis e hino cantado com fervor até às lágrimas. 

 

Meus amigos, mudou tudo! De repente, descobri cá dentro uma pessoa de quem fugiria a sete pés no dia anterior, alguém que embarcou sem medo nem vergonha numa montanha russa emocional e ainda queria mais uma voltinha! Começa uma partida destas, e eu, à velocidade de um foguete, passo de zero à esquerda a “mister” encartado em dois segundos. 

 

Sento-me, levanto-me, não como nem bebo mas espalho sem querer tudo o que estiver à minha volta, ponho alcunhas, chamo “ó zarolho, ó perneta, aldrabão! ó palhaaaaço”, grito “tira, tira isso daíííí, arre, que é surdo, vá lá, ali não está ninguém, ah ah ah querias mas não levas!”, anda lá, não sejas mariquinhas, levanta-te já! Ai...vê lá se te cai alguma coisa!…” e mil outras apreciações menos próprias, à excepção de asneiras cabeludas, que ainda lá não cheguei, nem quero. 

 

Com todo este festival, ala que se faz tarde, que o stress acumulado, os sapos engolidos e mal digeridos, os desaforos que nos causam azia dão às de vila-diogo, eclipsam-se, reduzem-se a pó. Meia dúzia de saltos e uns quantos berros bem puxados das entranhas fazem mil maravilhas!!

 

Ah… e então as celebrações quando ganhamos? Sorrisos às carradas, gargalhada fácil, alegria desmedida, abraços a gente que não conhecemos de lado nenhum (nem queremos conhecer mais tarde), uma sensação de leveza e evasão, que é de borla e não requer prescrição médica! Qual anti-depressivo qual carapuça, adeus centros de saúde a abarrotar e listas de espera para a consultazita! 

 

Não obstante este mergulho de cabeça, continuo a perceber muito pouco de futebol, o que obviamente não me faz falta nenhuma. Não gosto da exploração do tema até ao vómito, nem tenho a mínima pachorra para assistir a jogos “a feijões”, tipo casados e solteiros, calção a escorregar com “mealheiro” à mostra e pontapé pouco certeiro na canela. Muito menos para as tricas futeboleiras. 

 

Mas confesso sem qualquer constrangimento ou embaraço que é de facto um privilégio perder o medo de ser ridículo, ter liberdade, durante 90 minutos, para mandar a pose e a carranca para onde se mandam geralmente os árbitros. 

 

Não ganhámos no Euro 2004 nem no Mundial seguinte, é certo. A sensação de ressaca, de boca a saber a papel de música, tende a instalar-se quando não se chega a Primeiro. Contudo, não podemos esquecer um percurso de sucesso (temos mais sucessos de que ninguém se lembra), o mérito da selecção, a mobilização da sociedade civil, que não se mobilizou desde os tempos da revolução por causa nenhuma (a grande excepção foi Timor), a solidariedade por esse mundo onde se fala uma palavrita em português e o nosso fair-play, associado normalmente à fleuma britânica e que por vezes descamba como sabemos. 

 

A vida não é só bola, pois claro, mas sempre são 90 minutos em que se estivermos a ganhar, não nos dói nadica de nada.   Dizem os profissionais da crítica que isto é só pão e circo para distrair o povo – e até pode ser bem que sim – mas deixemos as críticas, a maledicência, e o fatalismo do “eu bem avisei” para as trombetas do apocalipse, que andam sempre a afinar a corneta, prontos a jorrar bílis com um ataque de desgraça aguda.  

 

Hoje estamos felizes, acabámos de marcar 7 golos à Coreia.  

 

Hoje o médico não dá mais consultas.

 

* Suzana Abreu é, juntamente com Luís António Martins de Faria, autora do livro Cabo Verde, Terra de Morabeza (2012).

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

4 comentários

De ZITO AZEVEDO a 27.04.2013 às 22:23

A magia do futebol...a musica das palavras numa sinfonia dos sentidos!

De suzana.abreu a 28.04.2013 às 11:29


Obrigada!

De ZITO AZEVEDO a 28.04.2013 às 13:23

Susana, desculpe a descomplexidade (será neologismo?) do tratamento, a que ouso, do alto dos meus 79 anos de idade, V. não tem nada que agradecer: nós, sim! Eu próprio adoro escrever mas não sou narcisista, gostro da boa prosa, venha ela de onde viuer e, sendo a leitura o melhor alimento alma, digamos que V., por  vezes, me mata a fome! Bem haja!

De suzana.abreu a 28.04.2013 às 14:44


caro comentador, pode tratar-me pelo primeiro nome,  foi aquele que os meus pais me deram quando nasci! agradeço as suas amáveis palavras e folgo que a crónica lhe tenha agradado.  Um bom domingo, já de volta a Lisboa (passei a semana passada no Mindelo, terra de parte da minha infância).

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

Powered by