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Pirinha-das-ilha para os finalistas

Brito-Semedo, 14 Jul 13

 

Liceu Velho.jpeg

Edifício do Liceu Velho, pertença da Uni-CV

 

 

Estudantes Finalistas do Curso de Licenciatura em Ciências de Educação,

 

O momento é de festa e o acto, carregado de simbolismo. Enquanto mnine de SonCent e trofél [traquinas], trago no bolso das minhas “calças-de-pé-curto”, pirinha-das-ilha [rebuçado artesanal] do Nhô César do Monte, compradas a meio tostão cada, para oferecer a cada um de vós, finalistas, neste vosso dia especial de festa d’ bol ma vin de gente grande.

 

Vamos lá a ver se as encontro neste meu bolso sem fundo e no meio destas minhas tralhas todas – botões, pratins e bolinhas de vidro para jogar berlinde, tiras de borracha para fazer forquilha, cordel para apanhar pardal, giz para desenhar no passeio, fio de nylon para pescar e outras coisas mais.

 

Enquanto isso, deixem-me contar-vos como eram as festas de finalistas do meu tempo, que é como quem diz, de diazá.

 

Confesso que até hoje tenho muita mágoa e uma certa frustração por nunca ter tido uma festa d’ bol ma vin – na verdade era festa onde se servia bolos secos e cake, refresco e uma espécie de sangria! – sobretudo o do fim do exame do segundo grau (4.ª classe). Outra mágoa minha é a de não ter tido a festa do fim do 2.º ano dos liceus nem a Festa de Finalista do Secundário (o 7.º ano)!

 

Tenho como referência as festas d’ bol ma vin de alguns amigos meus mais velhos, pois acompanhei-os nelas vezes sem conta, sempre almejando o meu dia.

 

Meninos de Escola.jpeg

Festa d’ bol ma vin, Foto Margarida Santos, Julho.2013

 

Recordo a balbúrdia e a gritaria da meninada no mês de Julho e lembro-me das frases que iam dizendo em voz alta enquanto corriam pelos diferentes bairros, de uma casa para a outra (não podiam fazer desfeita a nenhum colega!), para tomar às pressas o “bol ma vin”: – Viva sê Pai! (Viva!) Viva sê Mãi! (Viva!) Viva Prof’sóra! (Viva!) Viva nôs tud! (Viva!).

 

Chegados às casas dos aprovados, normalmente estafados e com a língua de fora, sobretudo as dos que viviam nos subúrbios mais afastados, os vivas e as frases mudavam de ênfase: – Mãizinha dzê,/ ahoje e qu’ê qu’el dia./ Se bô fcá raposa,/ alí bô ca t’entrá./ Porr lí, porr lá,/ 4.ª classe ca ê de brincadera!

 

Antes dos exames do primeiro e do segundo grau, havia os chamados “exames de passagem” (1.ª e 2.ª classes), sem direito a qualquer comemoração pública. Esses, fi-los na Morada, na “Escola de Rei”, a Escola Camões, e só foram importantes para as pessoas da minha casa. Os outros exames seriam diferentes, especialmente se eu saísse “Distinto” na prova da 4.ª classe! Assim, aguardava o meu dia com muita ansiedade.

 

Os meus estudos primários da 3.ª e 4.ª classes, por razões que agora não vêm ao caso, foram feitos na Praia, na velha Escola Grande, hoje pertença da Uni-CV. Apesar de ter sido um aluno sempre aplicado, não tive a ansiada festa d’ bol ma vin, simplesmente porque não era tradição em Santiago!

 

Em 1969, no ano da inauguração deste lugar onde nos encontramos, o Hotel Porto Grande, retomei os estudos e, em um ano, fiz o 2.º ano do Ciclo Preparatório, desta vez em S. Vicente. Contudo, voltei a não ter uma festa d’ bol ma vin porque estava “quebród c’nem Djósa de Maderal”. Tinha gasto o dobro do meu magro salário no processo burocrático da emancipação e a inscrever-me ao exame como trabalhador-estudante!

 

Curiosamente, os meus exames do fim do secundário seriam também feitos na Praia no Liceu Domingos Ramos, como aluno externo e sendo eu já adulto, razão porque também não houve festa. Posteriormente, quando Director desse mesmo liceu (1988/1989), os finalistas desse ano, depois da imposição das suas fitas, chamaram-me ao palco e colocaram-me também uma, azul, da cor da dos alunos de letras! Comovi-me, pois o gesto soube-me à minha festa d’ bol ma vin atrasada.

 

Satisfação idêntica só voltaria a ter muitos anos depois, em 2005, na minha última festa d’ bol ma vin, a cerimónia de imposição das insígnias de Doutor em Antropologia pelo Reitor da Universidade Nova de Lisboa!

 

– Bom pa filme, néra?!

 

Volto ao presente pois já encontrei as pirinhas-das-ilha em três sabores – limão, hortelã-pimenta e morango – que trago aqui no bolso para vos oferecer.

 

Finalistas do Curso de Licenciatura em Ciências de Educação, DCH-SV, 2013

 

Uma das minhas pirinha-das-ilhas tem o sabor ácido do limão, de um tempo que foi de privação e, muitas vezes, de algum sacrifício.

 

O meu reconhecimento vai também para os pais, eventualmente gente desse meu tempo de diazá, que almejaram estudar mais, mas as condições da época e da vida não o permitiram, e que se sacrificaram para mandar os seus filhos para a escola e financiar os seus estudos até à Universidade.

 

Outra destas pirinha-das-ilha tem o gosto fresco da hortelã-pimenta, do momento presente de satisfação e de vitória.

 

Uma outra pirinha-das-ilha tem o sabor doce e estimulante do morango, de confiança no futuro.

 

Felicito os finalistas do Curso de Licenciatura em Ciências de Educação do Departamento das Ciências Sociais e Humanas-S. Vicente (DCSH) desejando a todos uma boa inserção no mercado de trabalho e evolução na carreira, para o caso daqueles que já trabalham. Sucessos e muitas felicidades a todos!

 

 

Viva quê-l bol! (Viva!) Viva quê-l vin! (Viva!)

Viva sê Pai! (Viva!) Viva sê Mãi! (Viva!)

Viva Menina Isidora! (Viva!) Viva Menina Elisa! (Viva!)

Viva Uni-CV! (Viva!) Viva nôs tud! (Viva!)!

 

Manuel Brito-Semedo

 

Mindelo, 13 de Julho de 2013

 

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