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Adeche! Vendilhões em Vários Templos

Brito-Semedo, 22 Jul 13

1. A escolha de um título de uma obra nunca é inocente e procura-se que seja a sua identidade, na sua expressão mais reduzida. Ele é algo sério, ponderado, propositado e que se quer significativo. E um título no nosso crioulo genuíno de SonCent chama a atenção, predispõe qualquer um, provoca curiosidade e causa alguma empatia. O Dr. Arsénio Fermino de Pina, que é um marinheiro de muitas viagens, que é como quem diz, autor de vários livros, sabe disso e é hábil nas suas escolhas de títulos. São disso exemplo, Uli-me li! (1999), Fi d’ cadon! (1999), Passadores de Pau (2009), Quel Canapê de Três Pê (2010), Ês ca ta cdi! (2011).

 

O título escolhido para esta mais recente colectânea é, na verdade, a combinação de títulos de duas de suas crónicas, Adeche![1] – escrita entre 2010 e 2012, ao se ter conhecimento da criação e próxima aprovação do Estatuto Especial para a Praia (pág. 19-43) – e Vendilhões em Vários Templos – escrita em 2011, na qual o autor fala sem papas na língua pela boca do Frei Capuchinho Fernando Ventura, reportando-se e fazendo paralelo com um acontecimento narrado no Evangelho de São Mateus, capítulo 21, versículos 12 a 16, sobre o episódio da purificação do Tempo ou de quando Jesus expulsa os vendilhões do Templo (pág. 87-96).

 

Detenho-me nesta crónica pelo paralelismo estabelecido e por ser, segundo o seu autor, uma “imagem que nos anima, nos tempos que correm”.

 

A verdade é que o mundo do primeiro século não era diferente do actual: havia homens ricos e pobres, virtuosos e criminosos, livres e escravos.

 

Legenda (esq. para dir.): Brito-Semedo (apresentador), Arsénio de Pina (autor) e António Pedro Silva (apresentador). Foto Marco Silva 

 

O templo em Jerusalém constituía-se em um lugar de peregrinação para todos aqueles que confessavam o judaísmo como sua religião. Era um lugar visitado por pessoas e comunidades de todas as nações. O templo (que já era o segundo) possuía quatro pátios. O primeiro era o pátio dos gentios, o qual era ocupado pelos mercadores que realizavam trocas (câmbio) de dinheiro e vendiam os animais.

 

Os frequentadores do templo juntamente com os seus líderes religiosos haviam transformado o templo em "casa de comércio" e em "casa de privilégios” e a crença, uma “religião de conveniência”.

 

Historiadores afirmam que os movimentos comerciais relacionados ao templo eram monopolizados pelas famílias dos próprios sacerdotes, Anás e Caifás, os quais recebiam lucros provenientes da venda de animais para o sacrifício e também do câmbio de dinheiro envolvido nos tributos do templo. Como se não bastasse, existia uma disputa cerrada pelo poder, a exemplo dos fariseus e saduceus que eram partidos políticos rivais. É, pois, diante desse cenário que Jesus se indigna e expulsa do templo comerciantes e cambistas dizendo: “A minha casa será chamada casa de oração”.

 

Com esta composição de título Adeche! e Vendilhões em Vários Templos – está dado o mote e o tom e definidas as linhas com que o autor vai coser as suas crónicas. E, diga-se, não dá ponto sem nó, porque há uma de tomada de posição e o exercício de uma cidadania activa procurando “influenciar pessoas, bulir com elas, espicaçá-las, mas apenas para as ajudar a pensar por si próprias e a agir” (pág. 10)!

 

2. Produzidos com uma finalidade utilitária e pré-determinada, essencialmente para serem veiculados na imprensa, seja nas páginas de uma revista seja nas páginas de um jornal, estes textos têm uma estrutura de crónica. E o facto de a crónica ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois, à crónica de “hoje”, seguem-se muitas outras nas edições seguintes.

 

Abro parênteses para lembrar que existem semelhanças entre a crónica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista inspira-se nos acontecimentos diários, que constituem a base do seu texto. Entretanto, há elementos que distinguem um tipo do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode dizer-se que a crónica se situa entre o Jornalismo e a Literatura e o cronista pode ser considerado o “poeta dos acontecimentos” do dia-a-dia.

 

A crónica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado na primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está em diálogo com o leitor. Isso faz com que a crónica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. Ao desenvolver o seu estilo e ao seleccionar as palavras que utiliza no seu texto, o cronista está a transmitir ao leitor a sua visão do mundo. Ele está, na verdade, a expor a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Geralmente, as crónicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária, o que contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba por se tornar no porta-voz daquele que lê.

 

 

Legenda (esq. para dir.): Brito-Semedo (apresentador), Arsénio de Pina (autor) e António Pedro Silva (apresentador). Foto Marco Silva

 

3. Este trabalho que o Dr. Arsénio Fermino de Pina ora dá à estampa, compreende um conjunto de 50 textos, produzidos de forma sistemática entre 2011 e 2012, publicados com intervalos regulares nos jornais da praça, em suporte de papel e on-line. Tal tipo de periodicidade e de suporte faz com que os textos produzidos sejam consumidos no imediato ou num tempo limitado, sendo, por isso, com uma duração e uma actualidade efémera. São, contudo, um testemunho vivo sobre a actualidade de um momento ou de uma época, quando vistos de uma forma sincrónica e dinâmica, já que datados. Daí que, recuperá-los e guardá-lo em formato de livro é um trabalho meritoso em todos os sentidos.

 

Grosso modo, pode-se considerar que estas crónicas estão organizadas em três grandes tópicos: (i) leituras de livros de publicação mais ou menos recente, (ii) entrevistas de personalidades insuspeitas em matéria política, económica e financeira, que a comunicação social raramente aborda, e, ia dizer sobretudo, (iii) a proposta do Movimento para a Descentralização, Regionalização e Autonomia de Cabo Verde.

 

Adeche! Vendilhões em Vários Templos, pelos temas abordados e pela forma frontal como as posições são assumidas, é um livro para ser lido com calma, aos bochechos, com a vantagem de estar escrito num português escorreito e algum sabor regional, que lhe dá um certo tempero, mesmo ao nosso paladar.

 

Adeche, vocês esperavam que eu viesse cá analisar os textos? Bocês ta fcá que vuta[2]! Façam o favor de fazer a vossa leitura pessoal. Esta foi a minha.

 

- Manuel Brito-Semedo

Mindelo, 19 de Julho de 2013

 


[1] Exclamação tipicamente mindelense, de pasmo e espanto.

[2] Expressão de São Vicente que significa “vocês ficam com vontade”.

 

 

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