Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Crónica das Calinadas

Brito-Semedo, 17 Abr 13

 

- Suzana Abreu, Lisboa *

 

Quando penso em calinadas, a primeira coisa que me vem à idéia são os bilhetinhos dos tempos de escola primária, em especial aqueles que custavam muito a escrever e a passar: os primeiros bilhetinhos de amor.

 

Havia que apelar à imaginação e à criatividade, tanto na produção, quanto no transporte e na entrega. O estafeta tinha que ser de confiança ou acabava o bilhetinho a ser lido às escondidas por terceiros no recreio da escola, para gáudio de toda a canalhada e arredores.

 

Bastava uma palavra mal usada, de mau-gosto ou escrita com erros crassos e se a paixão não se extinguia fatalmente, sofria pelo menos um malfadado revés.

 

“Crida Çuzaninha", etc, etc.”… Aqui a "Çuzaninha" ficava furiosa com a santa “ingnorância” do Orlandito por não saber escrever um adjectivo tão fundamental, “mau! já começa com o pé esquerdo!”, amarfanhava o papel com raiva e dizia para os meus próprios botões: “burro”!

 

O Orlando, ainda verde para perceber que "o quanto mais me bates mais gosto de ti" é coisa de masoquista, haveria de mandar mais meia dúzia de bilhetes cheios de “cridas”, manifestando o seu “purtesto” pela falta de "retrono", então não me “dáz bola”, ando aqui que nem “drumo”, até que finalmente foi bater a outra porta, esperançado com melhor sorte e um padrão ortográfico menos exigente.

 

Ora quando não se tinha jeito para estas coisas e já se era mais crescidito, recorria-se às palavras de outros para aumentar o sucesso na conquista. Nunca os livros de poesia foram tão manuseados, emprestando a beleza das palavras a quem não as tratava por tu.

 

Quem tinha criatividade marcava pontos, embora nem sempre o resultado estivesse garantido.

 

A mexericar numas caixas fechadas desde os primeiros tempos da adolescência, encontrei, com um daqueles sorrisos que estas recordações nos provocam, um bilhetinho de um  rapaz que todas as noites me atirava pedrinhas à janela.

 

Ao princípio achei graça mas depois os tics-tics passaram a saraivada com a pontualidade de um relógio suíço e se o meu pai desse conta, estava o caldo entornado. O rapaz era um verdadeiro empreendedor: quando viu que não surtia efeito e eu aparecia à janela com ar aborrecido, mudou logo de estratégia e eu caí que nem um pato.

 

Passados uns dias, pede-me emprestado o livro de Física para tirar umas notas porque o dele se tinha estragado. O teste era dali a uma semana e eu lá emprestei, com um prazo de devolução de três dias. O colega, muito sério, devolveu-mo dois dias depois sem se traír.

 

Chego a casa, abro o livro e... bum! frases, corações e setas desenhados em todas as páginas ! e eu que tinha de estudar, a tentar ler o texto impresso por baixo, tentando ignorar o manuscrito e a dar comigo a virar o livro para ir acompanhando os dizeres do colega! Empinei fórmulas e as leis das forças centrífuga e centrípeta com declarações de amor ! Não conseguiu convencer-me, (na altura ainda era demasiado nova para saber que isto é matéria de Química!) mas também nunca mais me esqueci dele. Não teve sorte mas marcou pontos.

 

Quanto ao Orlandito, ainda bem que nesses tempos não havia telemóveis. Imagino a cara com que ficaria se em vez de “crida” fosse promovida ”a bueda fixe”," keres dar 1 volta cmg ou já tens dono? lol”… A "Çuzaninha" ter-lhe-ia dado com a mala pela cabeça abaixo logo na próxima oportunidade, dizendo-lhe que quem tem dono é animal e quem pergunta assim só pode ser besta.

 

Hoje em dia, para aqueles sem uma pinga de criatividade mas que querem fazer boa figura, há agora mensagens estilo “chapa 5″ disponibilizadas pelas operadoras de telemóveis, cheias de estrelas a brilhar no céu e "tu és a maior de todas, blá,blá, blá", coisas de uma piroseira inimaginável. Pelo Natal é ainda pior: desaba uma avalanche de mensagens pré-feitas, cheias de floreados mas sem nada lá dentro. Adeus espírito natalício... ao fim de se receber duas ou três com o mesmo texto, fica-se agoniado e com vontade de ter também, ali mesmo à mão, uma malinha bem pesada. Um “fica bem, um beijo”, é simples em demasia mas dá muito trabalho a escrever?! isto tem realmente uma lógica imbatível!

 

Não é que nos tempos pré-telemóvel não houvesse modas e manias no linguajar, algumas delas perfeitamente atrozes.

 

Depois da revolução, a moda era combinar “camarada” com “pá”. A “plataforma de entendimento” era a expressão nobre nesse tempo, que se metia a eito e ah, não esquecer, a extraordinária muleta do “efectivamente” e do "então", usados no começo, no meio e no fim de cada intervenção.

 

Efectivamente, o “então”, que se soltava efectivamente com indiferença quando efectivamente se queria perguntar a alguém se efectivamente estava bem, mal ou assim-assim, era então efectivamente do piorio.

 

Cruzam-se dois conhecidos e um deles soltava, enfadado: “Então?…” e o outro, com cara de parvo, lá tinha de se desembaraçar com uma resposta qualquer, que tanto podia ser “estou bem obrigado” como “estou com uma dor de barriga”, “olha ali a a Tia Maria a vender bróculos”, como “vou ali e já venho”.

 

A este “então”, tão interessado, eu respondia normalmente com “então”, seguido de " uma palavra que começa por m e acabada em a, com um r a fazer de galheteiro". Enquanto o perguntador ficava apalermado a fazer contas de cabeça à procura das palavras que preenchessem o requisito, já eu me tinha posto ao fresco, grata por me ter visto livre de mais um Orlandito em versão revolucionária.

Pois, pensava eu. Seria de esperar que nove anos de ensino obrigatório tivessem exterminado as calinadas e já ninguém maltratasse a língua portuguesa.  Enganei-me, de novo.

 

Nos tempos que correm, para fidelizar clientes, há que ser criativo, comercialmente agressivo e, pelos vistos, "ingnorânte". Marca-se pela diferença.

 

Na passada quinta-feira vinha mesmo a chegar a casa, cansada de uma semana muito exigente, com uma data de sacos do supermercado pendurados em mim. A fazer equiíbrio para abrir a porta do elevador, um dos telemóveis começa a tocar insistentemente.

 

Lá pouso a tralha toda, contrariada, mas atendi.

 

Era o meu gestor de conta, pasme-se, fulano que nunca vi nem ouvi antes, que me falava como se nos conhecessemos há muito tempo. "Ora viva, tudo bem?"... e blá blá blá ... a expôr-me um plano de poupança, a desbobinar a cassete sem parar. A ficar impaciente, ainda com os sacos todos no chão e parte das compras a escorregar para fora dos sacos enquanto os dois elevadores se iam embora, disse-lhe que nunca tomo decisões pelo telefone e que me mandasse um email a explicar o que me estava a oferecer.

 

Hoje fui ver a caixa de correio electrónico e lá estava, o senhor gestor de conta, a reproduzir um texto pré-escrito, terminando com este mimo de lavra própria:

 

"Deixo-lhe o meu contacto. Se "percisar", disponha, tratamos das suas "poupansas".

 

Heim?! ...

 

Coitado do Orlando, o tal, do "purtesto", de quem nunca mais me lembrei e que me saltou assim , de repente e aos "tarmbulhões", das "burmas" da memória, só por causa de umas valentes calinadas ... ! Seria mesmo o Orlandito, rebaptizado com um nome mais chique e uma profissão com um título sonante?!... credo!...

 

* Suzana Abreu é, juntamente com Luís António Martins de Faria, autora do livro Cabo Verde, Terra de Morabeza (2012).

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

9 comentários

De ZITO AZEVEDO a 17.04.2013 às 20:52

Crónica simplesmente deliciosa! Parabéns!

De suzana abreu a 18.04.2013 às 11:26


Obrigada! fico contente que a leitura tenha sido agradável! Cmptos

De ZITO AZEVEDO a 18.04.2013 às 14:05

Poderá juntar ao agrado, oi respeito, que é o que sinto pelas pessoas que cultivam a língua em que se expressam, seja sua ou não...O meu discreto blogue, "Arrozcatum", sentir-se-ia honrado com a sua visita!

De Anónimo a 18.04.2013 às 18:41

Oh ..;ZITO ; a mim nunca me convidastes o teu (arrozcatum ) ; e portanto jà emcontràmos vàrias vezes , nas parodias organizadas por este blog ??? Podes crer que é um prato que aprecio imenso ; arrozcatum ;Aquele abraço de caboverdianidade ;Morgadinho ;

De ZITO AZEVEDO a 19.04.2013 às 10:37

Os amigos do peito e companheiros desta longa estrada desde os anos de 1930 não necessitam de convite...Somos família, filhos da mesma mãe Mindelo a que nos unem laços de fraterna amizade e mútuo respeito...Que a Paz seja contigo, irmão!

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 19.04.2013 às 11:33

Oh; rapaz , ho irmao ; Tu tens razao sabes ;" ciùme - d ' criol " ê complicôde, mesmo com os anos nao se desfaz e nem deminui !... Confesso que me sinto aleviado com as tuas palavras !..Mesmo se infelizmente jà sao poucas ... as ( verdadeiras) Braça rige do teu irmao ;Morgadinho !..

De Mendo Santiago a 19.04.2013 às 15:37

Parabéns pela crónica. ||| Princípios dos anos 70, "Praça" di Somada. Numa das "voltas" à Praça, dou de caras com uma carta abandonada, e que carta, hein! Era de um tal de Olívio. Este leva com os pés (da namorada Matilde), e não se "fica". Escreve-lhe uma carta, que encontrei por puro acaso (juro!), marcando terreno: "(...) E  se algum dia arranjaste outro alguém, ficas a saber que ele é meu resto". Assinado, Olívio. ||| Alguma semelhança com o Orlandito? Fique bem!

De suzana.abreu a 20.04.2013 às 00:46


tomara o Orlandito ter o desembaraço do Olívio :)

De Joaquim ALMEIDA (Morgadinho) a 20.04.2013 às 10:12

Lembrança das " calinadas " , dos anos setenta !.. Uma troca de palavrinhas meigas cheias de enigmas , mas que tem o seu sabôr , sabôr daquele tempe - ( tempe d' caniquinha ) e que jà nao era do meu tempo , porque eu jà estava fora desse tempo !.. mas o sabôr era o mesmo . Os bilhitinhos  no meu tempo , jà existiam!..O receio de dar barraca a escrever o importante bilhitinho , jà era o inimigo  do nosso estado de espirito (apaixonado) naquele tempo ; as gargalhadas depois (do soprar nos ouvidos) 
 dos golegas  na porta de escola , era mais ràpido do que internet com seus e-mails nesse tempo d 'agora !... Velhos mas bons tempos . (Oh...tempo , volta para tràz !...)
Que apareça mais calinadas, como (esta) do nosso tempo , nessa esquina do tempo , porque relembrar é viver !.. Parabéns Suzana Abreu !..
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho ;

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Joaquim ALMEIDA

    Inteiramente de acordo com a Gilda !.A mais bela c...

  • Anónimo

    Monte cara também,seria um bom nome para a nossa c...

  • eduardo monteiro

    Mindelo a minha eterna enamorada, a vida verdadeir...

Powered by