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Num post de apresentação do romance O Escravo, de José Evaristo d'Almeida, dizia que este autor tinha publicado um folheto intitulado "Epístola A***", que tem uma referência a Cabo Verde, apenas por ouvir dizer [O Escravo (1856), O 1.º Romance Cabo-verdiano].

 

Hoje, pelas mãos de um amigo do grupo 'Criolo de Djabraba', Turíbio Hamilton Pinheiro, a Esquina do Tempo tem o privilégio de poder apresentar aos seus leitores esse belo poema de 223 versos de José Evaristo d'Almeida, o fundador do romance cabo-verdiano, que não se esqueceu de Cabo Verde “...onde eu passara/ uns doz’annos de bem custosa vida...”.

 

Antes, porém, uma nota que se impõe. Segundo Turíbio Hamilton Pinheiro, "para além dos dois descendentes de José Evaristo d’Almeida, citados nos dados biográficos fornecidos a página 9 de O Escravo, encontram-se, felizmente, por esse mundo fora, muitos descendentes desta interessante figura que passou por Cabo Verde. Uns, em Cabo Verde, mas a maioria, nos Estados Unidos da América, creio eu".

 

Brava.jpeg

Nova Sintra, Foto Djibla

 

Virtude é fazer bem; Não mal Justiça.

 

 LEMBRAS-TE, amigo meu, das bellas noites
 Em que palestra amena nos doirava
 Algumas horas, que passavem breves?
 Lembras-te déssa noite, em que dizias,
 que se podesses dedilhar a lyra,
 Qu’immortalisou Camões, Garção, Elpino,
 Empregáras teu canto em honra d’esse,
 Que exerce a caridade, e nella emprega
 Parte dos bens que lhe doou a sorte?
 Tua linguagem, tão correcta sempre,
 Que leva a convicção aos seios d’alma;
 Teu conciso falar, que tanto exprime,
 Nunca foi tão sublime e tão fecundo,
 Como no quarto d’hora em que teus lábios
 Exparziram de flor’s, quanto bastava
 P’ra grinalda tecer, brilhante e bella,
 Merecida pelo heróe que te inspirava;
 Condigna a tal assumpto, a caridade!
 Tua enérgica fraze, revelava
 Sentimentos que n’alma te pullulam;
 Que és bom, que és generoso acreditára
 O que, sem provas ter, podesse ouvir-te.
 Diceste-me, depois, que desejavas,
 Ver cantado, por mim, tão nobre assumpto:
 Cega-te a amisade, ó caro amigo!
 Vês talentos em mim que não possuo;
 É a custo que, da lyra, os sons arranco;
 Quando, esses mesmos sons, apenas podem
 Esboçar bem de leve, os sentimentos
 Que a amisade sincera em mim desperta.
 Tres lustros só contava , e já da Pátria
 Os benéficos ar’s me não sorriam;
 ‘Nas africanas plagas definhava
 A mais bela porção da juventude;
 Por constante doença atormentado,
 Via, em ócio, decrescer os bellos dia,
 Que podéra aproveitar pulindo o engenho;
 Por fim que succedeu? O éstro altivo,
 Que devêra aspirar a amplos vôos,
 Finou-se, qual, de jardim, flor mimosa,
 Que fora pelo tempo maltratada,
 Se do cultor a mão a não soccorre,
 Sécca mesmo em botão, não desabroxa.
 Como pois, querias tu que eu acceitasse
 O precioso mister, que m’incumbias?
 Como? – P’r’o receber era preciso,
 Que medir não soubesse as próprias forças.
 E, comtudo, ao sofrer minha alma affeita
 (Qual precioso metal luzente e bello,
 A quem o trato mau não tira o brilho)
 Depois do sofrimento a ter pungido,
 Tornou-se mais subtil, mais delicada;
 No prazer, ou na dor, é forte, é grande.
 Mas, que importa o sentir? se à inteligência
 Não lh’é dado abranger-me a alma inteira?
 Quando não posso transmitir aos outros,
 Sublimes sensações, que ali se occultam?
 A caridade, amigo meu, essa virtude,
 Exercida por ti tão em segredo,
 De meu peito é também bello apanágio:
 Como tu, eu senti prazer extremo;
 Como tu, desfructei um goso puro,
 ‘N’essas tres noites, em que um génio grande,
 O Passeio fez abrir à caridade.
 Quando, em pé no terraço onde subira,
 Dominava com a vista, o amplo espaço,
 Beatificava-se a alma, e eu sentia
 Complexo de prazer e de tristura,
 Deliciosa sensação, que não s’exprime.
 Deleitava-se a vista contemplando
 Os milhares de lumes multicôres;
 Mas frouxos, de maneira a não tirarem,
 Do ingente arvoredo, a magestade.
 Pura, estrellada a noite, o ar sereno,
 Creditarás que o céu tomava parte
 Na funcção, à pobreza consagrada;
 Meigos, brandos favonios embalavam
 Os diáphanos globos, que faziam
 Sub-dividir-se a luz em várias cores;
 Moviam-se, como que, para chamarem
 O povo que, de fora, estava, adrede,
 C’o fim d’ali gosar quanto podia.
 Louvei a edea feliz, que collocára,
 De modo a dominar todo o recinto,
 Da caridade o pharol, brilhante Estrella!
 Sustiam-na, do mundo, as quatro partes,
 Sobre as quaes esparzia, engrinaldadas,
 As rosas, os jasmins, as açucenas;
 Essa Estrella brilhante, em si continha
 De lumes...talvez mil, que pareciam
 Outros tantos pirópos, ali postos
 Pela poderosa Mão da Providência.
 Nos bazares depois, um novo quadro,
 À vista se offerecia: eram diversos
 Objectos d’arte e gosto, ali levados
 Por benéficas mãos, que desejaram
 À caridade pagar mais um tributo.
 Os olhos decorri por sobre as prendas,
 E, em mais d’umadas offerendas tuas,
 Teu grato nome pude ver escripto.
 Ali nobres, lindas mãos distribuiam
 Porção de sortes, recebendo em troca
 pequena esmola, que tornava grande
 A multidão da gente, que acudia
 Ao reclamo geral da caridade;
 Encarregavam-se outras d’entregarem
 As prendas, a quem dono a sorte dera;
 Ao passo que, se davam pressa, algumas,
 Em preencher o logar, das que saiam,
 Com objectos eguaes, ou com differentes.
 Era bello ver Senhoras, tão distinctas,
 À pobreza prestar um tal serviço,
 Com graça, modo e gesto d’encantarem:
 Ao vel-as, eu julgava ter presentes
 As Dryadas, gentís d’aquelles sitios,
 Que folgavam por ver seus pátrios lares,
 Servir em um mister ao céu tão grato.
 Se meu estro aspirar, ah se podesse!
 À pos’ridade passar tão gentil feito,
 Aqui gravára, desde já, seus nomes.
 Fui ter ao botequim, a caridade
 À minha entrada ali também pedia;
 Reclamei de café pequena taça,
 E, mal os lábios meus tocaram n’elle,
 Logo o reconheci como oriundo
 D’ilhas de Cabo Verde, onde eu passára
 Uns doz’anos de bem custosa vida;
 Reconheci-o porque, se não tão forte,
 Em aroma e sabor não cede ao moKa.
 O café me levou a edeas tristes:
 Lembrei-me desse povo meigo e dócil,
 A quem, mais d’uma praga, o céu mandara;
 Que luta com a peste, a fome e a sêcca;
 Que precisa, tem jus à caridade!
 El’, que não duvidára, em tempos prosp’ros,
 Às rochas marinhar, d’ali tirando,
 Com risco de perder a própria vida,
 A urzella, mordente valioso,
 A qual deu a Nação quanto bastára
 Para hoje os livrar de taes flagellos!
 A experiencia, porém, lhe tem mostrado
 Que em Lysia, a caridade não s’extingue;
 E, se um Governo paternal não pode,
 pagando a dívida, extinguir os males,
 Que pungem, apoquentam, mortificam
 Um povo que também de Lysia é filho,
 Estão cá muitas almas bem fazentes,
 Que ao primo aceno, correm pressurosas,
 Ofertando, com gosto, quanto podem,
 E mandando-lhe, como já fizeram,
 Com que se minore o sofrimento.
 Honra lhe seja por acção tão nobre.
 Feitas taes reflexões, fui percorrendo
 As ruas lateraes, onde alguns quadros,
 Sem significação e sem interesse,
 Se divisavam, a par dos rostos nobres
 De Luis de Camões, do Gama e Castro:
 A piedade, também, se desenhava
 No sofredor aspecto de um mendigo.
 Fui sentar-me depois n’uma cadeira,
 E, ao passo que o som, de orchestra immensa,
 Me fazia admirar os grandes génios
 De Mozart, de Rossini, e de Maerbeer,
 Afagava com a vista este espectac’lo
 Grandioso, sublime, que offereciam
 Centenares de pessoas reunidas,
 Guardando um tal respeito, um tal silencio,
 Que um cego, estando lá, não acreditára
 Que s’encontrass’ali seis mil pessoas.
 E, comtudo, esse povo estava alegre,
 Da alegria, que produz a consciencoa
 De haver praticado uma acção boa.
 «É magnífico! é bello! é portentoso!»
 Eram as exclamações que mais se ouviam.
 «É nosso o benefício, e não dos pobres;
 «Pois que val a esmola que nos pedem,
 «A par das distracções, que nos outhorgam?»
 E tudo isto era obra d’um só homem!
 De Guedes bemfazejo, que merece
 Mil bençãos da pobreza, a quem soccorre,
 Como se fora da piedade o Nume!
 Foi uma inspiração da caridade,
 Que, mal na mente lhe cruzou, brilhante,
 Desde logo tratou de a pôr em prática:
 Dificuldades venceu, transpoz barreiras,
 Expoz-se, mesmo, a perder d’um golpe,
 Avultada quantia, na incerteza
 De ver que o povo lh’annuia aos votos.
 Segudo dos amigos que chamára,
 E que tanto, também, se distinguiram,
 Muitas vezes o vi, apressurado,
 Concitar ao trabalho e, providente,
 Remédio dar de prompto ao que faltava.
 Assim, com persev’rança e com fadigas,
 Conseguiu ver coroados seus esforços,
 Dando-nos o espectaculo sublime,
 Que os pobres versos meus mal tem traçado.
 Anhelava possuir eu me dizia,
 O plectro de oiro de Garrett sublime,
 Para tecer então, condigna corôa,
 Único galardão de taes serviços.
 Mas se meus versos não podem ir tão longe,
 As preces minhas subirão bem alto,
 Rogando ao Deos Clemente, ao Deos que manda
 Cultivar, exercer a caridade,
 Que Olhe sempre, de benigno Aspecto,
 Aquelle que compr’ende, e que avalia
 Toda a magn’extensão d’essa virtude
 Iria mais por diante, se não fora
 Numerosa, fugaz, ignea girândola,
 Remontando-se no ar, estrepitosa,
 Dizer-me que o recinto ia fechar-se.

 Portanto, amigo meu, tendo gosado
 Das fortes sensações, que te hei descripto,
 Na explêndida funcção da caridade,
 Annuira gostos aos teus desejos,
 Se acaso o estro meu podesse tanto.
 Fal-o-ia, assim mesmo, se a memória
 Me ajudasse a escrever o que disseste,
 Na noite em que tratamos d’esse assumpto;
 Por quanto, as expressões, qu’ então soltaste,
 Bastavam, por si só, para exaltarem
 O que chega a tocar na epopéa.
 Eram dignos de apreço os elogios
 Dispensados, por ti, ao bom do Guedes;
 Proferidos em recinto bem pequeno,
 Ouvidos só por dois dos teus amigos,
 Que o enthusiasmo teu bem partilhavam,
 Não tinham o temor de ser descritos.
 Depois a minha voz casou-se à tua;
 As edeas, esposei, que produzias;
 E, pela viva flamma, dominados,
 Que accende o louvor das accções boas,
 Derramamos quanto a alma em si conyinha,
 Sem recearmos que se nos dissesse,
 Que queimávamos (nós) bem pobre incenso,
 P’r’em troca ver arder aloés ou myrrha.
 Mas A***, em ti também cabia,
 D’encónios uma não pequena parte;
 Teu nobre coração também compr’ende
 O quanto o homem deve à caridade;
 E se em tão grande escala a não praticas,
 É porque teus recursos, limitados,
 Não podem abranger tão largo espaço.
 Já tres horas ouvi, e desd’a noite
 Occupo-me gostoso em escrever-te:
 É forçoso pararpois qu’inda tenho
 De transcrever, com letra mais legível
 As frazes que p’r’aqui lancei a rodo;
 Se guardára p’r’o dia o copial-as ,
 Tentára corrigir as graves faltas;
 E, como não podesse conseguil-o,
 Resolvera, talvez, em não mandar-t’-as. (Texto integral)

 

- José Evaristo d'Almeida

 

Lisboa, 25 de Fevereiro de 1852

  

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1 comentário

De Anónimo a 27.06.2014 às 04:07

Para quem gosta de poesia:
http://carrovazio.blogspot.pt



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