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A Barca 'Coriolanus'

Brito-Semedo, 15 Set 13


Com casco de ferro, três mastros e cerca de 1.000 toneladas brutas, o "Coriolanus" era um veleiro elegante, extremamente rápido  e dedicava-se ao transporte de mercadorias e passageiros. O barco teve longa história de 60 anos e passou por várias bandeiras e donos, entre os quais alguns portugueses, até que em Agosto de 1936 chegou a um sucateiro em Fall River, Massachusetts, para abate. Lançado à água em Maio de 1876 nos estaleiros escoceses de Archibald McMillan & Son, em Dumbarton, passou em 1891 para mãos alemãs e em 1903 arvorava pavilhão norueguês (sob o nome "Lina") para pouco depois voltar a ser britânico e logo a seguir americano (como "Tiburon"). Só em 1921, já com 45 anos de mar, tem proprietário português que o compra por 7525 dólares e o rebaptiza de "Eugénia Emília". Vejamos então o seu historial lusitano, a partir desse momento.


O navio chegou a New Bedford a 17 de Dezembro de 1921, proveniente de Boston. Uma notícia do Alvorada Diária dava a conhecer que o anterior dono o tinha vendido em hasta pública nesta cidade, uma vez que fora arrestado por causa de um carregamento ilegal de álcool . Comprado pelo capitão Luís Oliveira, estava desde logo destinado à carreira New Bedford – Cabo Verde. Não se sabia então quando se realizaria a sua primeira viagem para as ilhas. Encontramo-lo de novo em Janeiro 1923, sob o comando do seu proprietário, a regressar de Cabo Verde com carga de sal.


Pouco depois, em meados de Fevereiro , revelava-se um facto que iria complicar a vida do "Eugénia Emília". A 12, o governo dos Estados Unidos apresentara um libelo no tribunal contra o veleiro, que estava no porto de New Bedford, para que o proprietário deste pagasse uma multa aduaneira. Fora-lhe apreendida carga, estimada em 8970 dólares, montante pelo qual ia ser obrigatoriamente posto à venda. E porquê, esta medida? É que em plena lei seca, no "Eugénia" haviam sido encontradas 262 caixas de bebidas alcoólicas, cujo valor era calculado em 7860 dólares, mais 66 garrafas de álcool soltas (150 dólares) e 16 garrafas contendo… cocaína (480 dólares). Para além disso, também não declaradas, jóias que compreendiam relógios, correntes, braceletes, brincos e bolsas de filigrana, 36 peças de âmbar e perfumes.

 

 

Eugénia Emília no State Pier de New Bedford - Créditos da Penn State Special Colections Library

 

O barco acabou por ser vendido em 21 de Março a Januário O. Amarante, morador em Rotch St., 64, por apenas 6700 dólares. A notícia dava a ficha técnica do navio que era a seguinte: 1050 toneladas brutas, 952 líquidas, 47 pés de comprimento, 35 de largura e 25 de profundidade. E lembrava-se que fora de Luís Oliveira, sob cujo comando fizera uma única viagem, de azarado desfecho. A 23, no tribunal federal, este confessar-se-ia culpado de contrabando de whisky, cocaína e jóias que pretendia fazer passar no porto de New Bedford e seria multado em 200 dólares. A 6 de Julho anunciava-se a sua saída para dia 15, levando carga e passageiros destinados a Cabo Verde com bilhetes de ida por 50 dólares e de ida e volta por 125 mas com validade para seis meses. Os fretes para mil pés de madeira custavam 20 dólares, cada barril dólar e meio e um por cada saca transportada. O comando era agora da responsabilidade do capitão João Correia. Quanto ao capitão Luís Oliveira, vemo-lo em 30 de Dezembro de 1926 a responder por vadiagem, desordem e embriaguez, em repetição de factos semelhantes que se haviam passado no Novembro anterior. O relato do estado em que o marítimo se apresentou é confrangedor: «Sujo, com a barba crescida, cabelo grisalho desgrenhado, coberto de andrajos, o homem que em tempo se orgulhava de ser comandante dum dos mais belos barcos da carreira cabo-verdiana, causava dó pela forma como se apresentou ontem no tribunal. Até aparentava estar um tanto confuso das suas ideias, e compreender bem pouco do que se passava em redor de si».

 

Voltamos a encontrar o veleiro em Maio de 1928, com o nome original de "Coriolanus" que terá até ao fim dos seus dias . Procedente de Cabo Verde, estava em Block Island, a cerca de 13 milhas da costa de Rhode Island, com 48 passageiros e 32 tripulantes. No dia seguinte chegou a New Bedford e fundeou junto ao farol de Butler Flats. Depois de longa viagem de 34 dias entre o Fogo e aquele local, foi ainda necessário aguardar a visita do médico do porto (que inspeccionou os passageiros no cais do Estado) e dos inspectores da imigração e da alfândega, acompanhados por um intérprete, no caso, um tal António F. Dias. Só em Janeiro de 1929 saberemos de novo do barco. Em carta enviada de S. Vicente ou do Fogo e recebida na redacção do Diário de Notícias, contava-se o conjunto de desaires sofridos na no entanto curta viagem de 23 dias, entre New Bedford e a ilha do Monte Cara. Devido a forte temporal e deficiente acondicionamento da carga, a tripulação fora forçada a lançar ao mar grande parte desta, entre a qual madeira e camionetas. E da carga que fora desembarcada em S. Vicente, significativa quantidade estava em más condições, coberta de areia. O anónimo autor da carta terminava-a com a seguinte frase: «O descontentamento dos passageiros é enorme e o arrependimento de viajar em navio à vela é ainda maior.»


A verdade é que a competir com os veleiros havia então as carreiras de vapores da companhia francesa Fabre Line, da qual Guilherme Luiz, proprietário do DN, era agente. E contra a de Cabo Verde, à vela, e afinal com razão, ele fazia campanha repetida no jornal. Leiamos, por exemplo, parte do longo texto que vinha agregado a um anúncio que propagandeava a viagem do S.S. "Roma" de Nova Iorque e Providence directamente para S. Vicente, em finais de Setembro de 1927: «(…) Com um serviço desta natureza, um paquete capaz de fazer a viagem em 8 dias, proporcionando ao mesmo tempo ao passageiro todos os confortos modernos e com segurança, além de uma alimentação abundante e de primeira ordem, cozinhada à portuguesa e servida por criados portugueses, seria um contra-senso, mesmo uma loucura, pensar em navios de vela que tanta miséria e tragédia têm levado ao seio das famílias cabo-verdianas. Os navios de vela são uma coisa do passado e já há muito tempo deviam estar em exposição nos museus». Mas se por um lado paquetes como o "Roma", o "Asia", o "Saturnia" e outros iam cumprindo esse desiderato, o cruzamento do Atlântico à vela havia de durar até bem tarde. Após os meados do século XX, em finais de 1965, por exemplo, ainda o "Ernestina" fazia viagens para a América. Quanto ao "Coriolanus", acabaremos de contar a sua saga num próximo post.

(Continua)

 

 

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1 comentário

De Valdemar Pereira a 15.09.2013 às 13:31


De facto, atravessar a Atlântico com conforto é outra coisa mas... a vela tem o seu romantismo quando não se enjoa. N'est-ce pas?
Aguardemos o fim
Braça

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