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Enigmas e Maravilhas do Cérebro (1)

Brito-Semedo, 14 Dez 13

 

 - Arsénio Fermino de Pina, Pediatra cabo-verdiano e sócio honorário da Adeco (Associação da Defesa do Consumidor)

 

Nas minhas leituras encontrei referência a um Papa, cujo nome não me ocorre agora, que classificou o cérebro como “órgão perigoso”, muito provavelmente por poder levar, através das suas actividades racionais e lógicas, a duvidar da existência divina e da alma, pondo em risco a razão da existência das religiões. A curiosidade e o interesse que me despertaram as questões ligadas à mente não me levaram a optar pelas especialidades de Neurologia e Psiquiatria, não obstante ter começado, bastante cedo na minha vida universitária, a debruçar-me sobre matérias ligadas ao cérebro. A Pediatria, mais tarde, exacerbou esse interesse, mormente na compreensão do desenvolvimento psíquico e motor da criança. Muito mais tarde, já trabalhando na OMS, sofrendo menos apertos financeiros dos vencimentos praticados em dose homeopática em Cabo Verde, a minha curiosidade e interesse iam fornecendo, através de livros que já podia comprar, as descobertas e reflexões que as Neurociências e a Filosofia me podiam proporcionar, a ponto de ser animado a produzir alguns textos sobre a matéria, de divulgação e vulgarização científicas, a que dei o título de Mania de Pensar.

 

Como persiste essa mania benigna, continuo lendo e publicando artigos sobre a matéria, incluindo alguns em livros publicados e em vias de o ser, partilhando com os eventuais leitores o que de mais interessante, intrigante e desmistificador venho descobrindo. Irei partilhar convosco algumas vidas secretas do cérebro humano que nos dão uma boa perspectiva geral das suas funções e enigmas, evitando no máximo repetições de assuntos já tratados. Faço-me acompanhar do neurocientista e escritor David Eagleman, e do Professor de Neurologia, Alexandre Castro Caldas, responsáveis por estas linhas, após a leitura, respectivamente, de Incógnito, as vidas secretas do cérebro humano, e Uma visita politicamente incorrecta ao cérebro. Irei focalizar a atenção sobre a intuição, os instintos, as emoções, acções e actividades involuntárias da mente que constituem a parte submersa da mente (a Psicanálise de Freud nasceu precisamente da apreciação da profundidade do iceberg mental), sendo a consciência, as actividades voluntárias conscientes, a parte visível do iceberg mental, portanto, o pequeno cocuruto visível do iceberg. O que pretendo partilhar convosco é extremamente complexo e sumamente interessante e tentarei fazê-lo do modo mais simples e claro possível, o que me obriga a ser um tanto longo; dividirei o texto em capítulos que podem ser lidos separadamente para não cansar em demasia os leitores e permitir meditação sobre a matéria.

 

Quando Galileu descobriu com a luneta que ele próprio tinha construído, as luas de Júpiter, em 1610, os críticos religiosos repudiaram a sua nova teoria heliocêntrica (em que a Terra circula à volta do Sol e não o inverso) como uma abdicação do homem. Uns anos depois, o estudo das camadas sedimentares, por James Hutton, um simples agricultor escocês, anulou a estimativa da Igreja para a idade da Terra, revelando que o nosso planeta deveria ser oitocentas mil vezes mais antigo. Algum tempo depois, Charles Darwin reduziu os seres humanos a apenas mais um outro ramo no reino animal. No início do século XX, a Mecânica Quântica alterou irremediavelmente a nossa noção da essência da realidade. Em 1953, Francis Crick e James Watson decifraram a estrutura do ADN, substituindo o misterioso fantasma da vida por algo que podemos descrever em sequências de quatro letras e guardar num computador.

 

Como meto a Igreja nesta reola, parece-me curial esclarecer que Galileu, católico e conhecedor da Bíblia, não via incompatibilidade entre a fé e a ciência. Quando notou, numa carta à Grã-Duquesa Cristina de Lorena, consorte de Fernando I de Médici, Grão Duque da Toscânia, que “a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o Céu e não como o Céu vai”, estava a citar o cardeal César Baronius, bibliotecário do Vaticano, que tinha resolvido dessa forma o conflito entre a religião e ciência. As múltiplas contradições entre o texto da Bíblia e o conhecimento científico já tinham surgido antes e sido ultrapassadas pelos religiosos menos fundamentalistas e mais esclarecidos, obviamente por a Bíblia não poder ser levada à letra, como fizeram os cardeais à frente do Santo Ofício na condenação de Galileu e fazem hoje os criacionistas evangélicos e Testemunhas de Jeová. O criacionismo não é, evidentemente, uma ciência. Hoje, pode dizer-se que não existe nenhuma teoria científica que esteja em competição com o evolucionismo.

 

João Paulo II admitiu pubicamente, em 1992, que a condenação de Galileu pelo Tribunal da Inquisição tinha sido afinal um grande erro. Quem julga que a justiça cabo-verdiana é demasiado lenta, com montanhas de processos acumulados há tantos anos, devia considerar a justiça do Vaticano.

 

Ao longo do século passado, a neurociência mostrou que a mente consciente não é quem conduz o barco da vida. A consciência parece ser algo que define objectivos a propósito do que deve ser gravado nos circuitos neurológicos, e pouco mais faz para além disso. Os cérebros podem actuar de forma muito diferente quando são modificados por acidentes vasculares cerebrais (AVC), tumores, narcóticos ou qualquer tipo de acidentes que alterem a biologia, o seu estado físico ou químico. Isso faz abalar as nossas simples noções de culpabilidade e de livre-arbítrio, como veremos mais adiante.

 

Daqui a duzentos milhões de anos, o nosso planeta será consumido pela expansão do Sol. Afinal, como escreveu Leslie Paul, “a vida não é mais do que um fósforo aceso na escuridão e logo apagado. O resultado final […] é destituí-la completamente de sentido”, o que nos mostra a nossa insignificância no Universo. Se for crente, acreditará que isso será o Apocalipse da Bíblia, com o Juízo Final e a salvação dos bons e a punição dos maus.

 

Mas, até lá, muita água correrá sob as pontes para o mar, se não precipitarmos o fim com os danos que vimos causando à mãe-natura. Comecemos pelo princípio, antes de especulações e cogitações sobre o nosso fim. Sendo a parte submersa do iceberg mental inconsciente enorme, em comparação com a visível – consciente – a nossa atenção irá debruçar-se sobre ela.

 

Os recém-nascidos não são tábua rasa; herdam uma enorme quantidade de equipamentos destinados à resolução de problemas. Esta ideia foi esboçada por Darwin, pela primeira vez, e desenvolvida mais tarde pelo psicólogo William James no livro Princípios de Psicologia. Este conceito foi ignorado durante grande parte do século XX. Os bebés, mesmo desamparados e negligenciados, vêm ao mundo com programas neuronais especializados para raciocinar sobre objectos, números, o mundo biológico, as crenças e motivações de outros indivíduos e as interacções sociais. Por exemplo, o cérebro de um recém-nascido espera encontrar rostos: com menos de dez minutos de vida, os bebés virar-se-ão para padrões que se assemelham a rostos. Embora os bebés aprendam imitando o que os rodeia, eles não são tábuas rasas (mentes vazias). Os bebés surdos de nascença, por exemplo, palram, balbuciam como os outros, e os bebés de países diferentes produzem sons idênticos, não obstante estarem expostos a línguas bastante diversas. Isto significa que esse palreio inicial é herdado como um traço pré-estabelecido nos seres humanos; portanto, esse programa já vem pré-configurado no seu hard ware, para utilizar um termo vulgarizado pela informática. O linguista Noam Chomsky defende que os bebés já nascem com uma gramática inscrita no seu cérebro, adaptando-a conforme a língua do país onde nascem e vivem.

 

No próximo capítulo entraremos no estudo dos instintos e comportamentos automatizados. [continua]

 

S. Vicente, Junho de 2013

 

 

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1 comentário

De Izilda Amancio da Silva a 30.08.2014 às 22:59

Este assunto é importantíssimo.Precioso ...........Trabalho com crianças com disturbios de comportamento,sendo assim faz-me necessário este material.Como consigo.

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