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PRIMEIRA PARTE

 

 

 

MOCIDADE DE JOSÉ PEDRO

 

_____

 

 

 

Devaneios que Podem Servir de Prólogo

 

 

Bastantes romances, contos, lendas, etc., tenho lido, e entre tantos escritos nenhum ainda encontrei que me falasse do ignorado cantinho da terra onde tive a dita de ver o mundo, a não serem uns melancólicos versos de Hipólito Garcez publicados num excelente jornalinho do erário, e que começava assim, se bem me lembro:

 

 

  

A Ilha Brava

  

Quando o sol brilha ardente 

Sobre o cume deste monte, 

E no oceano resplandecente 

Reflectir vai a alta frente, 

Eu afino a minha lira 

Com a brisa que suspira

Agitando a tenra dor.

 

E este mar que aos pés diviso 

Eu encaro c'um sorriso 

Sem temor o sem furor.

Ruja embora, em terra embata 

Nos rochedos — imprudentes!

Que me importa se ele acata 

Estes montes imponentes!

 

 

 

E é tão doce ouvirmos da nossa pátria quando nos achamos exilados em terra estranha!...

 

É pois levado das saudosas reminiscências da terra natal, duma lembrança dos meus primeiros anos, que impressa trago na imaginação, que pela primeira vez em obras desta natureza, pego na pena, para procurar verter para o papel ideias que tanta impressão produzem em minha alma.

 

 

A Aldeia

 

 

Pé-da-Rocha é uma pequena povoação situada no interior da ilha Brava de Cabo Verde, e os naturais a denominam assim, por se achar edificada nas faldas de rochas enormes, donde de tempos a tempos se precipitam pedras duma grandeza considerável, a cujo estrondo os supersticiosos moradores saem de suas frágeis casinhas invocando o sagrado auxílio, pois supõem ser aquilo obra do demónio.

 

Nesta aldeia, cujos arredores são fertilíssimos, bem como quase toda a ilha, existiu a modesta casa de meus avós, e nela se passaram a maior parte das cenas que constituem este outro drama de Paulo e Virgínia, dramas somente semelhantes nas personagens e no cenário.

 

As casas de Pé-da-Rocha são quase todas construídas, disseminadas, e cobertas com folhas e troncos de bananeiras, perfeitas cabanas, ou funcos, como se dizia na ilha.

 

 

A Casa de Nhô José Pedro

 

 

Porém destacando-se dentre estas pobres habitações, quais brilhantes estrelas em negro céu, viam-se umas três casas de boa aparência. Dessas sobressaía uma, que se fazia notar pela alvura de suas paredes, seu telhado, e um formoso quintalinho, onde se viam viçosos canteiros de hortaliça, plantas de abóboras, de diversas castas de batatas vulgarmente chamada doce entre os portugueses, mas que os naturais dão diversos nomes, como da terra, canéca, remixo, inglês[1].

 

Ao longo de suas paredes estavam plantadas roseiras e baunilhas em flor e outras várias plantas trepadeiras. Uma frondosa goiabeira assombreava com sua verdejante copa uma das duas janelas que davam para o quintal.

 

 

Se perguntásseis a qualquer dos moradores de Pé-da-Rocha — a quem pertencia aquela encantadora vivenda, responder-vos-ia logo:

 

 

– É de Nhô José Pedro.

 

 

Porque José Pedro, o nosso herói, era pela sua bondade e honradez, conhecido e estimado de todos, e abençoado dos pobres.

 

 

Os Dois Marinheiros

 

Em 1827 vivia estabelecido em Santa Ana, a povoação principal da ilha Brava, um rico brasileiro, por nome António Pedro, o qual tendo começado por ser simples praticante de pilotagem num navio mercante, chegou a enriquecer no comércio, não de pau de ébano (escravatura), mas no tráfico honrado dos produtos da terra.

 

 

Chegou a possuir dois navios excelentes, podia possuir muitos mais. De um deles, a bela Carolina, era ele próprio o capitão. O outro, lindo brigue veleiro, foi baptizado com o nome suave de Esperança, e era comandado por João Gay, paraguaio robusto, e companheiro de fortuna do brasileiro, ambos órfãos desde a infância.

  

 

António Pedro fora educado sob a tutela de um tio, que o tratou como a filho.

 

João Gay, filho de marinheiro, nasceram-lhe os dentes sobre as águas do mar, por assim dizer.

 

Frequentaram juntos os estudos num colégio do Rio de Janeiro, depois a sua vocação os levou a seguir a mesma carreira — a do marinheiro.

 

....................................

 

 

 

Era uma noite medonha de horrorosa tempestade, dois navios abalroaram no alto mar, como se não bastasse o furor dos elementos para os submergir. E no meio dos gritos de angústia, de desesperação e terror das duas equipagens, a montanha de água que em torno das duas embarcações se formara pelo seu choque, desabou sobre elas com horrível fracasso, sepultando tudo, navios e homens, gritos e blasfémias, orações e gemidos no abismo insondável.

  

 

Os Náufragos

 

 

Mas o mar não concluíra a sua obra de destruição. 

 

 

Dois corações generosos ainda palpitavam anelantes, dois peitos robustos arqueavam lutando contra a morte, trazida sobre cada vagalhão, sobre cada destroços dos navios afundados que o mar furioso arremessava por sobre as suas cabeças com o ímpeto de uma catapulta.

 

 

Súbito o mar, como um gigante cansado da luta a faz cessar momentaneamente, para depois, adquiridas novas forças, o mar cessou por momentos o seu furioso embate.

 

 

Os infelizes náufragos, que já se achavam exaustos de forças, e quase asfixiados, puderam enfim, ainda que por breve espaço, respirar.

  

 

Neste momento, uma fita de fogo rasgou lado a lado o horizonte sombrio, e serpenteando lá ao longe, o raio veio sumir-se no oceano.

  

 

À luz momentânea e sinistra do relâmpago, os dois homens viram-se, reconheceram-se.

 

 

 – António Pedro!

 

 

– João Gay!

  

 

Enfurecia-se outra vez o mar, o gigante reentrava na luta.

 

 

Os dois náufragos, reanimados por este breve, mas oportuno descanso puderam melhor sustentar-se ao de cima das águas revoltas. E, ora descendo ao fundo do abismo, ora vindo à superfície e sendo o sendo o joguete das ondas sempre animando-se com palavras e gestos de coragem, assim passaram os dois robustos marinheiros a quarta parte daquela desgraçada noite.

 

 

Porém esta segunda luta dos elementos foi como a cólera humana: tanto mais terrível quanto mais breve.

 

 

Os primeiros arrebóis da aurora, franjando de um vivo escarlate as extremidades do horizonte, dilataram-se pelo céu de branca transparência, e se espreitaram num mar de tão tranquila imobilidade, que mais parecia um grande lago.

  

 

No ponto em que o céu, descrevendo uma semi-curva, parece unir-se ao mar, aparecia, destacando da superfície aquática, um ponto branco, semelhante a um grande alcatraz com as asas abertas. Porém a vista perspicaz dum marinheiro reconheceria neste ponto branco as velas duma embarcação de grande lote.

 

 

 Assim o pensaram António Pedro e João Gay, porque logo, adquirindo vigor novo com a certeza do salvamento, se dirigiram para aquele ponto à força de braços.

 

 

A meia milha de distância foram vistos do navio, que arriou um escaler ao mar.

 

 

....................................

  

 

Desde então, os dois irmãos pelo infortúnio, jamais se separaram; a sua sorte foi sempre comum.

 

(Continua)

 

________________ 

 

[1] Coisas de meus patrícios! Como aqueles senhores não têm gramática, dizem na sua algarviada: um baca, dois baca por uma vaca, duas vacas; e assim dizem batata inglês por inglesa. Esta é a batata comum de Portugal, e sendo aí muito rara, só em acesso na mesa dos ricos.

  

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1 comentário

De Anonimo a 16.03.2010 às 01:53

Continua a escrever historias da Brava. Pe-da-Rocha tambem e minha. Que saudade...Obrigada, aguardo o desfecho da aventura de Nho Jose Pedro.

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    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

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