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"A Palavra e os Dias", de Vera Duarte

Brito-Semedo, 14 Set 13

 

A Escritora Vera Duarte foi ao Brasil participar e lançar o seu segundo livro editado no Brasil na XVI Bienal Internacional do Rio de Janeiro, na Universidade de São Paulo e em Belo Horizonte. Em Jacareí, São Paulo, o livro de crónicas, A palavra e os dias, foi apresentado na Academia Jacarehyense de Letras pela Prof. Simone Caputo, da USP, cujo texto a Esquina do Tempo tem o prazer de publicar.

 

Vera Duarte e a Presidente da Academia Jacarehyense de Letras

  

Agradeço o convite da Academia Jacarehyense de Letras, em especial à sua Presidente, Exma. Sra. Salette Granato, para estar aqui e conversar um pouco sobre Cabo Verde e sua literatura, representada nesta oportunidade por Vera Duarte. Agradeço ainda à Fundação Cultural de Jacarehy, na pessoa de sua Presidente, Exma. Sra. Sônia Ferraz, e à acadêmica Esther Rosado que, em conjunto com Érica Antunes Pereira (pesquisadora da USP/FAPESP), possibilitaram o destaque dado hoje a Cabo Verde, país africano, no panorama cultural desta cidade brasileira.


Cabe ressaltar que Cabo Verde é um pequeno país insular, localizado no Oceano Atlântico, em frente à cidade de Dacar, Senegal, constituído por dez ilhas, das quais nove são habitadas por cerca de 500 000 pessoas, e no qual se fala um crioulo de base portuguesa, hoje denominado língua cabo-verdiana. A língua oficial e internacional utilizada no país é a portuguesa e o bilinguismo cabo-verdiano está em construção, em virtude da recente sistematização fonológica do crioulo em um alfabeto próprio, o ALUPEC.


A nação cabo-verdiana, contudo, desde seu nascimento, configura-se como uma nação global, com a chegada dos portugueses à ilha de Santiago, desabitada, em 1460, e depois com o transporte de escravizados da costa da Guiné para esta ilha-entreposto, nascendo, assim, o mestiço cabo-verdiano ou crioulo, em geral de pai branco europeu e mãe negro-africana. Atualmente, há mais cabo-verdianos na diáspora do que no arquipélago. Eles são cerca de 500 000 nos Estados Unidos da América, cerca de 200 000 em Portugal e cerca de 100 000 espalhados no Brasil, na Holanda, na Itália, em Macau... Todos pensando em voltar ao arquipélago (é esse imaginário ilhéu que lhes dá resistência) para contribuir com a pátria, assim como para internacionalizá-la.

 

Simone Caputo Gomes apresentando Vera Duarte na Academia Jacarehyense de Letras


Nascida no Mindelo, capital da ilha de São Vicente, Vera Duarte, uma das representantes máximas dessa cabo-verdianidade consciente dos valores do arquipélago, mas voltada para uma vocação internacional, é uma cidadã do mundo, que desde muito cedo mostrou forte inclinação para a escrita e para as causas sociais.


Participou dos Jogos Florais 1976 para comemorar o primeiro aniversário da independência, obtendo Menção Honrosa. Em 1981, alcançou o primeiro lugar em um concurso organizado pela Organização das Mulheres de Cabo Verde, a OMCV, com uma coletânea de oito poemas dedicados às mulheres.

 

Trilhando o caminho do Direito, tornou-se a primeira mulher magistrada em Cabo Verde. Em 1993, assumiu, também como primeira mulher, a Comissão Africana do Direito dos Homens e dos Povos, e, pela sua atividade em prol dos Direitos Humanos, recebeu o prêmio Norte-Sul de Direitos Humanos de Lisboa do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. Foi Presidente da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania, naquele país, até 2008, e Ministra da Educação e Ensino Superior de Cabo Verde de 2008 a 2010; neste ano, recebeu a condecoração Medalha do Vulcão de Primeira Classe, outorgada pelo Presidente da República de Cabo Verde, por sua relevância nas áreas das Letras e da Cultura.

 

Seu livro de estreia, Amanhã amadrugada, 1993, poesia, foi seguido por O arquipélago da paixão, em 2001, que recebeu o prêmio TCHICAYA U TAM’SI de poesia africana e que tive a honra de prefaciar, á altura; pelo romance A candidata, de 2004 (publicado no Brasil em 2012), que recebeu o prêmio SONANGOL de literatura. Em 2005, publicou Preces e súplicas ou os cânticos da desesperança, obra com ressonâncias da poesia abolicionista de Castro Alves. Em 2007, foi a vez de uma coletânea de ensaios na área dos Direitos Humanos intitulada Construindo a utopia; em 2010, publicou uma coletânea advinda de seus Exercícios poéticos. Hoje, aqui em Jacareí, Brasil, Vera está lançando o volume de crônicas A palavra e os dias (Belo Horizonte: Nandyala, 2013, prefácio de Christina Ramalho).


O âmbito da crônica, como nos ensinaram Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, é a vida cotidiana. Vera Duarte opta por retratar os seus “dias” ou o que chama “prosaico quotidiano” em sua ficção, com forte cunho autobiográfico e com auto-referenciação ao seu discurso poético, pintando cenários tanto do dia a dia nas ilhas de Cabo Verde quanto no Brasil, país que adotou como irmão ou como segunda pátria, face aos amigos e experiências que aqui tem ancorado.

 

Na primeira parte do livro, que eu denomino “Do arquipélago”, Vera ressalta variados aspectos d’ “As ilhas, um país”, que definem o “ser cabo-verdiana”, sua identidade _ de pronto, surge a ilha de São Vicente, sua ilha-natal, o Mindelo cosmopolita, “cidade porto por excelência, cidade luz, cidade das oportunidades” (DUARTE, 2013, p. 37) na relação com o mar. E a cronista resgata também a sua ancestralidade, representada na exuberância da natureza rural das ilhas-berço dos pais: Santo Antão, ilha-mater, em “delícias, ir pelo canavial adentro chupar cana, comer mangas debaixo das mangueiras, subir aos pés de araçá e de goiaba, furtar a deliciosa e preciosa banana prata ou então ir aos galpões beber calda de cana que fermentava em barris enormes” (Ibidem, p. 33); e ainda o périplo paterno das terras do Monte Gordo (paraíso serrano de São Nicolau) às ilhas do Sal e, finalmente, São Vicente, onde nasce a escritora. O seu presente, tão transitivo quanto o do pai, pleno de “inquietação cultural”, centra-se na ilha de Santiago, ilha-mãe das tradições cabo-verdianas, e, dela, embrenha-se em partidas para ganhar o mundo.


O Livro A palavra e os dias retrata ainda o cotidiano de mulheres (principalmente na secção “As mulheres”), sejam anônimas, pioneiras ou que tenham papel de destaque na luta pelas causas sociais, sobretudo, femininas e infantis, que envolvam preconceito ou violência, criminalidade, mortalidade, avanço da AIDS, do alcoolismo e da droga na vida do país, temas sempre examinados sob a égide da justiça, do direito à igualdade e da paz.


As questões palpitantes da vida no Cabo Verde contemporâneo e no resto do mundo (secções “Outras lutas” e “Educação”) impactam fortemente esta escrita coloquial, escorreita e plena de otimismo, a condizer com o ícone que Vera Duarte representa em sua sociedade: a jurista, a ministra da educação, a combatente pelos direitos humanos.


Não poderiam faltar neste livro os heróis consagrados (“Espelhos”) por Vera em outras obras, especialmente poéticas, bem como personagens literárias de relevo: o Pai da Pátria, Amílcar Cabral, fundador da nacionalidade cabo-verdiana e guineense; Nelson Mandela, o líder africano, e Indira Ghandi, admirável mulher que ocupou pela primeira vez o cargo de chefe do governo indiano. Dos escritores, ressaltam os que povoaram seus dias com a convivência, como Nhô Roque, Jorge Barbosa, Baltasar Lopes, Manuel Lopes.

Os afetos (família, amores, amigos) que convergem para a secção “A casa” fecham o ciclo do livro, que retorna circularmente ao começo, origem, mas como resultado de um longa aprendizagem, que perpassa, inclusive, a atividade de cronicar: a “palavra”, como “arma de combate” , nutre-se da seiva do cotidiano, imprimindo à ficção as marcas da vivência, que a fecunda, e da veracidade, que, ao leitor, encanta.

 

Para finalizar esta breve apresentação, destaco a parte do livro intitulada Brasil “Brasil” (qualificado pela ficcionista como “Nação irmã”), oportuna neste momento solene em que estreitamos laços entre as Academias de Letras do Brasil, ilustremente representadas pela Academia Jacarehyense, e a de Cabo Verde, que nasce neste setembro; agradeço ainda à Vera pela dedicatória que me dispensou e pela menção como personagem do texto “As amigas brasileiras”, significativo da “cumplicidade e da reciprocidade afetiva” (Ibidem, p. 127) entre os dois países atlânticos, aqui simbolizados pelas experiências subjetivas de suas mulheres (um dos fortes focos da obra duartiana).


Vera Duarte funda na “origem muito próxima” (Ibidem, p. 128), como “sociedades crioulas e de origem escravocrata” (Ibidem, p. 129), o motivo de, aos olhos cabo-verdianos, o Brasil ser “este país que nos encanta e o diálogo [que] se torna fácil” (Ibidem, p. 128). “Talvez venha dessa ancestralidade o incontornável sentimento de ligação umbilical que desde sempre me prendeu ao Brasil” (Ibidem, p. 129), acrescenta a cronista.


O amor pelo Brasil (fortemente correspondido, ressalte-se), expressa-se em várias crônicas, e destacamos, para encerrar esta apresentação, um belo trecho de “As literaturas dos PALOP’s no currículo escolar brasileiro”:


Confesso que sempre fui uma apaixonada pela cultura brasileira. Bebi “Brasil” desde tenra idade, nas páginas de Jorge Amado de Capitães d’ Areia e Subterrâneos da Liberdade que, literalmente, embalaram nossos sonhos de liberdade, na sedutora Helena de Machado de Assis e nos versos de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa, entre muitíssimos outros poetas e escritores brasileiros.


Amor a princípio platônico, foi tomando cada vez maior materialidade à medida que a esplendorosa baía de Guanabara ou a São Paulo meticulosa e ainda a Brasília de linhas perfeitas se me foram oferecendo aos meus olhos encantados, sem esquecer Ouro Preto ou Belo Horizonte.

 

E tornou-se um amor irreversível agora que venho desvendando os autênticos paraísos que são a belíssima praia de Jericoacoara, os lençóis Maranhenses de sonho e um Porto Galinhas recheado de estórias de homens escravizados.

Amo o Brasil e o povo brasileiro, apesar da injustiça social, da corrupção e da violência de que ele é, quotidianamente, autor e vítima.


Dir-se-ia que as dificuldades da vida, em vez de tornarem os brasileiros agrestes e rudes, fazem deles pessoas extremamente afáveis, prestáveis e simpáticas.


Definitivamente esta paixão ficou consolidada com estes meus dias no Rio de Janeiro, pois neles descobri que se trata de uma paixão recíproca, uma característica que torna as paixões saudáveis e fadadas a finais felizes (Ibidem, p. 143-144).


Enfim, por este afeto que nos dedica e por muitas outras razões, seja bem-vinda sempre, Vera Duarte, a esta terra que também é sua, de Vera Cruz, que a acolhe com muito carinho e admiração!

 

- Simone Caputo Gomes
(Universidade de São Paulo)
Jacareí, 11 de setembro de 2013

 

 

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7 comentários

De Lucas a 14.09.2013 às 14:10

Nome da cidade é Jacareí, não Jucareí como escrito no início.

De Brito-Semedo a 14.09.2013 às 15:17

Falta de atenção minha, Caro amigo, e penitencio-me por isso. Obrigado pela leitura tenta. Um abraço.

De Joaquim ALMEIDA a 15.09.2013 às 09:44

OLà " Lela;"Jà estou de volta , apos três meses vividos nâ nôs tirrinha natal !..Ainda sona nos meus ouvidos as tuas inconfundiveis gargalhadas , motivado pelas nossas converças , anedotas etc ; por mim até parece que jà n'os nos conheciamos hà mais de uma década !...Aquele abraço d ' um Criol na Frânça ;

De Joana Aranha a 15.09.2013 às 02:58

foi muito bom receber a Vera Duarte em nossa cidade Jacareí, pena que foi tudo muito rápido, espero que ela volte outras vezes

De Joana Aranha a 15.09.2013 às 03:01

A Vera Duarte é uma simpatia e escreve muito bem, nos deixou com gostinho de quero mais, ainda não adquiri o livro dela, mas quero um exemplar, onde compro?

De Brito-Semedo a 15.09.2013 às 12:46

Caro Amigo, Bom saber novas suas e que já está encostado na Esquina :-) Use o endereço esquinadotempo@sapo.cv para contacto mais pessoal.
Braça

De Valdemar Pereira a 15.09.2013 às 13:16


Que prazer ler a homenagem e ouvir a Vera falar na lingua comum !!!
Como é bom falar publicamente e não ter necessidade de tradutor ?!?

Muito Obrigado, Caro Amigo, por mais esta "reportagem" que me ia
passar despercebida não fosse a persistência de vir "espundrar" n' A
Esquina a qualquer hora e Tempo...
Não se esqueça que, para os "estrangeirados", perdão, os emigrantes
este espaço é um dos sitios onde se mata a sodade e onde se ouve os
cantares das nossas ilhas e, ainda importante, onde nos é facultada a
possibilidade de exprimir em lingua de gente o que sentimos.
Um braça moda na Tchã d'Cemiter

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