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Ulisses à espera de Penélope

Brito-Semedo, 24 Jun 13

 

 


Ulisses, como todos os rapazes de S. Vicente, tem os olhos voltados para a baía do Porto Grande. Deslumbra-se com os vapores da Blue Star e da Mala Real ancorados na baía da velha cratera em semicírculo, enxerga também o Monte Cara, a secular bela montanha, contemplando nuvens passando, feito poeta em silêncio.


Ulisses tem sonhos. Idealiza a distante Argentina, nas Américas, e, um belo dia, enchendo-se de coragem, vai ter com António Cara Linda, abastado negociante de barcos, um velho amigo da sua família.

 

Tirando o boné em sinal de respeito, entra no enorme armazém de Cara Linda, armazém de mil cheiros, repleto de miríade de cordas, tintas e montes de objectos marítimos desconhecidos. No fundo do gigantesco armazém, António Cara Linda está sentado numa velha cadeira americana de vai-vem, à moda dos cowboys. Tem as pernas estendidas sobre uma imponente mesa de mogno repleta de papéis cheirando a velho. Está lendo um jornal desportivo.

 

Após cumprimentar o negociante, sem rodeios, o jovem aventureiro vai directamente ao assunto. Expressando-se de forma clara, promete a António Cara Linda, jurando por Deus, que ele, Ulisses, irá trabalhar arduamente na terra das Pampas e um dia devolver-lhe o empréstimo para a viagem à terra das infinitas vacas e de um intelectual, um tal de Jorge Luís Borges, poeta cego que, por mera coincidência, lera meses atrás um poema num almanaque brasileiro na Biblioteca da Câmara Municipal. Cara Linda, homem bondoso, antigo emigrante que após trinta anos de dura labuta no mundo tinha regressado endinheirado à cidade do Mindelo, compreendeu perfeitamente o direito de sonhar do rapaz. Foi generoso.

 

Buenos Aires.jpg
 Cidade de Buenos Aires, Argentina


Anos mais tarde, depois de muitas vicissitudes, bem na vida, Ulisses é o mulato mais desejado em Doc Sur, Buenos Aires. Baila Tango melhor do que ninguém, trabalha com primor e tem amealhado em pouco tempo uma considerável fortuna vendendo charutos de contrabando. Visita frequentemente alcovas e bordéis das belas senhoritas portenhas, sem nunca esquecer Penélope, sua mulata, a mais bela de todas na ilha, imagem que carrega religiosamente numa foto guardada na sua carteira de couro genuíno.

 

Após uma longa troca epistolar com a sua Penélope, que dura cinco anos e cinco meses, resolve pedir aos pais da donzela a sua mão. Grande é a alegria de Ulisses, quando recebe a desejada epístola com a bênção dos progenitores da amada.


Através de um procurador na ilha, com rígidas instruções dadas por Ulisses ao burocrata, são regrados papéis, na estúpida burocracia colonial. Meses depois é marcada a data do casamento, por procuração, devido à ausência do noivo Ulisses, emigrado na distante Argentina.


Naquele dia, a cidade do Mindelo brilhava! Contam os mais velhos que, até hoje, Penélope, é sem dúvida, a mais linda de todas as noivas que subiram ao altar da igreja paroquial. Fora levada à ara pelo excelentíssimo Sr. Doutor Juiz, Manuel da Cunha Sacramento Pais Ferreira da Silva, padrinho do enlace, por ordens do mulato Ulisses.


Célebre, foi também a festa do enlace, com centenas de convidados distintos na sala de Nhô Jom Tolentino, no bairro Monte, onde tudo era foguetes, tambores, toneladas de cachupa e outros manjares, festa rija, que durou cinco dias e cinco noites.


Findada a euforia e a tremenda ressaca da festança, tudo regressa ao normal. Duas semanas mais tarde, Penélope, aproveitando um barco de passageiros que vai para as Américas, embarca para Buenos Aires, numa noite de Fevereiro. Noite fria e cortante de um bréu medonho, típico das longas noites nos trópicos. Do céu, tomba uma maldita cacimba que chicoteia sem piedade as costas dos remadores semi-nus, que remam num dos botes de Cara Linda, que transporta e leva a bela Penélope para o vapor inglês da Mala Real, ancorado na baía semicircular no belo Porto Grande de São Vicente.

 

Triste, com o coração apertado, de saudades da ilha e da família, embarca no Esperanza, navio com pavilhão inglês que ruma: primeiro, ao porto de Santos, no Brasil, logo a seguir a capital da Argentina: Buenos Aires. 

 
Blue Star Line

 

Num ambíguo sentimento de curiosidade e saudade, Penélope deixa os pais afogados em lágrimas no cais da alfândega acenando à sua bela princesa, com lanternas que reluzem como pirilampos, no forte piche nocturno, no velho cais de madeira, com suas gruas feito falos, fornicando as estrelas.

 

É hora di bai, pensa Penélope, lembrando por momentos a bela morna do poeta Eugénio Tavares, melodia que a embala, num transe cadenciado, cadenciado pelo chapinhar dos remos do bote entrando e saindo compassadamente do mar salgado.

 

Com o paquete cortando o mar negro e profundo das ilhas, mal disposta, enjoada, num esforço titânico, lá consegue dormir e só no segundo dia logra sair da sua cabine depois de ter vomitado as tripas coração e não ter mais lágrimas para derramar de tanta saudade. Com as pernas tremendo dirige-se ao salão da nave agarrando nos corrimões do barco e, ao entrar, girando a cabeça de forma tímida, para controlar, depara com um passageiro cabo-verdiano, um belo homem com quem, várias vezes, cruzara olhares na pequena Praça Nova, no seu Mindelo já longe.


O cavalheiro que é um peralta de paletó branco e sapatos a duas cores, que brilhavam impecavelmente, ao avistar a formosa mulata Penélope, levanta-se do seu lugar e, com elegância, convida-a, de forma cordial, para a sua mesa, ficando os dois longe dos outros passageiros. O salão, pintado de branco, é amplo, tipicamente inglês, e está decorado com um enorme quadro pintado por um pintor, medíocre com motivos de uma caçada onde, homens, cavalos e vários sabujos raivosos, mostrando dentes afiados, perseguem uma raposa, numa floresta deprimentemente escura.


O nosso cavalheiro peralta, que não pára de fazer elogios a Penélope, tem o cabelo crespo, mas alisado com brilhantina, à moda de Carlos Gardel, um bigodinho perfeitamente simétrico, ele é, um elegante pesca mulheres com seu ar de sedutor afro-latino, conhecido aventureiro, que mora, em Salvador da Bahia que regressa à terra do candomblé e das mil igrejas (teve que fugir da policia Brasileira), após umas longas férias no arquipélago, onde nasceu.

 

Penélope deslumbrada com a elegância e beleza do homem, não resiste, de seguida apaixona-se e, no quinto dia de navegação, é seduzida, de forma admirável, com gestos graciosos e palavras refinadas do belo cavalheiro. Encanta-se com as bonitas palavras e declarações de amor do cavalheiro, articuladas com seduzo, no seu belo cantado português do Brasil.


Entrega-se sem pudor nos braços do elegante Dom Juan e é desflorada com mestria por António Cabo-Verde, malandro, proxeneta, conhecido em todas as esquinas de Salvador da Bahia. Amam-se até à exaustão perante uma suposta indiferença da tripulação e passageiros, que fingem nada ver. Assim é a vida! Foi coisa do destino! Penélope, nunca chegará à Buenos Aires. Ulisses espera, espera, cansado de esperar, derrotado pela fatalidade, louco de dor, perde a noção do tempo, a sua vida degrada, o seu mundo desaba num piscar de olhos.Todo contente, sentindo-se o homem mais feliz da terra, na véspera em que o barco aproa vai à agencia do barco, onde é conhecido dos empregados, pergunta a um portenho que bate numa máquina, a hora da chegada do navio. Como é generoso, aproveita para distribuir duas caixas com charutos Cubanos de contrabando aos funcionários que, cinicamente, fingem, não saber que a sua Penélopenunca mais há de chegar a Buenos Aires. Na agência, tinham recebido um telefonema do capitão do barco, desde Santos, anunciando o desaparecimento de Penélope. Em Santos, ela descera com um senhor, passageiro do navio e, até a saída do barco, ela não regressou. O comandante do navio tinha comunicado às autoridades brasileiras o desaparecimento da senhora, mas, nem fumo nem mandado, o barco seguiu a sua rota.

 

Ulisses, inocente, todo contente, vai deitar cedo, sabe que, amanhã, será o dia mais feliz da sua vida. No seu apartamento, num bairro luxuoso da cidade, saboreia um excelente vinho de Mendoza, escuta tangos no seu rádio, come crouriço espanhol com pão de cevada, passado momentos, lava os dentes, fecha o rádio e vai deitar. Num sono inquieto sonha com Penélope, raptado por um dragão mas ele, feito herói, com lança e espada, mata o monstro depois de uma luta titânica. Acorda todo suado, é dia, o sol entra nas venezianas das janelas, vai a cozinha beber um copo de água. De repente, tem um pensamento aziago, sacode a cabeça, afasta os maus espíritos, vai ao banheiro, toma um longo duche, veste o seu melhor paletó de três peças, bebe um café do Brasil bem forte, poisa a chávena na mesa da cozinha e, de seguida, vai apanhar o seu carro, que comprou novinho em folha, um Buick americano, último modelo na praça. Guiando na direcção do porto, contente vai cantarolando, ele é o homem mais feliz deste mundo. Estaciona a bela máquina na entrada do porto, dá a um vagabundo uma generosa esmola. Como é conhecido dos guardas da alfândega, entra cumprimentando com alegria no rosto. Observa o barco, acompanhado de um rebocador atracando, enxerga toda a manobra com emoção, vê o barco cada vês mais perto do molhe, os passageiros no convés acenando, mas estranha não ver a sua esposa, ele pensa: – Coitada! Ela deve sofrer de mal de mar, deve estar a recompor-se, da longa viagem.

 

O tempo vai passando, todos os passageiros já desceram na escada de passadiço, menos a sua querida Penélope. Inquieto, pede licença, ao imediato do navio para entrar, sobe para o convés do barco a passos largos, pergunta ao homem pela sua esposa, passageira que vinha de São Vicente de Cabo-Verde. Atrapalhado em palavras, o imediato pede a Ulisses que espere um momento. O capitão tem notícias para lhe dar. Com o coração quase a rebentar, Ulisses espera. São os minutos mais longos da sua vida. O capitão, sem jeito, todo atrapalhado, dando voltas ao seu boné, estende a mão a Ulisses, minutos depois, meio gaguejando, dá-lhe, a trágica noticia, é o fim!

 

Cmê Deus, Foto Djibla

 

 

Hoje, Ulisses, o galã, é um velho andrajoso com uma barba enorme, cabelos sujos desgrenhados, feito punhais, prontos a espetar-lhe no seu pobre coração destroçado. Tudo desmoronou! Com a malvada notícia, Ulisses perde o norte e, como guiado pelo demónio, naquele dia, entra no primeiro bordel que encontra, escolhe a rameira mais feia do lupanário, bebe com ela até a exaustão, gasta dinheiro sem atenção. Dias depois, perde o carro num jogo de póquer, vende o apartamento, pára de trabalhar, em menos de um ano, está na miséria total. Feito um trapo humano, um pária fedorento, é desprezado, e rechaçado por pessoas que outrora diziam ser seus melhores amigos. Passa ano, entra ano, vive de esmolas, apanha beatas de cigarros no chão para fumar, louco de tristeza, uma tristeza maior do que o mundo nas suas costas, todos os dias, na boquinha da noite, religiosamente, vai sentar horas sem fim, no cais número 7 em Doc Sur Buenos Aires, acompanhado do seu fiel cão, Argos. Olha para nenhures e, sem mexer as pálpebras. À sua frente é o imenso mar. Dizem que está à espera do fantasma da sua amada perdida, que nunca chegou aos seus braços.

 

- Tchalê Figueira

 

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