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Silêncio…

Brito-Semedo, 28 Jul 13

Demolição da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, Foto jornal A Semana

 

A preservação da Casa Adriana é um assunto muito polémico que dividiu a sociedade mindelense, mobilizou muitas opiniões e despoletou um grande movimento cívico. Muita tinta correu.


Culminou com a demolição do edifício que foi um choque para grande parte dos mindelenses ficando esta cidade amputada de mais um belo exemplar de arquitectura colonial do sec. XX.

 

Este poema, ao mesmo tempo que foi inspirado no acto bárbaro da demolição deste símbolo da cidade do Mindelo é também a minha última homenagem à casa Adriana, à sua memória e aos seus sucessivos ocupantes.

 

Demolição da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, Foto jornal A Semana

 

Silêncio….


O dia  emerge um pouco turvado,
Nuvens opacas planam no céu.
Na solidão da paisagem sorrio,
E contemplo a cidade,
Que na sua memória me acolheu.

 

O Monte Cara o sorriso me devolve,
A Baía do Porto Grande um adeus me acena,
Num gesto envolvente de carinho e ternura.

 

Pensativo medito no meu destino,
Que opiniões dividiu,
Raiva e ciúmes causou,
E a discórdia semeou.

 

Silêncio…

 

Ruídos metálicos invadem o ar.
Agitação nunca vista, por estas bandas chegou,
Uma amálgama de cores amarelo e laranja no horizonte se divisa:
Catterpilars.

 

Endireito-me, questionando este cenário,
O Monte Cara e o Porto Grande fitando,
Numa troca silenciosa de olhares
E inquieto me quedo.

 

Mas, pela colina acima a traição espreitava.
Cumprindo a sentença iníqua,
Pela ignorância ditada.

 

Como que por magia cercado me vi.
A máquina guinchou e num gesto certeiro
Um golpe me lançou.

 

Ferido de morte por terra tombei.
Com o  olhar turvado à dor resisti.
Prostrado, envolto no vendaval das poeiras,
Um rio de sangue me inundou.

 

Silêncio…

 

Parem com isso… !!!
Em vão me defendem,
Gritam, lamentam e mil razões apresentam…
Tréguas… ?

Sangro, sofro, aguardo.

 

O ruído de disputas ao longe,
Como que tambores perdidos na fumaça do tempo,
Nos meus ouvidos ecoam, num pesadelo infindável.

 

Tinta, tinta, muita tinta corre.
Esta tinta… meu sangue, minha dor.
Eu, moribundo, insultado, ultrajado.


Silêncio…

 

O massacre recomeça.
Violenta, raivosa, estrondosa, a golpes pesados.
O som dos vitrais estilhaçados,
O ribombar da queda dos muros,
A tempestade das telhas voando,
Balaustradas engalfinhadas com a terra escorrendo.


E lá longe,
Regozijam, argumentam, justificam, negam,   
Clamam, enganam….
Riem-se. Um riso que estilhaça e me penetra.
Mas o cenário sangrento permanece
A marca do triunfo vergonhoso,
Da loucura  instalada.

 

Silêncio…

 

Tento erguer,
Caio por terra,
Com a  visão enevoada, mas consigo distinguir,
Lá longe, lá longe … um sussurro no túnel do tempo:
Seló … terra morena…
E a chama  oscila e desfaz-se,
É o meu último suspiro.

 

- Fátima Ramos Lopes

 

Aveiro, 21. Setembro.2010

 

 

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1 comentário

De Valdemar Pereira a 29.07.2013 às 14:11



Obrigado, Fátima.
O teu poema é um grito dor profunda depois da constatação de decisões indignas de poderosos que, no poleiro doirado onde se encontram, sentenciam  repetidamente  porque querem, podem e mandam.
Há que ter em conta que a indignação de um povo alienado pode transformar em ideologia um activismo confuso.
Que Deus nos acompanhe

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