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Djosinha de Bernarda, Uma Homenagem

Brito-Semedo, 29 Jun 13

Legenda: Luís Morais no saxofone, João Morais na bateria e Djosinha de Bernarda no clarinete. Foto Luiz Silva
 

«Óh Rei! Não dê o visto para a Pasargada

àquele que não pôs as mãos na construção do Templo.»
(Osvaldo Alcântara, heterónimo poético de Baltasar Lopes)

 

Djosinha de Bernarda, menino do Monte Sossego, ali nasceu a 9 de Maio de 1940. Naquele tempo  o Monte Sossego estava separado da cidade por uma enorme chã, sem iluminação, com dois cemitérios  (inglês e americano) e um “esteirado” para criket no meio da chã. Uma grande parte da história de São Vicente perdeu-se com a eliminação dos dois cemitérios, onde foram edificadas casas sobre os sepulcros  de  figuras importantes da construção económica e cultural da  cidade do Mindelo. O medo da noite e dos gongons também deixou as suas estórias no caminho de Monte Sossego,  lembradas nas coladeras do Manuel d’Novas e Frank Cavaquim.  Monte Sossego teve também excelentes atletas que marcaram o desporto Mindelense, mas também cantores e compositores de mornas que davam um colorido musical aos fins-de-semana. Uma das mais lindas mornas dedicada a uma menininha de Monte Sossego, interpretada por Bana, conheceu o mundo. Trata-se da morna Lutchinha, da autoria de Albano de Wilson, actualmente a residir  no Rio de Janeiro, morna essa dedicada à sua mulher. Havia muita dignidade no relacionamento das pessoas e uma certa nobreza herdada da convivência diária  com os ingleses no desporto e nas companhias de carvão, que também formaram grandes quadros técnicos em sectores de máquinas e outros ofícios. Este é o retrato de Monte Sossego daquele tempo, antes que alguns apostólos da nossa emigração descobrissem o «caminho marítimo» para Holanda, onde Djosinha de Bernarda viria a desempenhar um papel importante.

 

 

Legenda: Manel d'Novas, Djosinha de Bernarda e Luís Morais. Foto Luiz Silva

 

Orfão aos seis anos de idade, a madrinha de Djosinha, Nha Bernarda, conhecida figura do Pelourinho de Verdura, acolheu o afilhado a quem deu uma extremosa educação e tratou com muita amizade e carinho maternais. A função de compadre ou comadre era na época tomada com muita responsabilidade e, em caso de perda dos pais, eram os padrinhos que assumiam, com dignidade, a educação do afilhado. Djosinha passa assim do Monte Sossego para a Ribeira Bote, onde fez a escola primária, aprendeu carpintaria e estudou música (bateria e clarinete) no Conservatório do Mindelo, com o professor José Alves Reis. Mas foi  o cinema que lhe transmitiu o gosto das viagens e aventuras pelo Mundo, fazendo-o sonhar com novos mundos e novas civilizações, onde o homem não seria julgado pela sua cor ou classe social, mas sim pelo seu talento. A morte dos cinemas de Mindelo (Eden Park e Miramar) foi uma ferida aberta no seu peito que nunca se cicatrizou.
 
Muito cedo começou a ganhar a vida como carpinteiro e nos fins-de-semana dedicava-se à música ao lado do grande músico Luis Morais, seu amigo-irmão de infância no Monte Sossego e, mais tarde, em casa de Nha Bernarda. Participava também nos grupos sociais e carnavalescos (como o Lombiano) e jogava futebol no Mindelense, seu club de coração, que sempre ajudou da diáspora, pagando religosamente as suas quotas bem como fornecendo material desportivo.

 

Grupo Recreativo Lombiano, 1962

 

Quando um grupo de marinheiros do Porto Grande resolveu lançar um desafio político à potência colonial, através da emigração para a Holanda, para se opôr ao caminho de São Tomé, a madrinha, Nha Bernarda, decidiu em 1962 financiar a sua viagem para a Holanda. Deixava para trás o ambiente festivo e turbulesco do Mindelo, com as suas festas e bailes de fim-de-semana, as célebres discusões de futebol e outras coisas da Praça Estrela.
 
Depois de dois ou três anos na marinha mercante holandesa, percorrendo o mundo e em contacto diário com culturas e civilizações diferentes que, dia a dia, muito enriqueceram a sua caboverdianidade, Djosinha interessou-se de novo pela música, estudando os novos compositores latino-americanos. Viajou pelo Brasil, onde frequentou vários cursos de formação profissional e instalou-se finalmente em Roterdão com um projecto de solidariedade no intuito de apoiar a emigração para a Holanda de amigos e familiares. É nesta persectiva que faz vir de Dakar Luís Morais e alguns dos seus companheiros sem, no entanto, ainda sonhar com a criação do conjunto “A Voz de Cabo Verde”.
 
Roterdão recebia diariamente emigrantes caboverdianos de todas as ilhas e de todas as comunidades caboverdianas espalhadas pelo mundo. E é neste aspecto que os emigrantes mindelenses na Holanda, com os seus hotéis e conhecimentos do mundo, do mar e dos portos e com as suas caixas de solidariedade (que quotizavam para casos de doença ou ajudavam os recém chegados, sem distinção de ilha ou região), tiveram um papel fundamental na criação das estruturas para servir a emigração nesse país, bem como na transformação social, económica e cultural de Cabo Verde. Em nenhuma ilha, em nenhum vale ou ribeira de todas as ilhas, de Santo Antão à Brava, é possivel ignorar-se a presença da emigração caboverdiana para a Holanda.

 

A ida para a Holanda, a partir dos princípios dos anos sessenta, de grandes músicos e desportistas fez também ali aparecer grupos musicais e equipas desportivas. Djosinha de Bernarda estava em tudo, como antigo jogador de futebol do Club Sportivo Mindelense e como músico reconhecido na praça. O primeiro disco long-play de música caboverdiana teve como título “Os Caboverdianos na Holanda” e foi editado pela Casa Silva, que mais tarde se transformou em Morabeza Records. Djosinha também participou na formação do conjunto “A Voz de Cabo Verde”, tanto a nível musical como financeiro, mas as responsabilidades familiares impediram-no de prosseguir uma carreira musical profissional.

 

Além disso, contribuiu para a formação do movimento associativo em Roterdão com destaque para as actividades culturais, onde esteve sempre activo e de forma benévola. E quando ia de férias a Cabo Verde era o grande animador das noites caboverdianas no bar Calypso, pertencente à Ofélia Ramos, e um dinâmico impulsionador do futebol no Club Sportivo Mindelense. Dizia-me sentir-se frustrado por não ter participado no disco “Mindelense! Mindelense!”, editado em Paris pelos desportistas mindelenses em França. O mesmo disse um outro grande Mindelense, Bana.

 

Após a Independência quis fixar-se com a família em Cabo Verde. Mas o regresso prepara-se a longo prazo e em consertação com a família. Por outro lado, a Nação tem de ter uma política de reintegração dos seus emigrantes o que ainda hoje está por fazer. Não poderia assegurar a educação dos filhos e a experiência de uma vivência num país democrático como a Holanda entrava em choque com o sistema de partido único. Para além disso, existia e existe ainda uma corrente de opinião anti-emigrante na pequena burguesia e, em especial, no seio dos funcionários públicos que afasta o emigrante da sua terra.

 

Via com uma certa frustração o declínio da cidade do Porto Grande ao nível económico e cultural devido ao egoísmo e ao silêncio comprometido dos nossos políticos e intelectuais, que só se preocupam com o seu bem estar, ignorando totalmente as aspirações do povo que tanto apostou nas lutas pela Independência e democracia. E, por isso, cedo aderiu à UCID e ao movimento para a Regionalização, na esperança de trazer um novo renascimento económico e cultural para  Cabo Verde e, em especial, para Mindelo e o seu Porto Grande.

 

É que os emigrantes, na sua maioria originários do mundo rural, consideram indispensável uma política coerente de investimentos que possibilite ao sector primário uma progressiva adaptação aos condicionalismos impostos pelo crescimento industrial. Em que medida se deve considerar válido o contributo dos emigrantes, vindos do meio rural, no desenvolvimento regional para a integração dos rurais (emigrantes) nas respectivas? Quais os meios a serem utilizados e como os utilizar? Ao proporem o desenvolvimento harmónico de Cabo Verde como objectivo a ter em vista nas áreas deprimidas ou ignoradas do país, os emigrantes associam-no imediatamente à ideia de Regionalização. Pôr termo, através de uma nova política económica e cultural  para o sector primário, ao despovoamento de certas zonas rurais, principalmente das ilhas agrícolas de onde partem os emigrantes (Santiago, Santo Antão, São Nicolau e Fogo), vítimas do centralismo do Estado, constitui um dos fundamentos da nossa luta para uma Regionalização humana e solidária.

 

Outra questão inquietante: como continuar Cabo Verde na emigração se não existe um projecto cultural para as diásporas caboverdianas dispersas pelo mundo? Será que não corremos o perigo de sermos assimilados e desparecer como Nação no mundo? Isto tem sido uma exigência em reuniões e congressos dos emigrantes, mas infelizmente este sonho maior do emigrante continua por se realizar. Como diz Paulino Vieira, a tocatina não nos leva a nenhum lugar e, por isso, precisamos de uma política cultural para a emigração, graças ao ensino das línguas dos países da nossa emigração nos liceus e escolas técnicas, de centros culturais dos países de emigração nas várias ilhas de onde partem os emigrantes. Mas também necessitamos de centros culturais caboverdianos na diáspora, dirigidos por pessoas nomeadas por mérito e de formação de quadros para o movimento associativo que ultrapasse os limites da nossa solidariedade humana, imbuída de novas práticas de associativismo baseadas na cultura e no desenvolvimento económico de Cabo Verde.

 

Mas embora militante da  UCID na clandestinidade, Djosinha regressava à terra de dois em dois anos com o seu clarinete para animar as noites caboverdianas, as festas de amigos e até os enterros, sempre de forma benévola, mas também para abraçar os velhos amigos da Praça Estrela e do Mindelense.

 

Há mais de dez anos foi vítima de um primeiro ataque cardíaco e o médico recomendara-lhe que se consultasse anualmente. Recuperado, retomou a sua participação nas noites culturais e esteve sempre presente nos enterros na Holanda e mesmo em França. Sentiu profundamente a morte de Luis Morais. A mulher e os amigos nunca o informaram da morte de Manuel d’Novas, seu amigo e companheiro no Lombiano e nas noites caboverdianas na diáspora e em Cabo Verde.

 

Nos últimos tempos levava uma vida muito sã na companhia da mulher, Maria Alina, e dos filhos. À noite frequentava a Casa Racionlista Cristã, presidida por Vitorino Chantre, figura importante da diáspora mindelense em Roterdão que, para além de professor de várias gerações da diáspora caboverdiana nessa cidade, tem sabido prodigar conselhos valerosos aos nossos emigrantes.

 

Grupo que organizou a homenagem ao Djosonha de Bernarda, Foto Luiz Silva

 

Em tempos, muito longe de imaginar a sua morte, um grupo de amigos criou uma comissão para lhe prestar uma justa homenagem em Roterdão e Paris. Mas veio a ser supreendido por um novo ataque cardíaco que revelou que a sua saúde estava bastante debilitada e que se houvesse mais uma outra crise cardíaca não escaparia da lei da morte. E foi o que aconteceu no dia  28 de Outubro de 2012 numa tarde de sol outonal em sua casa em Roterdão.

 

Homem de duas pátrias, Cabo Verde e Holanda e como racionalista cristão, nunca se preocupou com o lugar onde devia ser depositado o seu corpo após a morte. Para muitos amigos ele merecia um enterro nacional, não só como figura da cultura caboverdiana, mas também como militante da emigração para a Holanda, tendo marcado a história de Cabo Verde em todas as suas lutas. Assim, foi uma decisão da família realizar o seu enterro em Roterdão, onde viveu quase cinquenta anos, deixando o seu nome marcado na história da comunidade caboverdiana de Roterdão.
 
Após o enterro, um grupo constituído por Pedro Soares, Gilberto Andrade, Constantino Delgado, Sérgio Barros,  Gregório (Tchogoy), Marciano Teixeira (Dindim), João Morais, Calú de Monte Sossego, Zenaida Soares e Rolanda Correia constituiu uma comissão organizadora para se homenagear o amigo e o homem de cultura Djosinha de Bernarda, homenagem essa que teve lugar nos dias 9 de Maio (dia do seu aniversário) e 11 de Maio de 2013 em Roterdão. No acto muito concorrido, estiveram presentes amigos vindos de Portugal, Estados Unidos, França, Suécia e de outros países da Europa. Nessa ocasião, na qualidade de amigo e compadre apresentei a sua biografia e Vitorino Chantre, representante do Centro Redentor do Brasil na Europa e amigo pessoal de Djosinha e familia, dissertou sobre o tema da amizade. Testemunharam também Orlando Medina e Baltasar Barros, vindos dos Estados Unidos, Quintino, vindo de Portugal, Xala Almeida, exímio tocador do cavaquim e das noites caboverdianas, vindo da Suécia, e amigos residentes em Roterdão, como Pedro Soares (Piduca), Maguy Figueira, entre outros. A parte musical foi muito participativa  com destaque para os cantores Nhô Balta, Jacqueline Fortes, Xala, Luís Fortes, Silvestre da Cruz, São Matos, Nelo do Fogo, Arlinda e Dudu, acompanhados por Xala, Zézinho, Quiqui (prodígio  do violino e da trompete), António Violão e João Morais.

 

Uma frase de grande profundidade marcou os presentes: cada um deve viver de forma a merecer um grande enterro, seguido de uma justa homenagem. É que a morte de um emigrante interroga-nos profundamente sobre a nossa condição de exilado: morrer fora da terra em busca de Cabo Verde, como dizia Baltasar Lopes, ou seja daquele Cabo Verde que sonhamos construir com catchupa para todos, dignidade para todos, acima de tudo, e solidariedade fraternal entre os caboverdianos. E a morte de alguém é sempre uma oportunidade para pensararmos na nossa caminhada e sentir a frustração de vir a morrer longe da nossa terra com o espelho de Cabo Verde à frente.

 

De entre os presentes nesta homenagem a Djosinha, muitos faziam parte do contingente que há mais de cinquenta anos partiu foragido do Porto Grande ou em barcos portugueses, como o Quanza, atravessando os Pirenéus sob a vigilância da polícia portuguesa (PIDE), com a missão de libertar Cabo Verde das “as secas”, do caminho de São Tomé e da colonização portuguesa. Comemora-se tudo em Cabo Verde e ainda não houve ninguém que se tenha lembrado deste cinquentenário ou de condecorar os fundadores da comunidade caboverdiana de Roterdão, que tudo fizeram  para que essa emigração assumisse o seu dever histórico para com Cabo Verde e fosse admirada e respeitada na Holanda e no Mundo.

 

Djosinha foi mais um combatente da Pátria no meio do mar, no verdadeiro sentido do termo, aquele que tudo lhe deu e nada dela esperou. Regionalista  convicto, avesso a todas as manifestações bairristas, ali estavam patrícios de todas as ilhas a testemunharem o seu respeito e a amizade por ele.

 

A família agradeceu a organização e os presentes pelo sucesso da iniciativa. A organização promete anualmente realizar uma homenagem com actividades desportivas e culturais num espaço maior, onde se possa acolher a maioria dos amigos do Djosinha de Bernarda.

 

- Luiz Silva

Roterdão e Paris, Junho de 2013

 

 

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4 comentários

De Valdemar Pereira a 29.06.2013 às 16:34



Uma vez mais nos aparece o Luiz Silva que, sendo o melhor entre nós na matéria, soube falar de um tema candente - injustamente - na nossa terra na medida em que os da Diáspora são vistos como diabinhos quando podiam ser uns activos querubins.
A homenagem a esse emigrante que foi Djosa de Bernarda, que podia ser de Monte Sossego ou de Ribeira Bote, é mais que justa pois foi um exemplo estimado pelos seus pares e desconhecido (como não podia deixar de ser) por quem devia na terra onde nasceu e para onde ia amiúde dar a ajuda material e moral, facto que não foi elemento isolado (Sorry, Djosa) porque muitos a fizeram antes, tantos fazem e muitos mais esperam para fazer no dia em que a Diáspora for reconhecida no seu justo valor.
Um Obrigado ao Amigo Luiz por este comentário, outro Obrigado ao blog do nosso Movimento (http://movimentoparaaregionalizaoeautonomias.blogspot.pt/ (http://movimentoparaaregionalizaoeautonomias.blogspot.pt/))
E, como não há dois sem três, Obrigado ao "nosso irmão" Joaquim Saial ou Djack de Capitania que no seu blog  (http://mindelosempre.blogspot.spot/fr) insere (http://mindelosempre.blogspot.spot/fr) insere) um artigo muito interessante também sobre a nossa Diáspora.
Bem Hajam Todos.
 
 

De JOsé F Lopes a 30.06.2013 às 11:18

  Luiz  Silva é um incansável lutador para o reconhecimento da Diáspora como pate integrante de Cabo Verde. Ninguém mais do que ele sofre as discriminações ou uma apatia em relação a esta parte integrante de Cabo Verde que tem contribuído com o seu trabalho e as suas remessas ao desenvolvimento de Cabo Verde. Esta homenagem ao Djosa de Bernarda é justa e cai num momento em que a vozes em defesa dos interesses da Diáspora têm que ser entendidas no grande debate sobre a Regionalização uma vez que as Diásporas constituem por si Ilhas de cabo Verde espalhadas pelo Mundo.

De Valdemar Pereira a 29.06.2013 às 16:40



P.S. - Caro Luiz:
Quando falares de Chã de Cemitério procura contar tudo. Além do estrado de cricket e dos dois cemitérios citados, houve o Cemitério Americano ao lado do moinho dos Rato e por traz dos cemitérios apareu, numa determinada altura, os salteadosres que, de madrugada, atacavam os vendedeiras que iam buscar o pão na Fabrica Favorita, lançando o seu grito de guerra "OpicOpom !!!"
Merci, quand même.

De Adriano Miranda Lima a 30.06.2013 às 15:47


Para mim foi um regalo a leitura desta narrativa do Luiz sobre a nossa diáspora, desta feita focalizada na pessoa de Djosa Bernarda. Mas fosse este ou outro viajante pelos mares da nossa aventura, a essência que aflora à superfície das coisas é sempre a mesma – a humanidade do homem cabo-verdiano, uma humanidade a um tempo peculiar e intensa, própria de quem é capaz de produzir um perfeito enlaçamento entre a solidariedade, a ternura e o amor eterno ao torrão em que nasceu. Tal é a eficácia e o primor da narrativa que eu me senti marinheiro autêntico no mesmo barco ou itinerante incansável nas mesmas "terras-longe" onde a nossa gente escreveu páginas totais,sinceras e emotivas, das suas vidas pessoais. Talvez isso seja uma vocação natural do cabo-verdiano porque ao fim e ao cabo é semelhante o hífen que nos prende às circunstâncias e talha a dimensão de todos os nossos desafios pelos espaços da vida.
Tenho de confessar que não tive oportunidade de conhecer Djosa de Bernarda nem antes nem depois da sua diáspora pessoal. Mas é como se sempre o tivesse tido como meu irmão inteiro, porque na verdade todos trazemos na génese um pré-conhecimento que nos faz companheiros do mesmo destino, donos da mesma bússola. Djosa não foi inumado na sua terra, mas é como se tivesse sido, porque o cabo-verdiano acaba por tornar seu o chão de todos os lugares do mundo para onde o acaso o leva. O amor ao torrão natal é o mesmo que o projecta e liga ao mundo, eis um curioso paradoxo.
Luiz, agradeço-te esta viagem que me proporcionaste no tempo e no espaço, porque o fizeste com verdade e sentimento.

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