Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

 

MOCIDADE DE JOSÉ PEDRO

 

(Continuação)

 

Os Pais de José Pedro

 

António Pedro, numa das viagens que fizera a ilha Brava, possuíra-se de grande amor por uma linda crioula cujo pai era português, e não teve escrúpulo em ceder a mão de sua filha ao honrado moço brasileiro, que lha solicitou com o mais apaixonado ardor.

 

Liquidando os muitos bens que possuía no Brasil, viera estabelecer-se na já menciona povoação de Santa Ana, onde desfrutava com sua jovem e encantadora esposa D. Júlia de Lima, aquela felicidade que encontra uma família virtuosa retirada do bulício do mundo.

 

Deus santificara a sua união, dando-lhes nove meses depois, um filho varão, a quem na pia baptismal puseram o nome de José.

 

Eis pois nascido o nosso herói!

 

Este fausto sucesso veio aumentar, se era possível, a felicidade de que gozavam os ditosos cônjuges.

 

O balbuciar do infante era para seus pais como o hino que Deus houvesse mandado à terra para celebrar a sua felicidade.

 

Depois chegou a idade em que era preciso que o espírito, muito mais necessitado e exigente, compartilhasse os cuidados do corpo.

 

Tinha José Pedro seis anos de idade, quando se matriculou na escola pública da terra, cuja direcção estava confiada a um hábil professor português.

 

Uma Carta do Brasil

 

Decorreram seis anos, durante os quais fora igualmente tranquila e feliz a existência da família de António Pedro.

 

Seu filho fazia rápidos progressos na escola onde tinha o lugar de primeiro aluno.

 

Porém o céu que nem sempre está sereno, começou a toldar-se para o adolescente de negras nuvens.

 

Um dia pela manhã, estando o brasileiro sentado à mesa com sua família e João Gay, entrou um escravo trazendo uma carta na mão.

 

– Sinhô... um carta! disse o negro entregando-a e retirando-se.

 

– A carta parece de meu tio, disse o brasileiro comovido. Há dois meses que me não escreve!

 

– Com efeito, observou João Gay reparando ao sobrescrito, traz o carimbo do correio do Rio.

 

António Pedro apressou-se a abri-la. Passando-a rapidamente pela vista, tornou-se pálido. Depois entregou-a com mão trémula ao seu amigo, ficando como aniquilado.

 

Meu querido filho

 

Há dois meses que terrível enfermidade me aconteceu. Os médicos não me ocultam o estado sem esperança. Reunindo as poucas forças que restam, mal posso pegar na pena para te dizer: vem, filho; vem depressa, para que eu morra contente abraçando-te e te abençoe antes de morrer.

 

Teu tio que te ama como pai

 

Florêncio de Sousa

 

As lágrimas corriam de todos os olhos, o desfalecimento tinha-se apossado de todos os espíritos.

 

– Meus Deus! Dizia D. Júlia com voz entrecortada de soluços, será preciso que nos separemos?

 

–  Assim é preciso, disse o brasileiro enxugando o pranto. Seria uma negra ingratidão da minha parte não dar àquele homem a derradeira, a única satisfação que ele pode ter neste mundo, a de abraçar aquele que ele sempre considerou e tratou como filho.

 

– Pois faça-se a vontade de Deus, meu amigo! e que ele em breve te restitua a meus braços...

 

Não pôde concluir. Fora tão violenta a comoção, que a infeliz, dilacerado o seu coração terno de esposa e de mãe, caiu meio desmaiada nos braços de seu marido, confundindo as suas lágrimas com as dele.

 

Separação

 

Alguns dias depois desta triste cena, desferindo as brancas velas ao vento, saía majestosamente a estreita barra da Furna a elegante Carolina, levando a seu bordo António de Pedro Sousa, seu proprietário.

 

Via-se a praia coalhada de povo, principalmente de pobres que debulhados em lágrimas se vinham despedir de seu benfeitor, de seu pai; e com o coração opresso de tristes pressentimentos o viam afastar-se para longe.

 

No alto da montanha que domina a praia alguns lenços se agitavam, e a estes sinais de última despedida respondia de bordo da Carolina um homem que de pé, à popa, por vezes molhado de abundantes lágrimas o lenço que agitavam. Este homem era o pai de José Pedro. As pessoas que da rocha lhe acenavam, eram sua desolada esposa, seu filho e João Gay, e várias outras pessoas da sua intimidade.

 

Oh! não pode compreender a dor imensa que então oprimia os corações daqueles que se separavam, quem ainda não experimentou a indefinível tristeza, o desalento, os prantos, o martírio da separação!

 

Já provei deste cálice de amargura, eu! Quando me separei de minha pobre mãe para vir aqui em terra longínqua, buscar o pão do espírito, os meus poucos anos não me permitiam avaliar a grandeza da minha quase desgraça: — mas chorei!

 

No Mar

 

Tinham decorrido quatro dias. A veleira Carolina, com vento em popa, deixara atrás todas as ilhas do arquipélago de cabo-verdiano, e agora, com as velas docemente enfunadas, reclinada graciosamente sobre o azul das ondas prateadas de brancas espumas que o seu talha-mar cortando o oceano deixava atrás de si de um lado e de outro, navegava no mar imenso, sob o céu infinito.

 

Era na noite do quarto dia. Parte dos tripulantes da Carolina repousa nas macas, outra parte da equipagem velava; uns, sentados à proa, falavam sobre a terra natal e os entes queridos que lá deixavam; outros, encostados às amuradas, entoavam canções monótonas de marinheiros.

 

Num elegante camarim, sentado a uma pequena mesa em que se viam algumas iguarias intactas, estava o pai de José Pedro.

 

Com os cotovelos apoiados na banca, a cara entre as mãos, o brasileiro parecia engolfado em sombrios pensamentos. De vez em quando, duas lágrimas grossas como punhos lhe rolavam silenciosamente pelo rosto belo e nobre.

 

Saudades da esposa amada, do filho estremecido, do lar tranquilo e feliz!

 

– Olá, Rodolfo! disse súbito o brasileiro.

 

– Pronto, capitão! respondeu na câmara imediata uma voz de criança, bocejando.

 

– Já estavas dormindo, maroto? Tornou o brasileiro.

 

– Já passam das 10 horas! Murmurou o rapazinho.

 

E, todo de sono, entrou no camarim, foi abrir um armariozinho colocado em frente do lugar onde se achava sentado o esposa de D. Júlia, dele tirou um pequeno frasco e um copinho que encheu de cristalina água, e cabeceando veio depor tudo em cima da mesa; depois, foi buscar uma colherzinha de prata que quase mergulhou no copo, e começou a deitar-lhe do líquido contido no frasquinho.

 

– Avias-te daí?! disse António Pedro, o qual tinha recaído nas suas tristes meditações.

 

A voz severa do seu chefe fez despertar de todo o rapazinho. Tirou a colher de fora de água, tornou a encher, e vazou o conteúdo no copo, que em seguida apresentou ao brasileiro.

 

– Está bom! disse este, podes-te ir deitar.

 

O juvenil pajem não esperou segunda ordem e dando as boas noites ao capitão, fechou sobre si a porta do camarim.

(Continua)

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

4 comentários

De Anónimo a 16.03.2010 às 13:08

Porque nao puseste logo a terceira parte?... Vou ter de esperar ate amanha?

De Brito-Semedo a 16.03.2010 às 13:17

Sorry, Li o seu comentário e apreciei o seu interesse, ó amigo Bravense, mesmo no dia que estabeleci para a actualização do blog. Contudo, há um determinado tamanho de texto que o blog aceita. Esta é uma das razões. Mas se nos lembrarmos que, na época, a prática da publicação de tais textos nos jornais era em forma de folhetim!... Aguarde com paciência que será recompensado! Prometo. Donde vem isto há muito mais! Um abraço!

De Eliezer Brito-Semedo a 16.03.2010 às 20:03

Pai,

Queria aproveitar para comentar sobre o teu blog. O visual está bastante atraente e original. O conteúdo é também de grande qualidade.

Falas de assuntos na tua área, direccionado a um público específico (não alcançado pelos outros blogs) e de uma forma cativante e acadêmica. Votos de sucessos nesta aventura cybernaútica.

Beijos nossos,
Ely e Any

De Brito-Semedo a 16.03.2010 às 20:16

Meus Queridos, Eu sei que o que foi aqui escrito procura ser, mais que um elogio de filhos, uma avaliação objectiva, o que muito me honra, pelo que agradeço. É caso para se dizer "tal filho tal pai" ou será "tal pai, tal filho"?! Reconhecido, Pai

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

  • Livia Ramos Silva

    Meu tio irmao do meu pai tio Dino de monte. Saudad...

Powered by