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Na América Cabo-Verdiana

Brito-Semedo, 27 Nov 13

 

O historial de crimes de e contra cabo-verdianos nos Estados Unidos da América é longo, na exacta relação do seu número com a antiguidade da secular permanência de gente do arquipélago naquele país. Temos vasculhado milhares e milhares de páginas de jornais portugueses, americanos e americanos de língua portuguesa e, embora sem conhecermos estudos científicos ou estatísticas que o provem, a nossa nítida sensação é a de que a comunidade cabo-verdiana não tem sido nem mais nem menos protagonista ou vítima de crimes que as restantes – incluindo, até 1975, data limite das nossas investigações, a açoriana, por exemplo. Deles, nalguns casos bem risíveis como o primeiro que relatamos, resolvemos fazer curta selecção para a presente Crónica do Norte Atlântico – quase todos do século XIX, excepto os dois últimos, já do XX.


Uma bofetada por mais de 100 dólares

 

Que relação teria Luísa Gonçalves com Salomão Gomes, ambos cabo-verdianos residentes em New Bedford, Mass., não o sabemos. Nem sequer que malfeitoria este lhe fez para ela assim reagir. O que é verdade é que a dita mulher, lá pelos finais do século XIX, pregou no indivíduo valente estalada. Claro que sofreu as devidas consequências jurídicas. Feita queixa pelo Salomão e ouvidas as partes em tribunal, o juiz aplicou à agressora 100 dólares de multa e pagamento de custas. Ainda assim, retirou-se a Luísa satisfeita, segundo parece, como rezava O Progresso Californiense, em 1885.


Tentativa de suicídio

 

O Benjamin Rose , cabo-verdiano morador numa casa de pasto situada na South Water St., 65, New Bedford, tinha mulher e filhos nas ilhas. Era homem honesto e essa sua qualidade quase lhe ia sendo fatal. Um patrício e companheiro de hospedaria acusou-o do roubo de dez dólares que lhe tinham faltado. Incapaz de provar a sua inocência, a 10 de Janeiro de 1886 o Rose pegou na navalha de barba e tentou degolar-se, fazendo um lanho no pescoço, da orelha à garganta. Milagrosamente, não atingiu nenhuma artéria e tratado no St. Luke’s Hospital ficou livre de perigo .


Quase bigamia

 

Mais ou menos pela mesma altura do sucesso anterior, a 20 de Janeiro, Maria Lopes, que coabitava com Manuel Santiago, na cidade de que temos vindo a falar, fez queixa deste porque descobriu que ele era casado com uma mulher "esquecida" na ilha Brava. Em dois anos de vida em conjunto, Manuel e Maria haviam tido duas crianças. O caso seria julgado no Março seguinte.


Um caso de adultério

 

O Progresso Californiense relatava em Fevereiro de 1886  a notícia do seu colega Standard, de New Bedford, sobre um indivíduo, provenientes de Cape Cod, que ali tinha chegado. Na cidade tinha mulher, à qual fora enviando dinheiro, enquanto estivera fora. Contudo, ao invés do que seria de esperar, dirigiu-se não à sua residência mas ao escritório de um advogado, para lhe contar que lhe haviam dito que a companheira mantinha relações ilícitas com outro fulano. O causídico foi então ter com o chefe da polícia que pôs à disposição de ambos um agente para os acompanhar a casa da dita mulher, em South Water St., por volta da meia-noite do dia 2. Quando estavam a chegar ao local, surgiu a dita que entrou para casa, acompanhada por um sujeito. Sem serem vistos por ela, e depois de uma conversa entre si, os homens retiraram-se e voltaram daí a três horas, de forma a obterem uma situação de flagrante delito. Foi então que o suposto marido traído avançou de rompante, arrombou a porta da casa e entrou nela, disposto a fazer justiça pelas próprias mãos. Mas, para seu espanto, apenas a esposa ocupava o leito conjugal. O "outro", dormia num quarto contíguo. O PC diz ainda que todos eram portugueses mas não a exacta origem…


Por isso, só se consegue saber que eram cabo-verdianos em notícia de 6 de Março  reportada a 13 de Fevereiro, dia em que se realizou o julgamento em audiência policial de José Ferminio (Firmino?) e Amélia S. Fernandes, acusados de adultério pelo marido desta, Manuel Fernandes. Dados os acontecimentos como provados, o juiz mandou subir o caso a instâncias superiores e exigiu uma fiança de 300 dólares para os acusados poderem entretanto permanecer em liberdade.


Morte de criança numa casa de pasto

 

Na América também havia cabo-verdianos proprietários de estabelecimentos de restauração, como os pais da pequena Ida Mendes, de ano e meio, filha de José Mendes, falecida em 15 de Fevereiro de 1886, na casa de pasto da família, em Newland St., NB, que teve enterro concorrido.


Tuberculose nas minas

 

Em Maio de 1887, O Progresso Californiense  dava a conhecer que em Austin, Nevada, o mineiro Manuel da Cruz falecera de tísica. Era cabo-verdiano e possuía familiares na zona. Aqui temos mais um caso de natural das ilhas que também trabalhava fora do circuito dos portos, da pesca da baleia e da apanha de bagas.


O infortúnio de morrer da cura

 

Por Setembro de 1919, o cabo-verdiano Domingos Dias, de 37 anos, morador em Elm St., East Wareham, Mass., andava com problemas de coração. Foi ao médico e este recomendou-lhe que tomasse determinadas pastilhas, de três em três horas. E ele cumpriu de facto as recomendações do clínico, durante o dia, de modo que à noite sentia-se quase refeito da maleita. Por isso, não esteve com meias medidas e resolveu tomar ao mesmo tempo uma remessa de drageias, para melhorar mais rapidamente. Acontece que já não acordou. Morrera da cura. Deixou esposa e três filhos. Havia poucos anos que estavam nos States .


15 anos de prisão para um assassino

 

Martin J. Walsh tinha 20 anos de idade quando foi condenado a 15 de cadeia, que teria de cumprir na prisão do estado de Massachusetts. Para além de já ser desertor do exército, matara com requintes de extrema malvadez o cabo-verdiano Joaquim L. Monteiro, de 47 anos. O crime teve lugar a 7 de Maio de 1941, numa casa de hóspedes de que o homicida era proprietário, no sul da cidade de Boston. Para a concretização do lamentável feito, Walsh utilizou primeiro um ferro de engomar e depois recorreu ao afogamento do Joaquim Monteiro. Insatisfeito, ainda subtraiu à vítima 10 dólares. A notícia não indica os motivos do delito mas podemos supor que o que o provocou terá sido eventual atraso no pagamento da acomodação. De qualquer modo, o assassino foi apanhado, considerou-se responsável pelo acto perante o juiz do Supremo Tribunal Lewis Goldberg, teve julgamento e consequente castigo. A lei funcionou e Joaquim Monteiro, um estrangeiro de origem cabo-verdiana, foi vingado. A América aqui, no verdadeiro sentido da expressão, esteve "no seu melhor".

 

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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