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João Manuel Varela ou João Vário

Brito-Semedo, 20 Nov 13

 

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No Dia da Universidade de  Cabo Verde (21.Nov.2008 - 21.Nov.2013), uma singela Homenagem ao Professor Titular de Citologia e Fisiologia Celular no Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar (ISECMAR), JOÃO MANUEL VARELA, um dos mais ilustres cabo-verdianos e um dos seus maiores escritores e da literatura contemporânea em língua portuguesa.

 

 

Escrevo assim porque não posso escrever doutra maneira. A estrutura da minha inteligência, da minha memória e da minha sensibilidade […] fazem-me uma leitura do mundo e de mim que não é simples.” – T. T. Tiofe, 1974

 


João Manuel Varela (Mindelo, 07.Junho.1937 – 07.Agosto.2007) foi médico, neurocientista e investigador de renome internacional, com destaque para a descoberta de uma síndrome anatomoclínico, agora conhecido por Síndrome de Varela, e Professor Universitário. Regressado à sua ilha natal da Micadanaia, em 1998, após 42 anos na diáspora, 10 dos quais na situação de exilado político, onde fez doutoramento e agregação na Universidade de Antuérpia (Bélgica), faleceu em Agosto de 2007, aos setenta anos.

 

Professor Titular de Citologia e Fisiologia Celular no Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar (ISECMAR), João Manuel Varela foi um dos mais ilustres cabo-verdianos e um dos seus maiores escritores e da literatura contemporânea em língua portuguesa.

 

John ou Geunzim d’Didial, de seu nome próprio João Manuel Varela, filho de Notcha e Bia de Didial, é um escritor cabo-verdiano único e completo que se tresdobra em João VÁRIO (poética ontológica) – heterónimo que terá nascido em 1959 e que, pela sua força e originalidade de escrita, lhe roubou a identidade de cidadão e cientista – Timóteo TIO TIOFE (poética enraizada e voltada para as ilhas), criado em 1961; e G. T. DIDIAL (ficção filosofico-metafísica), heterónimo que terá sido criado na década de 80.

 

 

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A sua obra literária, muito complexa e, por isso mesmo, pouco conhecida ou estudada, é constituída por Exemplos, livros 1-9, reunidos em 2000, S. Vicente, faltando publicar os números 10 (European Example), 11 (American Example) e 12 (Exemplo Cheio), assinados por João Vário; Os Livros de Notcha (o primeiro, saído em 1975, o segundo em 2001 e o terceiro com publicação anunciada), S. Vicente, por Timóteo Tio Tiofe; O Estado Impenitente da Fragilidade (1989) e Contos de Macaronésia (vol. I, 1992; vol. II, 1999), S. Vicente, por G. T. Didial. 

 

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João Manuel Varela chegou ainda a prometer Sturiadas, um livro épico sobre a África, e O Acaso e o Espírito, uma compilação dos seus diversos ensaios editados em revistas e jornais nacionais e estrangeiros, e a anunciar como próximas publicações, Epístolas ao Meu Irmão António e Dandanarias (Crónicas).

 

Em O Primeiro Livro de Notcha, Varela justifica assim o surgimento de Timóteo Tio Tiofe: “Até agora tenho publicado […] sob o pseudónimo de João Vário, uma poesia que nada tem que ver com os problemas específicos de Cabo Verde. Era natural que, homem destas terras, um dia me voltasse para os seus problemas, as suas aspirações, e que tentasse dizê-las em poesia. […] Como se trata de uma linguagem de algum modo diferente […] da que persigo em Exemplos, estimei que devia utilizar um outro pseudónimo”.

 

De facto, a construção desta obra representa um esforço consciente de construção de uma linguagem poética que rompesse com a linguagem que fizera época – “Possuímos um antepassado de valor, Jorge Barbosa. Precisamos ultrapassá-lo para fazer progredir a poesia do nosso país”.


Do ponto de vista temático, esse primeiro livro, que está organizado segundo a estrutura do poema épico – Proposição, Dedicatória, Invocação e Narração – “tenta integrar ou introduzir Cabo Verde no discurso poético [...] dentro dos quadros do continente a que pertence – a África”.

 

O primeiro livro ocupa-se da ilha de S. Vicente e a formação geral de Cabo Verde, enquanto o segundo se debruça sobre a construção do Estado independente e soberano e ainda sobre as ilhas de Santiago, S. Nicolau e Sal, ficando para um terceiro livro as demais ilhas, completando (?!), assim, o projecto de Tio Tiofe de exaltar o povo de Notcha.

 

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O romance O Estado Impenitente da Fragilidade e a colectânea de Contos da Macaronésia, de G. T. Didial, apresentam, por sua vez, uma perspectiva filosófico-metafísica nova na literatura cabo-verdiana, que consiste numa rotura em relação a tudo quanto se fizera até então.

 

G. T. Didial, o “heterónimo ficcional” de João Manuel Varela, confirma-se, com esse tipo de ficção, ser a projecção dos “heterónimos poéticos” ao abordar os mesmos temas de tipo ontológico dos Exemplos, de João Vário, e ao aproximar-se da poesia narrativa dos Livros de Notcha, de Timóteo Tio Tiofe.

 

Para além dessa sua actividade literária diversificada, o PROF. JOÃO MANUEL VARELA foi dinamizador e coordenador da revista Anais (Mindelo, 1999-2001), onde foram publicados artigos da sua autoria que são referências para a história do ensino, da universidade pública e da investigação em Cabo Verde.

 

 
 

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1 comentário

De Adriano Miranda Lima a 21.11.2013 às 13:36


Não há dúvida de que este nosso ilustre conterrâneo soube, como poucos, carrear honra e prestígio para Cabo Verde. Aprecio a sua poesia e acho que urge estudá-la com a devida profundidade, e  por quem está à altura de o fazer de mente livre e sem preconceitos de qualquer espécie.

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    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

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