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Pa Lela Bai Pa Terra Longe

Brito-Semedo, 18 Mar 10

 

Pa Lela.jpeg

 

 

Em Saudação ao Dia do Pai

 

  

É verdade que escondemos o quanto existe em nós de ruim (não é isso que leva ao jogo permanente do ser e do parecer?!) e não é menos certo que escondemos também tudo o que existe em nós de bom: a ternura, o encantamento, o agrado em ver, em acariciar, em cooperar, a gentileza, a alegria, o romantismo, a poesia, sobretudo o brincar com o outro. Tudo tem que ser sério, respeitável, comedido, fúnebre, chato, restritivo, contido.  

 

Eu ia pensando nisso, que lera algures, enquanto fazia a viagem de mais de duas horas de ônibus para ir cumprimentar um casal patrício muito amigo que vivia em São José dos Campos, no interior do Estado de S. Paulo, Brasil, que eu não via fazia largos anos, a D. Piedadinha e o Nhô Lela Miranda.

 

Era a minha primeira incursão fora da cidade de S. Paulo, de modo que levava comigo o elemento surpresa e, no bolso, o nome da rua, mas sem o número da porta (falha grave, só entendível para pessoas de meios pequenos).

 

Foto de autor desconhecido. Fonte, Google

 

Farrapos das minhas memórias de infância chegam-me de quase três décadas atrás (estávamos em 1990!).

 

O camião Thames Trader acabara de sair da Alfândega com a matrícula CVB 418 e de fazer a rodagem. À tarde, depois da escola, eu esperava Pa Lela, a forma carinhosa como o tratava, junto à porta de casa, para ir com ele à pedreira, procurando o prazer de passear de carro e me sentir importante.

 

Enquanto os trabalhadores carregavam o camião com enormes pedregulhos, eu ia sentar-me no lugar do chauffeur e Pa Lela deixava-me “guiar” o carro parado, não sem muitas recomendações para não mexer nas alavancas nem nos pedais. De tanto observar, acabei por aprender a conduzir e viria a mostar isso ao Pa Lela quando lhe ia lavar o Fiat, o automóvel adquirido para o filho, o Gaia, e ele me surpreendeu na operação, sob o pretexto de o estar a mudar para um lugar mais à sombra.

 

Aos domingos de manhã, a minha satisfação era ajudar na limpeza e na lubrificação do Thames e servir de guarda às ferramentas.

 

Foto de autor desconhecido. Fonte, Google

 

Nas nossas descobertas de adolescência, eu e o Zé Lino de Nha Regina, um dos meus melhores amigos e colega de infância – o único com quem não andava à pancada, enquanto com os outros, como o André de Nhô Guste e o Calutcha de Nha Maia, era praticamente todos os dias – regressados da matinée do Cinema Eden Park ou do Cine Mira-Mar, postávamo-nos junto à esquina da casa de Nhô Lela Miranda, a meio caminho das nossas casas, próximo da janela do quarto do casal, e conversávamos sobre os nossos “problemas existenciais”.

 

Às tantas, a D. Piedadinha (Dade para mim) dizia-nos lá de dentro:

 

– Meninos, já falaram muito. Agora já chega. Vão dormir, porque amanhã é dia de serviço e Pa Lela tem de se levantar cedo. 

 

Era eu o menino querido e de confiança do Pa Lela e que lhe fazia os recados, incluindo a entrega e a cobrança das facturas de fornecimento do material de construção – pedra, cascalho e areia – fornecido durante a semana. Era a época do boom da construção civil dos anos sessenta, sobretudo pelos emigrantes da Holanda.

 

Muito mais tarde, aquando das pesquisas para a minha tese de doutoramento e ao explicar ao escritor Henrique Teixeira de Sousa quem eu era e que o conhecia dessa altura e pela via do Nhô Lela Miranda, ele encarou-me de frente e disse-me:

 

– Para aquele menino, chegou longe!

 

Ao finzinho da tarde, era certo e sabido que eu devia ir à “Alegria do Cruzeiro”, na Rua de Coco, comprar aquele groguinho bom da Nha Nizinha, que o Pa Léla tanto apreciava. Eu ia num pé e voltava no outro, normalmente comendo um dos pastéis de bacalhau comprado no botequim com o troco recebido pelo serviço prestado.

 

Puxei o banco e sentei-me na copa à espera que a Dade voltasse do quarto com algo que me tinha ido buscar. Disfarço a minha ansiedade olhando para o chão e conto os mosaicos. Ela chega com uma mão escondida atrás das costas e mostra-me: um relógio! Um Cauny, de mostrador rectangular e bracelete castanha!

 

É para ti, Manecas, disse-me ela, tens é de o levar à Morada, ao Sr. Vicente Ourives, para ele lhe dar um banho e lhe fazer uma limpeza, porque está parado há muito tempo!

 

São José dos Campos, Grande São Paulo, Brasil

 

Volto à realidade. No ônibus indicam-me o “ponto” mais próximo da rua pretendida e, surpresa das surpresas, olho para fora e vejo o Pa Léla a vir na minha direcção! Ele continuava um homem seco, parecia-me mais pequenino e estava gasto, muito mais velho (pudera!), mas continuava a trabalhar como “vidraceiro” e, sobretudo, estava lúcido.

  

Quando me dirigi a ele, não me reconheceu. Tratou-me por “senhor”, com o que me comovi. Em casa repetiu-se a cena com a Dade. A alegria do encontro foi tamanha, que a Dade não cessava de chorar e ia repetindo que a Sagrada Família, de que ela era devota, é que me tinha conduzido até eles.

 

Durante duas horas falei-lhes de Cabo Verde, de S. Vicente, da nossa Chã de Cemitério. Perguntaram-me por pessoas que não viam desde 1975, muitas delas já falecidas. Queriam saber como estava Cabo Verde, falaram-me das suas muitas saudades e de como gostariam de regressar para morrer na sua terra.

 

Saí com os olhos a boiar em lágrimas, mas feliz pelo encontro e pelo agrado da minha visita, ciente de que os não voltaria a ver de novo.

 

Dois meses depois, recebi a notícia de que o Pa Lela fora atropelado e tinha morrido na decorrência. Parecia ironia do destino. Ele, que toda a vida tinha sido um motorista tão prudente! A Dade, que já estava bastante doente, não aguentou a perda do marido e morreu logo após, lá na Terra Longe.

 

- M. Brito-Semedo

 

 

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5 comentários

De Valdemar Pereira a 19.04.2011 às 21:17

   "O senhor Manuel Joaquim Silva me apoiou incondicionalmente na resolução de um problema pessoal quando tive de sair de Cabo Verde. "O gesto de amizade e des solidariedade deste senhor jamais o esquecerei. Recordo-o com imensa saudade e apreço na fotografia que deixo como testemunho da minha grande consideração" (in "O teatro é uma Paixão... pàg. 30)
Como vês, o teu Palela também mereceu a minha homenagem pela amizade que me deu. Sem a sua intervenção não saia de S.Vicente no dia em que decidi sair.

Felicito-me porque nunca devemos esquecer quem nos fez bem.
V/

De Brito-Semedo a 20.06.2011 às 16:51

Caro Amigo, Volto ao seu comentário para solicitar a foto do Pa Léla que tem no seu livro e a que faz referência neste seu comentário. Faz falta aqui para ficar no arquivo do "Na Esquina do Tempo". Já agora e se não for pedir muito, também dava jeito umas fotos do Club Castilho para exibir noutro espaço deste blog. Braça grande!

De Valdemar Pereira a 20.06.2011 às 17:53


Meu Caro Amigo: - Como lhe disse, o meu livro não devia ser auto-biográfico, não fosse uma sugestão do meu muito Amigo Joaquim Saial e "insistências" de quem considero um irmão mais novo, Adriano Miranda Lima, que teve relevante trabalho no meu livro. (Para mim é sempre gratificante reconhecer o bem que me fazem).

Assim, quando foi decidido relatar assuntos extra-teatro pus-me em marcha na busca de elementos faltantes (sonegados por comando designado por um chefe). Foi assim que recorri ao teu primo Edgar Silva (em S.Paulo) para obter (via net) a foto do que foi meu amigo, sr. Lela Miranda.

Estando presentemente fora, procederei logo que possível à busca de algumas fotos que estão algures em lugar desconhecido, para as oferecer ao Mindelact (se estiver sediado no Mindelo), aos arquivos implacáveis de Praia de Bote (Djack de Capitania) e, agora, para o teu encicopédico blog.

Só não avanço qualquer data, repito, por estar ausente por tempo indeterminado.

Um monzada e um braça de nôs manera

Valdemar

De Valdemar Pereira a 22.07.2011 às 11:15

Todos os dias são Dias dos Pais e, como os nossos estão noutra esfera, recordá-los  é a forma do os Homenagear.
Portanto, é sempre com emoção que volto - mais uma vez - a este sitio para falar do sr. Lela pela ajudinha que deu e que foi Grande.
A ideia de me assinalar este sitio saiu como anel para um dedo porque pensava em que lugar havia de escrever algo, sucedido hà dois dias, relativo a este assunto. E este lugar veio mesmo a preceito:
- Na passada quarta-feira (20/7/2011) foi a enterrar Guilherme Lima (Godja), emigrante que viveu muitos anos em Rotterdam. Como não podia deixar de ser, no funeral, encontrei muitos patricios que não via havia muitos anos, um deles desde 1954, data da minha saida de Cabo Verde.
Ali também encontrei alguém que comigo viajou no mesmo barco, que obteve (gratuitamente) o meu livro, fez critica cerrada mas... ainda não o leu pois avançou algo que provou a sua imprudência (não dio mà fé) que fui sem pagar a minha viagem.
Se tivesse visitado, ao menos, o capitulo relativo à nossa saida, ele teria visto que sai precisamente com a ajuda do sr. Lela Miranda, que paguei o mesmo preço que os outros, viajei no camarote do motorista (não no porão como essa pessoa) e que fui "responsàvel" de um incidente que nos deixou dois dias à deriva em pleno Atlântico: - Ofereci (ainda por cima) um litro de whisky velho ao amigo de sr. Lela que o bebeu de uma so vez, dormiu e deixou gripar o motor do barquinho.
Falar sim, mas com argumentos e quando se tem a certeza do que se diz. Mas isto não é apanàgio de invejosos que disfarçam e inventam estôrias e depois aplaudem.
Mesmo sem esta passagem, hoje havia de dizer em qualquer lugar:
- Obrigado, Sr. Lela Miranda.

De Brito-Semedo a 22.07.2011 às 13:07

É verdade, Amigo, "N bxcá N uví ! Eu ouvi o que Gaia, Caluta , Armando, Calazans , Timóteo, Djack e Tá gostariam de ouvir e saber sobre o seu/meu Pa Lela . Obrigado pela partilha!
O bem que se faz fica, mesmo quando já não existimos e a boa memória e o reconhecimento é prova disso.
Braça pertód !

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