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PR no Dia Nacional da Cultura

Brito-Semedo, 19 Out 13

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Jorge Carlos Fonseca. Foto Presidência da República
 

Os cabo-verdianos construíram a sua identidade ao longo de séculos de luta permanente contra as adversidades da natureza, contra a incúria dos poderes coloniais, remando sempre contra a maré e contra os ventos poderosos da desdita e do esquecimento.

 
A Cultura, a nossa segunda natureza, contém essa difícil relação com um meio, muito difícil, por vezes hostil, mas, igualmente, com a nossa capacidade de criar, de engendrar o Belo, na música, na poesia, na dança, na ficção, nas artes cénicas, nas artes plásticas, num processo claro de humanização.

 
A nossa língua, o nosso modo de ser, a nossa forma de amar, de criar, a nossa Cultura, consubstanciam, são, pode dizer-se, nossa Pátria. Os seus alicerces são o nosso chão, as nossas ilhas. Mas a Cultura as transcendeu, dando à Pátria uma dimensão quase infinita, ultrapassando a limitação física, engendrando uma mesma alma em seres que nunca pisaram o solo que a originou. 

 
Assim, continuamos a ser nós, a principal riqueza de Cabo Verde, nós, mulheres e homens deste querido torrão - ainda que nem sempre tenhamos o nosso umbigo nele enterrado - com a nossa marca singular.

 

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Eugénio Tavares, Patrono do Dia Nacional da Cultura e das Comunidades. Retrato de Sai Rodrigues

 

A Cultura é, pois, a alma de um povo, a sua marca, seu selo, sua condição de sucesso. Por isso, no Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, mister se torna reforçar as mensagens que tenho transmitido, a saber:

  • Os responsáveis pela criação e divulgação da nossa Cultura, no arquipélago e na diáspora, devem reforçar a mensagem de, sem qualquer tipo de interferência na liberdade criativa, engajamento e comprometimento com uma maior integração entre todos, sem nunca abdicar da perspectiva universal que a Cultura deve conter.
  • Um maior intercâmbio dos produtores de cultura residentes no arquipélago com os estão na diáspora só poderá se redundar em reforço da qualidade e diversidade das nossas manifestações culturais.
  • Uma maior, e mais livre circulação, dos nossos artistas e artesãos pelos territórios da Comunidade dos POVOS de Língua Portuguesa, um velho sonho dos nossos artistas, precisa ser equacionado, integrado e levado a cabo na agenda da CPLP.
  • A criação sistemática de condições objectivas (físicas, organizativas, de ensino e legais) e de incentivos que permitam aos criadores desenvolveram a sua arte com liberdade absoluta.
  • É fundamental que os criadores tenham todo o protagonismo na promoção e divulgação da arte, evitando-se a tentação no sentido da manipulação desta nobre actividade para fins que lhe são estranhos.

Gostaria de saudar a recente criação da Academia Cabo-verdiana de Letras, instituição congregadora dos escritores do país que, na linha dos nomes sonantes da nossa literatura, pretende honrar, perpetuar e desenvolver uma das áreas através da qual o génio criador do cabo-verdiano mais se tem concretizado.

 
Neste dia de hoje – 18 de Outubro – instituído como o Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, em que a Nação Cabo-verdiana prestigia e dignifica a sua cultura e homenageia, também, um distinto e nobre filho destas ilhas - Eugénio Tavares - nascido neste dia, em 1867, permitam-me honrar a memória e recordar este nome marcante da nossa história cultural, jornalista, dramaturgo, pensador, ficcionista e poeta, funcionário público e político destemido, activista cívico e cultural, um dos maiores compositores da morna e grande intérprete da alma cabo-verdiana, em toda a sua grandeza, contribuindo, de forma multifacetada e decisiva, para uma identidade muito própria enquanto povo ilhéu.

 
Permitam-me, igualmente, recordar, de forma saudosa, três nomes sonantes da nossa cultura – Cesária Évora, Bana e Sema Lopi - três ilustres filhos deste torrão que, recentemente, nos deixaram fisicamente, mas, porque encarnaram valores essenciais da nossa identidade cultural, serão sempre lembrados, honrados, perpetuados e cantados.

 

A trajectória destas ilustres figuras da nossa Cultura deve servir de inspiração na importante e complexa caminhada que visa o reconhecimento da Morna como Património Imaterial da Humanidade.

 
Aos nossos jovens, no país e na diáspora, costumo pedir que, inspirados nos grandes exemplos e modelos de homens e mulheres cabo-verdianos, participem e ajudem a moldar a nossa alma, a alma do cabo-verdiano, que não fenece, não desaparece, não morre; que ponham toda a sua inteligência, criatividade e irreverência, ao serviço da nossa terra, levantando-a e elevando-a aos céus, a roçar o infinito.

 
O Dia 18 de Outubro – Dia Nacional da Cultura e das Comunidades - é também o momento de lembrar, com carinho e gratidão, as nossas Comunidades, espalhadas pelos quatro cantos do mundo, e reconhecer o papel de extrema importância que a diáspora cabo-verdiana tem desempenhado na afirmação da independência, no desenvolvimento de Cabo Verde, na construção da nossa democracia, e na perenização da nossa cultura.

 
No dia de hoje, em particular, devemos lembrar a dimensão cultural da nossa comunidade diaspórica que, mesmo longe, conserva as tradições mais vivas e fecundas herdadas da terra natal. Mantidas, quase intactas e orgulhosamente, na alma dos que partem, as comunidades cabo-verdianas fora do país têm muito contribuído para a garantia do sentido de pertença e de identidade da nossa Nação.

 

Esta parcela da nação cabo-verdiana está e estará sempre no centro das atenções do Presidente da República, traduzidas, primeiramente, numa actuação que promova o reforço do seu sentimento de pertença a esta Nação, através do estímulo a acções que tenham em vista o recorte da identidade cultural e a ampliação da sua participação política.

 
A integração das nossas comunidades nos países de acolhimento tem sido uma das minhas prioridades. Continuarei a exercer a minha magistratura de influência nessa direcção, concedendo uma atenção particular a comunidades que se encontram em situação especialmente precária.

 

No dia em que celebramos a nossa Cultura, cimento que une os cabo-verdianos residentes e os da diáspora, retomo extracto de uma mensagem à Nação que traduz o meu sentimento, profundo e verdadeiro, enquanto cidadão orgulhoso de ser cabo-verdiano e de partilhar a identidade e a alma que nos molda como Povo: «Renovo a minha grande confiança na capacidade e na tenacidade com que mulheres e homens, nas queridas ilhas e na diáspora, engrandecem, no seu dia-a-dia, esta Pátria de Cabral, de canizado e bandeiras, de Eugénio Tavares e Cesária Évora, de pedaços do universo muitos, da morna e do funaná, de B.Leza, de poesia e dança, de claridade e bruma, de teatro e de Ildo Lobo, de Sema Lopi, de Baltazar Lopes e Bana, de caras e sorrisos vastos e lindos, de Arménio Vieira e de muitas cores, de enormes e misteriosos mares, de Travadinha, de Bibinha Cabral e de Djidjinho, mas também de crenças, revoltas e volúveis montanhas, castanhas, roxas, verdes, esta Pátria de esperança e de fundo azul a bordejar o devir colectivo. Em Sal-Rei, em Brockton, na Ribeira de Craquinha, na Buraca e no Príncipe, na Cova de Joana e Achada Lagoa, no Morrinho, em Ponta Verde e Ponta do Sol, na Covoada e em S. Paulo, onde quer que haja a inscrição do nome, onde se vislumbrar um pedaço de Cabo Verde.»

 

Fonte: Presidência da República

 

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2 comentários

De Adriano Miranda Lima a 19.10.2013 às 13:23


Belas palavras, estas do nosso Presidente. Portadoras de estimulantes mensagens e carregadas de poesia, eis um discurso ajustado para este dia de celebração. Palavras que são um incitamento à união de todos os protagonistas e intérpretes  da nossa Cultura e também à aproximação de todos, independentemente do tempo e do espaço da sua  notabilização, tudo isso em ordem ao enriquecimento do concreto da nossa Cultura, que assim se fortalece na riqueza de cada uma das suas variantes. Gostei imenso.

De Joaquim ALMEIDA a 19.10.2013 às 19:23

Nesse Dia Nacional da Cultura e das Comunidades , nesta mensagem do Presidente da Répùblica , orgulhosamente me sinto integrado . Existe vàrias maneiras de se sentirmos recompensados pelo o nosso contributo , em prol da cultura do nosso pais e esta mensagem do Presidente , na minha opiniao , é das melhores das recompensas !..
Um Criol na Frânça ;
Morgadinho ;  

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