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A primeira vez que damos com Leão dos Santos Lopes é em 1 de Julho de 1920, quando lhe faleceu a filha Marta de cinco anos em Pawtucket, Rhode Island, onde residia. Era nessa altura casado com Maria Lopes, provavelmente também originária das ilhas, de quem não conseguiremos saber mais nada. Mas em Junho de 1923 , também o encontramos, em anúncio da sua loja, a Mercearia Portuguesa, na Hamilton St., 42, Pawtucket. Ali se “[vendia] tudo quanto [havia] de bom e barato no género de latas de conserva, sardinhas portuguesas, carne, etc., etc.” Volta a surgir-nos no ano seguinte, quando a Direcção do Clube Republicano Português da mesma cidade agradece a 44 sócios incluídos numa lista de doadores os contributos para a continuação do levantamento do edifício da sua sede. Leão ofereceu 200 dólares, sendo dos 44 o quinto a dar maior quantia, apenas superada por outro com 500, dois com 650 e um com 1000 dólares. Ainda em 1924, é membro da Comissão de Angariação de Fundos de Central Falls para o levantamento do Monumento aos Mortos da Grande Guerra de Lisboa.

 

 

Em princípios de Outubro de 24 e em semanas seguintes, dirige-se através do Alvorada Diária  à colónia cabo-verdiana na América informando que irá a Cabo Verde no paquete Roma e que estará à disposição dos conterrâneos para os representar e ajudar nos trâmites da viagem: “Se desejais ser bem representados, tanto na ida como na volta da viagem à nossa terra a bordo do vapor Roma que sai de Providence em 30 do corrente, procurai, quanto antes, o vosso patrício Leão dos Santos Lopes, que foi devidamente autorizado a representar-nos durante essa viagem. Se alguma reclamação tiverdes a fazer, sereis bem atendidos e tereis alguém que vos defenda os interesses. Eu sou cidadão americano e estou a par das leis de imigração, etc. Procurai-me, quanto antes, no n.º 46, Hamilton St., Pawtucket.” Temos assim que nesta altura, Leão Lopes parecia já estar perfeitamente instalado na sociedade americana e que a sua actividade se desenrolava na agenciação de imigrantes. Mas nem todos os cabo-verdianos nos States tinham essa sorte. A um António Lima que chegara aos Estados Unidos por volta de 1921, o destino aziago fez-lhe contrair doença que o atirou para a mesa de operações do Saint Luke’s Hospital e depois para o Sanatório da Caridade, sendo então recolhido por um primo. Incapaz para o trabalho, teve de voltar a Cabo Verde. Sabendo do caso, Leão Lopes lançou com a ajuda do jornal A Alvorada uma campanha de angariação de fundos para que o pobre homem pudesse regressar à terra no mesmo vapor em que ele também seguiria, como já vimos. O autor da ideia doou cinco dólares para o efeito e logo no primeiro dia a colecta chegou aos 22 . Não sabemos se António Lima sempre seguiu no Roma mas Lopes fê-lo, a 30 de Outubro. Nesse dia o navio saiu de Providence para São Vicente, via Madeira e como dizia o Alvorada Diária, nele “seguiu o nosso amigo e sócio sr. Leão dos Santos Lopes, cavalheiro verdadeiramente estimado pela Colónia Portuguesa. (…) estará de regresso em Março ou Abril próximo a bordo do mesmo vapor ou outro da acreditada companhia Fabre Line de quem levou recomendação para a agência de São Vicente para que durante a visita à sua terra natal possa angariar o maior número de passageiros possível. Já por o grande número de amigos que consigo levou e também por o seu grande conhecimento, estamos certos que a companhia Fabre nada perdeu com o que fez a tão excelente cavalheiro. Esperamos que o sr. Lopes encontrará todos os seus com saúde, que ansiosos o esperavam há uns 16 anos e fazemos votos para que na sua curta estada possa adquirir igual número de amigos como os que actualmente conta nos Estados Unidos. Embarcaram 32 passageiros que compraram os seus bilhetes na agência de S. Oliveira & Co., assim como muitos outros que por certos motivos imprevistos os compraram em outras agências.”

 

Aparece por engano de letra inicial de “Leão” no DN de 7 de Setembro de 1939, confundido com Peão Lopes, escultor e cineasta de Moçambique. Mas fala-se dele de novo em 1941, a propósito da conclusão pelo filho “do nosso assinante” Artur Leão Lopes do curso da Cook Grammar School no mês anterior. O jovem matricular-se-ia no Liceu no Setembro seguinte e em Julho de 1942 visitou as instalações do DN em New Bedford, na companhia do pai, morador em Hamilton St. – mesma rua da sua loja, mas no 59, como se informava na notícia que dava conhecimento da visita de ambos. Note-se que Leão Lopes era muito considerado pelo jornal, tendo-lhe sido dado o devido destaque quando felicitou o periódico pelo 25.º aniversário – o que só aconteceu com o secretário do Mayor de New Bedford e poucos mais.

 

Entretanto, cria novo estabelecimento, chamado Gold Key Café (assim mesmo, com acento à portuguesa, ou abreviado como The Key), nos números 59-61 da Hamilton St. – ao que supomos, nos baixos da sua residência, a qual, como vimos, se situava no 59. O Gold Key dura vários anos. Dele encontrámos uma série de notícias e anúncios. O primeiro é de Dezembro de 1943 e destinava-se a dar as “Boas Festas e um feliz Ano Novo a todos os seus clientes, amigos e Colónia Portuguesa em geral”, para além de anunciar bebidas finas e cervejas de primeira qualidade como apanágios da casa. Em Maio de 1944, outro anúncio dizia que no The Key se podia matar saudades de Cabo Verde, indo ali “ouvir as mornas acompanhadas de boa música”. Os restantes anúncios seguem a linha destes dois. A 27 de Março de 1947, no DN  iniciava-se um novo espaço intitulado “O que vejo e sinto em Rhode Island”, da autoria de Manuel Borges. Entre outras curiosidades que divulgava da terra, dedicava algumas linhas a Leão Lopes e ao seu café: “O sr. Leo Lopes, proprietário do Gold Key Café, de Pawtucket, disse-nos que um português esta semana comeu um pão com uma libra e meia de carne, numa sandwiche, no seu estabelecimento, como se nada fosse! Não sei quanto o freguês pagou por tal sandwiche, mas o que sei é que se fosse ao preço da tabela do restaurante onde ontem jantei, semelhante iguaria custava-lhe ‘50 pesos’, visto eles terem-me levado 70 cents por umas ‘nisquinhas’ de carne que quase se perderam antes de chegarem à base do estômago…”. Em Dezembro de 1953  o Gold Key já não lhe pertencia mas sim a outros dois indivíduos: seu irmão Isidro (ou Isidoro)  Martins e Alexandre Alves.

 

A 23 de Outubro de 1944 casou-se sua filha Dorothy, na igreja de Saint Anthony, em Pawtucket, com Frank Francisco, tripulante da marinha mercante. Dado o interesse do curioso relato da festa como memória social, ele aqui se reproduz na íntegra, com ligeiras adaptações: “Depois da cerimónia nupcial, os noivos e padrinhos dirigiram-se ao Clube Social Português, no 208 de Pleasant St., onde estava tudo preparado para os receber, bem como aos seus convidados, aos quais foi servido um pequeno lanche. Tanto o salão nobre do clube como a cave estavam enfeitados a primor, vendo-se no centro sobre uma mesa um grande queique que depois foi cortado e distribuído por todos os convidados. De tarde foi servido lauto jantar aos noivos e convidados, que decorreu num ambiente alegre e com grande animação. Foram levantados vários brindes em inglês, desejando as maiores felicidades aos noivos. Como o noivo se achasse bastante comovido, o pai da noiva e nosso amigo sr. Leão Lopes agradeceu a todos os presentes a sua comparência à cerimónia, falando este senhor na língua portuguesa. Houve dança durante a noite, com música pela Cape Verdian Serenaders Band , durando a festa até às duas horas da madrugada. Não publicamos os nomes dos padrinhos, pelo facto de os ignorarmos. A mãe da noiva é a sr.ª Palmira Barros Lopes e o pai o sr. Leão Lopes, de 93, Hamilton St. e os pais do noivo são os srs. John Joseph e Carlota Joseph de New Bedford, Mass.” Deduzimos deste saboroso relato que parte substancial dos convidados seria de origem portuguesa (daí a língua utilizada no discurso de Leão Lopes) e que se terá ouvido e dançado durante a festa alguma música das ilhas tocada pela banda cabo-verdiana.

 

No mês seguinte, está de novo no Clube Social Português, desta vez sentado a uma mesa, na companhia do amigo George Monteiro, tripulante de navios da marinha mercante americana, e de um jornalista do DN, a quem apresenta aquele. A conversa desenrola-se entre copos de vinho do Porto e versa as agruras que o marinheiro já sofrera durante a guerra, nomeadamente o afundamento de um barco de cuja equipagem fazia parte, torpedeado por um submarino japonês. Na altura deste encontro já fora condecorado pelo Governo americano com quatro Combat Ribbons, uma Silver Star e uma Torpedo Pin. Amigo de Leão e de apelido Monteiro, faz-nos supor que seria de origem cabo-verdiana, embora o mesmo também seja comum entre os naturais da então Metrópole. Em 1947, Leão Lopes faz uma longa viagem a Lisboa, Cabo Verde e Brasil. Fica algumas semanas na capital do Império, para depois seguir para a terra natal e para o Rio de Janeiro, onde vivia seu irmão Francisco José Vera-Cruz. No regresso aos Estados Unidos, quatro meses depois, dá uma muito curiosa entrevista ao DN. O nosso homem havia casado novamente entretanto, ao que supomos, em Cabo Verde. De qualquer modo, a segunda esposa era a cabo-verdiana Antonieta Oliveira Freitas, neta do capitão Freitas Miranda, natural de São Vicente. Este casamento põe uma interrogação sobre quem era a mãe dos dois filhos de Leão Lopes – talvez a sua primeira esposa, apenas uma vez citada e eventualmente falecida anos antes. Contudo, o que sobreleva nesta entrevista é a tomada de consciência do comerciante sobre os aflitivos males da sua terra que expressa ao jornal com a contundência que a situação de facto merecia: “Cabo Verde sofre actualmente uma das suas maiores crises económicas. É certo, sim senhor, morre-se por lá à míngua. Eu fiz o que pude, mas que é uma gota de água no oceano? O Governo central em Lisboa aprovou a verba de algumas dezenas de milhares de contos para acudir ao povo daquele arquipélago, mas receio que será assim mesmo tarde para evitar que a gente de Cabo Verde se não tuberculize e continue a morrer em número poucas vezes atingido. Todo o auxílio que daqui possamos mandar para as ilhas de Cabo Verde, é lá recebido com lágrimas nos olhos e muito apreciado, mas o socorro a prestar é de tal magnitude que só o Governo de Lisboa pode e deve tomar à sua conta.” Lopes aproveitava ainda para criticar a vida lisboeta pela “vida ociosa de rico que parte dos habitantes [levava] na capital”.

 

Em Fevereiro de 1950 o DN  apelida-o de “distinto cabo-verdiano e abastado comerciante desta praça”, a propósito do pagamento da assinatura do jornal com 15 dólares, mais que o necessário, o que repetirá em outras ocasiões, sempre assinaladas com ênfase pelo periódico. E no final do ano, o seu é um dos maiores donativos (cinco dólares) para a obra dos órfãos do Padre J. Alves Correia. Chega a ir entregar pessoalmente o habitual donativo no jornal, com receio de que se tivessem esquecido de lho pedir. Também em Dezembro, são divulgadas novas afirmações suas, desta vez sobre a difícil integração de trabalhadores portugueses nos Estados Unidos da América. António Pires, correspondente do DN, no texto Continua em progresso a comunidade portuguesa de Pawtucket, R.I., dava assim conta das palavras deste importante membro da comunidade local: “Dando à conversa aquele toque de originalidade que lhe é peculiar, o sr. Leão Lopes, compatriota cabo-verdiano, oriundo da ilha de Santo Antão, historiou-nos com grande soma de pormenores, aqueles primeiros tempos em que os portugueses começaram a assentar arraiais por estas paragens. Disse-nos da desconfiança e algum desprezo com que éramos olhados pela população nativa, que via em nós ‘uma espécie de vaca inferior’. O sr. Leão Lopes tivera sempre uma fé inabalável no triunfo dos portugueses, especialmente depois de uns quinze anos a esta parte ‘em que tivera um sonho’ e nesse sonho mr. Lopes vira os portugueses ‘senhores de Valley Falls’…”

 

Em Setembro de 1951  recebe a visita do cunhado António Freitas Miranda que viera do Mindelo, via Lisboa, de avião. Vive agora na High St . E em Dezembro do mesmo ano é um dos seis cidadãos de Pawtucket, entre 27, que mais colaboram na obra social do Padre Alves Correia, doando cinco dólares. Morto este, Leão continuará a colaborar na obra Florinhas da Rua que tem agora em Pawtucket como dinamizador António Pires, correspondente do DN, que já conhecemos. No início do ano seguinte, a esposa obtém a cidadania americana. Em Junho de 1956 recebe a visita da cunhada, Ilda Mendes dos Reis, casada com Armindo Mendes dos Reis, farmacêutico e primeiro-enfermeiro do campo de concentração do Tarrafal. Este estava em Lisboa, “para onde fora, à procura de alívio para a sua doença”. Da capital portuguesa viera a senhora, que contava demorar-se em Pawtucket alguns meses, para rever a irmã e conhecer o cunhado.

 

Em 18 de Outubro de 1956, na primeira página, o Diário de Notícias divulga mais um contributo de Leão Lopes, desta feita para um Museu da Imigração  que se pretendia concretizar em Nova Iorque. A subscrição já contava 1165 dólares, 10 dos quais tinham sido então oferecidos pelo cabo-verdiano. Dizia o jornal: “Como só ao contrário seria de estranhar, o sr. Leão Lopes, de Pawtucket, não podia falhar nesta subscrição para o Museu de Imigrantes, a erigir na base da Estátua da Liberdade, em New York. Para muitos dos nossos, isto será uma coisa sem importância; mais um racket, para assaltar as nossas algibeiras. Porém, o sr. Leão Lopes, nome familiar nesta casa, que nunca deixa de comparecer quando tocamos a reunir, o facto representa alguma coisa. Se ele contribuiu de sua livre vontade, é porque encontrou mérito na iniciativa. Bem-haja o distinto cabo-verdiano sr. Lopes e todos quantos sentem como ele. Por isso, para ele vão os agradecimentos, em nome da comissão do Museu.” Temos assim aqui, desta feita, um homem preocupado com a preservação das memórias de uma era e da vida colectiva dos imigrantes que, como ele, haviam demandado a miragem americana.

 

Em 1957, recebe mais um elogio por continuar a dar o seu contributo monetário às Florinhas da Rua: “Na nossa lista dos amigos das Florinhas desta semana, não podemos deixar de nos referirmos ao distinto cabo-verdiano sr. Leão Lopes, hoje respeitada figura do nosso meio e uma das pessoas mais popularmente conhecidas entre os portugueses desta cidade. (…) Quando acha que demoramos a bater-lhe à porta, cá nos aparece o sr. Lopes, sendo portador daquele costumado chequezinho da conta redonda de $5.00, com que vem contribuindo todos os anos… ”

 

No final de 1958 morria-lhe o irmão Claudino Lopes, com 62 anos, residente em Blackstone St., 18. Era natural de São Vicente e vivera muitos anos em Wonsocket mas nos últimos quatro fixara-se em Pawtucket. Deixava viúva Louise Lavallee, dois filhos, Wilfred e Alberto, uma filha, Mrs. Marcel Baril, e quatro netos. Na mesma notícia se indicam dois irmãos, Isidoro Martins (como vimos, um dos donos do seu antigo Gold Key Café) e Max dos Santos. Esta mistura de apelidos indicia óbvios casamentos entre gente que sabemos ser de origem cabo-verdiana e americanos mas também que entre eles havia filhos do mesmo pai e mães diferentes ou vice-versa.

 

Em Fevereiro de 1962, o comerciante está debilitado, retido em casa. Era na altura um dos residentes mais antigos de origem cabo-verdiana de Pawtucket e também um dos mais longos assinantes do Diário de Notícias de Rhode Island. A 4 de Abril o DN dedicava-lhe espaço de primeira página para noticiar o seu falecimento, de ataque cardíaco. O velho imigrante, que nascera em 1 de Novembro de 1886  e morrera com mais de 75 anos no dia 2, vivera nos últimos tempos dos rendimentos. O funeral realizou-se no dia seguinte, com missa de corpo presente na igreja de St. Anthony e foi enterrado no Saint Mary’s Cemetery, em Pawtucket.

 

Chegava assim ao fim uma vida (aqui tratada com a profundidade possível), recheada de empreendimentos comerciais vários e amor à “terra longe” e à benemerência, de que foi devotado cultor até ao fim dos seus dias. Pessoa assaz respeitada em Pawtucket, Leão Lopes ficou como significativo exemplo de cabo-verdiano que procurando no estrangeiro o modo de vida compensador que na terra natal lhe era negado, conseguiu triunfar através de trabalho honesto e obter o apreço e admiração dos que com ele conviveram.

 

 

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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