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O Liceu Velho de São Vicente

Brito-Semedo, 5 Ago 13

 

Liceu Velho.jpeg

Edifício do Antigo Liceu Gil Eanes, o Liceu Velho

 

O projecto de reabilitar e requalificar o edifício que em tempos idos albergou o Liceu Gil Eanes e, mais tarde, a Escola Preparatória Jorge Barbosa, está parado por causa de verba, mas também porque a Delegação do Ministério da Educação ainda não desocupou boa parte dos blocos mais antigos. Enquanto isto a Universidade de Cabo Verde, a quem o Estado de Cabo Verde doou a infra-estrutura a título definitivo, tenta mobilizar parceiros para restaurar esse património que cai aos pedaços.
 

A reabilitação da fachada e blocos do emblemático edifício, por onde já passaram personalidades de várias gerações, desde Amílcar Cabral a quadros que construíram o Estado de Cabo Verde, está orçado em 40 mil contos. A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) chegou a assinar com a empresa do arquitecto David Leite um contrato para iniciar a obra, mas, como só se conseguiu mobilizar cerca de seis mil contos, optou-se por recuperar algumas salas e outras partes do interior do edifício pois o dinheiro não dava para mais nada.
 
Por outro lado, garante o vice-reitor da Uni-CV, Manuel Brito-Semedo, a reabilitação do edifício só pode avançar quando a delegação do Ministério da Educação e Desporto (MED) em São Vicente desocupar o espaço. Na verdade, quase todos os serviços do MED estão ali instalados e arrancar com qualquer obra nessa altura poderia desembocar em graves constrangimentos às coordenações dos diferentes substratos do ensino primário e secundário.

 

Liceu Velho.jpeg

Liceu Velho, Des. M_EIA


Ciente desse problema, o MED espera concluir este ano lectivo, para depois fazer a mudança e entregar o edifício ao novo dono. “Estamos a ver a possibilidade de deixar o edifício antes do início do próximo ano lectivo”, informa o delegado do MED em São Vicente, Anildo Monteiro, para quem esse é assunto que está a ser tratado entre o seu ministério e do Ensino Superior.

Enquanto não há dinheiro e o MED por lá se mantém, esta emblemática casa do Mindelo mostra-se de cara descascada, o telhado cai aos pedaços e as fissuras fazem-se presentes. Não faltam pessoas que defendem uma manhã mais risonha para aquele marco da história e cultura cabo-verdianas, mas pouco se tem feito para “refundar” aquele que foi um dos centros de educação e cultura por excelência de Cabo Verde, para onde convergiam jovens de todas as ilhas.

Um grupo de ex-alunos do então Liceu Gil Eanes formaram uma associação que todos os anos se reúne para não só discutir o legado histórico da marcante escola, como o desenvolvimento económico, social e cultural de Cabo Verde. No entanto, a fachada do edifício é prova concreta de que faltam acções práticas para reabilitar essa mãe de muitos colos, antes que venha abaixo.

Em 2008, o Governo doou o espaço à Uni-CV que instalou no local os serviços da Reitoria e o Departamento de Ciências Sociais e Humanas. Três anos depois, projectou-se uma restauração que não avançou. Após isto, o ministro do Ensino Superior, Ciência e Inovação, António Correia e Silva, assegurava a existência de outro projecto para remodelar essa “casa” de escritores e poetas como Baltasar Lopes da Silva, António Aurélio Gonçalves, Teixeira de Sousa, Gabriel Mariano, João Manuel Varela, entre outras figuras cabo-verdianas.

Correia e Silva virou-se para a Cooperação Portuguesa, enquanto a Uni-CV tenta mobilizar a China para essa reabilitação que não se apresenta fácil, uma vez que “é preciso respeitar toda a sua trajectória e o seu valor simbólico na história da cidade do Mindelo e do país”, como dizia o ministro e historiador.

A verdade é que nem de um lado nem de outro os contactos ainda se transformaram em projectos com pernas para andar. E a Uni-CV terá de arranjar recursos próprios para essa reabilitação.

 

Fonte: A Nação

 

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9 comentários

De Valdemar Pereira a 05.08.2013 às 10:30


Não sejamos cúmplices de mais um vandalismo. Demolição do nosso Liceu Gil Eanes.
Que ninguém se esqueça o Fortim, o Éden Park e a Casa do dr. Adriano Duarte Silva

De Joaquim ALMEIDA a 15.09.2013 às 12:46

Està mais do que provado , os vistigios os espaços tradicional e cultural do nosso pais , incomodam !.. Parece ser um pesadêlo para aquêles que criminosamente , querem fazer desaparecer a ( historia do nosso Cabo Verde ) !..

De José F lopes a 05.08.2013 às 11:23

Brito Semedo

Obrigado por esta informação que trazes aqui e que é importante, já muito detalhada. Portanto o trabalho de casa está feito, falta financiamento se percebi.  Mas mindelneses e cabo-verdianos de boa consciência, a cultura e manifestações de nacionalismo não se fazem só com festas mundanas, mas também  de pequena coisas de gestos de cidadania!! Este monumento merece tanto como a Morna o título de Património.

Continuo a achar que em Cabo Verde há vários pesos e várias mediadas. Para umas coisas é a mobilização total, é o frenesim total, toda a gente fala, até parece aquele festival Todo o Mundo Canta,  e para isso vai-se à Seca e à Meca e aparecem logo dinheiros frequinhos. Para outras coisas é a bandalheira total, o blackout tota,l ou mesmo parece tabu. Incompreensível, não percebo a ideologia cabo-verdiana actual.

Bolas, alguém que tenha poderes contactos internacionais ou diplomáticos  que faça qualquer coisa para esta maior casa caboverdiana, escola de todos, ajudando os poderes locais ou nacionais a encontrar fundos. Façam um apelo petição etc. Quando é que vamos começar a ter vergonha na cara ou a consciência pesada e começar a valorizar o que é património matéria e imaterial.

José

De zito azevedo a 05.08.2013 às 11:54


Creio que é necessário apelar a todas as "boas vontades" a nivel nacional e na diáspora pois não nos devemos esquecer que, naquela casa, estudaram e se fizeram mulheres e homens de respeito e saber jóvens oriundos de todas as ilhas e, muitos deles estão agora, por este ou or aquele motivo, fora do seu país...Há "Gilistas" espalhados pelo mundo: haja alguém que os possa congregar e, com o ouço dizer desde criança, "grão a grão, enche a galinha o papo"...Vamos lá fartar o galinácio, amigos e colegas do velho Gil Eanes!
Zito Azevedo, Gilista de alma e coração!!!

De Djack a 05.08.2013 às 12:22

Eu já nem digo nada! Raios partam a inércia, raios partam o fechar de olhos, raios partam o "deixa-te estar, não me chateies!"...

Ó Amílcar, como ex-aluno do Gil, levanta-te do túmulo e diz aos rapazes da Praia que acordem, que acordem, bolas, que já é tempo!

Braça fúnebre,
Djack

De veladimir romano a 05.08.2013 às 14:56

É de lamentar uma total ausência de pensamento cultural e de responsabilidade, senso histórico, atitude institucional e, até da tão falada caboverdianidade. De lamentar, idém; as falhas da Câmara Municipal de São Vicente, aqui com culpas para todos quantos já passaram pela Assembleia Municipal, incapazes de criarem uma lei do património para se evitar toda esta "limpeza" sobre a memória da ilha. Este Liceu guarda um riquíssimo filão, inicialmente pela sua arquitectura, parte integrante da cidade do Mindelo e de todo um tempo marcado pela presença colonial, uma questão que deve ser tomada em conta. Sem esta memória também não História. Por aqui neste Liceu, deixou a sua história, o nosso grande Luís Rendall, na época um jovem contínuo que ajudou B.Léza a entrar neste local de Ensino, quando o então jovem compositor iniciou sua caminhada como adolescente, como estudante do secundário, ali ficaram muitas histórias dele e dos seus companheiros, como Avelino Barreto, Baltasar Lopes da Silva, Aurélio Gonçalves, entre outros, mais tarde figuras da história cultural e social da ilha e, hoje, presença obrigatória do presente eterno do país, ainda que os desejem omitir e até destruir. Infelicidade grande esta, a de se estar a mostrar aos estrangeiros a "boa organização do Estado", dando exemplos de equilíbrio e oferecendo aos organismos estrangeiros uma imagem, para logo depois, andar a tramar a História, os valores e o carácter de cada pedaço da nação crioula. Mas também mostra de como os caboverdianos se devem unir e criar esforços ilimitados, desde o estrangeiro, desenvolver estratégias financeiras, divulgar a esses mesmo organismos que afinal as histórias e a prática de Cabo Verde também tem duas faces e assim colocar a classe política que usa duma violência quase racista, contra os próprios valores da sua única História. Aqui não podem haver lavagens a belo prazer de estratégias reaccionárias... Um bem haja pelo esclarecimento e pela coragem em denunciar aquilo que começam a ser as partes bizarras da vida interna de Cabo Verde  

De João Sá a 06.08.2013 às 07:40

Prezado,


Vendo o interesse despertado, que os comentários demonstram, este post está em destaque Na Rede na homepage do SAPO Cabo Verde (http://sapo.cv).


Lembro que, como sempre, poderá rever o histórico dos destaques na homepage dos Blogs: http://blogs.sapo.cv/.

De João Duarte a 06.08.2013 às 13:06


E onde fica o M_EIA no meio disto tudo?

De Brito-Semedo a 06.08.2013 às 14:06

O M_EIA (Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura) funciona na parte central (1.º andar) do Liceu Velho. Desde 2012 tem um contrato de associação com a Uni-CV . No próximo ano lectivo vai arrancar com um curso de Arquitectura, mestrado integrado, em parceria com a Uni-CV . Braça.

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