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Pedro Bonucci e João Rocheteau Lessa, Fundadores da Firma Bonucci & Lessa, Responsáveis pela Electrificação da Cidade do Mindelo
 
 
No dia 6 de Agosto de 1925 na cidade do Mindelo, ilha de S. Vicente, foi celebrado o acordo de contrato de fornecimento de energia eléctrica para iluminação pública e particular entre a Câmara Municipal de S. Vicente e os empresários Pedro Bonucci e João Rocheteau Lessa, dando-se assim início a um processo que culminaria na aventura e obra gigantesca que aqueles dois empreendedores levaram a cabo, e que permitiu projectar a cidade na modernidade, abrindo as portas do progresso que o acesso à energia eléctrica permitiu.

 

Assim, nesse mesmo dia de Agosto de 1925, na secretaria da Câmara Municipal do Mindelo, o presidente Francisco Augusto Regalla, na sequência das deliberações tomadas em 1924 pela Assembleia Municipal, e devidamente autorizado por esta, decidiu conceder aos referidos empresários Pedro Bonucci e João Lessa o exclusivo de fornecimento de energia eléctrica para iluminação pública e particular da cidade do Mindelo.

 

A concessão foi feita por um prazo de 50 anos, com direito a uma posterior renovação do contrato.

 

Como garantia desta concessão ficou estabelecido que só os concessionários poderiam atravessar a via pública com fios condutores aéreos ou subterrâneos, destinados a este fim.

 

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Ontem e hoje, Montagem fotográfica de Lucy Bonucci

 

A estes cumpria também fazer a iluminação dos largos, das praças e ruas da cidade do Mindelo com lâmpadas incandescentes, empregando-se 40 lâmpadas de 200 "velas" e 80 de 100 "velas", todas com reflectores, e colocadas nos lugares que a Câmara determinasse.

 

Pela iluminação pública a Câmara pagaria mensalmente aos concessionários a importância de 70 libras esterlinas, sendo esta quantia aumentada na devida proporção, quando a Câmara resolvesse alargar ou intensificar a iluminação da cidade.

 

Ficou também determinado que os trabalhos de instalação da central e da rede eléctrica deveriam estar concluídas no prazo de 18 meses a contar da data da assinatura do contrato de concessão.

 

Findo esse prazo, caso a Central não estivesse em condições de fornecer energia para iluminação da cidade, a Câmara ficaria com o direito de rescindir o contrato, recebendo dos concessionários a indemnização de 140 libras estrelinas.

 

Para montagem da rede eléctrica a Câmara obrigava-se a permitir a utilização dos postes e braços de parede em serviço da antiga iluminação a petróleo, bem como a conceder gratuitamente a licença para o establecimento de novos postos se fossem necessários.

 

Os concessionários comprometiam-se a efectuar todas as reparações nas ruas e edifícios e nos restantes lugares onde fosse necessário efectuar alterações por efeito das obras, bem como o encargo com as despesas de conservação e reparação de todo o material da anterior iluminação.

 

Do mesmo modo, obrigavam-se a fornecer energia eléctrica para iluminação pública desde 30 minutos depois do pôr-do-sol, até 30 minutos antes do nascer do Sol. Depois da meia-noite a iluminação seria reduzida a metade, conforme indicação da Câmara.

 

Os edifícios do Estado e do Município teriam para a sua iluminação um desconto de 15% sobre os preços que os concessionários oportunamente viessem a estipular para o fornecimento de iluminação a particulares.

 

Ficou estabelecido o sistema de fornecimento de energia aos particulares por avença, que seria fixado pelos concessionários tendo em atenção o número de lâmpadas, sua força, e quaisquer outras condições que pudessem determinar dispêndio de energia ou alteração do seu custo.

 

Depois de montada a Central Eléctrica, os concessionários obrigavam-se a fornecer sem interrupção, energia para iluminação pública e particular da cidade do Mindelo.

 

No caso de haver interrupção sem que houvesse motivos de força maior devidamente comprovado, os concessionários pagariam durante o primeiro período de interrupção a multa de 100 escudos diários e, em caso de reincidência, 200 escudos diariamente.

 

Cada um destes períodos de interrupção sem motivo justificado não poderia ultrapassar os 30 dias, caducando a concessão se essa interrupção ultrapassasse os 60 dias consecutivos.

 

Toda a instalação deveria ser montada em harmonia com as prescrições impostas pelo regulamento de segurança para a montagem de instalações eléctricas com correntes fortes.

 

Inicialmente as primeiras instalações da Central Eléctrica foram no espaço situado em frente à praia da Laginha onde funcionariam as fábricas de gelo e de moagem, também propriedades de Pedro Bonucci.

 

O tipo de energia inicial era de corrente contínua, tendo sido esse o motivo que levaria a que as instalações da Central Eléctrica fossem transferidas depois para mais perto da cidade, em instalações situadas perto da Praça Nova, para minimizar as percas devido ao tipo de corrente utilizada, e à distância.

 

Mais tarde seria feita uma reformulação na tipologia de corrente empregue e, com a aquisição de novos motores, a corrente contínua seria substituída pela corrente alterna, o que permitiu o uso de transformadores e consequente extensão da rede e a transferência da central para fora da cidade, tendo, em meados dos anos 60, regressado á zona da Laginha.

 

Além de Pedro Bonucci e de João Lessa, figuras centrais de toda esta história, não se pode esquecer também todos aqueles que ajudaram na edificação deste projecto e que durante muitos anos foram responsáveis pela manutenção de toda a rede eléctrica e funcionamento da central, como foram os casos de Teodoro Pias, o responsável técnico da Central que procedeu à reformulação da rede e a introdução da corrente alterna, bem como dos contadores, o ajudante e guarda da central de nome Basílio, os electricistas João Bintim, Djindja, Platita..., enfim, personagens que ajudaram a tornar Mindelo mais "luminoso".

 

O Sr. Basílio, funcionário da central durante alguns anos, tem a curiosidade de ter sido um exilado político que foi mandado para S. Vicente onde, certamente, deve ter passado os melhores anos da sua vida.

 

Desde a sua implementação, algumas histórias ficaram ligadas ao funcionamento da central, sendo a mais conhecida a celebre "Yolanda ka ta casá", que as pessoas costumavam dizer quando faltava a luz, na esperança que ela voltasse depressa, não fosse a filha de "nha Pidrim Bonutch" ficar solteira. Como a luz acabava sempre por voltar, a moda pegou e a profecia nunca se cumpriu.

 

Já lá vão muitos anos desde os já distantes inícios do século passado quando dois visionários e empreendedores meteram mãos à obra e sonharam com um projecto modernizador para a sua cidade natal de que tanto gostavam, e apresentaram à Câmara Municipal de S. Vicente as ideias de algo que viria a lançar a cidade do Mindelo nas trilhas da modernidade. Justiça lhes seja feita.

 

 

- Lucy Bonucci

 

Lisboa, 7 de Outubro de 2013

 

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6 comentários

De Adriano Miranda Lima a 07.10.2013 às 23:06


Este relato é de grande  interesse histórico. Apreciei imenso a leitura deste valioso documento.

De Djack a 08.10.2013 às 07:48

É também assim, com pequenos mas substanciais artigos como este, que se faz a história do Mindelo, de São Vicente e de Cabo Verde. Muito interessante e elucidativo. Pena ter-se perdido aquele equipamento que já em 1999 encontrei de rastos. Seria hoje um útil local de visita, em termos de arqueologia industrial. Mas, tal como outras coisas já se perderam e se estão a perder na nossa cidade, a velha Central Eléctrica (cujo barulho não dixava o Dr. Aníbal dormir, como ele me disse aqui em casa num dia em que cá almoçou com a esposa) já se foi...

Braça eléctrica,
Djack

De Joaquim ALMEIDA a 08.10.2013 às 08:30

Devo acrescentar que a primeira central , foi montada na matiota , precisamente em frente da laginha e que mais tarde , - nos cinquenta - ser desmontada e montada no alto de Sao Nicolau , em frente da praça Dra. Maria Francisca , actualmente (praça dos namorados ) !..Um Criol na Frânça ; Morgadinho

De Djack a 08.10.2013 às 08:51

Pracinha de má memória, em virtude dos "estranhos" inquilinos da vivenda que pertenceu à Dr.ª.

Braça com cacete,
Djack

De Djack a 08.10.2013 às 08:53

Ah, e já me esqucia de dizer que foi nessa pracinha que fumei a minha primeira cigarrada, um longo americano, como contei algures em texto escrito.

Braça com fumo,
Djack

De Djack a 08.10.2013 às 09:12

Veja a fotografia da Central Eléctrica em tamanho maior e fotos do lamentável estado actual do velho Liceu Gil Eanes em http://mindelosempre.blogspot.pt

Braça gileanista,
Djack

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