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Enigmas e Maravilhas do Cérebro (2)

Brito-Semedo, 15 Dez 13

 

 

 - Arsénio Fermino de Pina, Pediatra cabo-verdiano e sócio honorário da Adeco (Associação da Defesa do Consumidor)

 

E os instintos, o que são? É voz corrente que os instintos são o oposto da reflexão e da aprendizagem, comportamentos complexos inatos – por não terem de ser aprendidos porque se nasce com eles. William James foi o primeiro a pôr em causa a inferioridade dos instintos, afirmando que o comportamento humano revelava uma inteligência mais flexível do que o dos outros animais precisamente por possuir mais instintos do que eles, não menos, considerando os instintos como ferramentas de reserva e, quantos mais tivermos, mais adaptáveis conseguimos ser. No seu conjunto, os instintos constituem aquilo que entendemos como natureza humana.

 

Os instintos diferem dos nossos comportamentos automatizados (andar de bicicleta, dançar, conduzir automóveis, patinar, nadar, etc.), na medida em que não tivemos de os aprender e praticar na nossa vida: herdámo-los. Os instintos representam ideias tão úteis que ficaram creditados na linguagem minúscula do ADN. Isto foi conseguido pela selecção natural ao longo de milhões de anos: aqueles que possuíam instintos que favoreciam a sobrevivência e a reprodução multiplicaram-se. A consciência não chega até aos instintos mas estes interferem com ela, quando necessário.

 

As acções instintivas mais automatizadas e que menos esforços envolvem – aqueles que exigem a mais especializada e complexa rede de circuitos neuronais – têm estado à nossa frente a guiar-nos desde sempre: a atracção sexual, a discussão, a empatia, o medo do escuro, o sentimento de ciúme, a procura da beleza, encontrar soluções, evitar o incesto, reconhecer expressões faciais. As extensas redes de neurónios que sustentam estas acções estão tão bem sintonizadas que não nos apercebemos da sua actividade habitual.

 

Quanto mais óbvia e fácil uma dada acção nos parece, mais temos de desconfiar da existência de uma densa rede de circuitos subjacentes. Vivemos no interior dos nossos instintos e, naturalmente, temos pouca percepção deles, como, por exemplo, o peixe tem da água onde vive.

 

Postas estas semente na terra, veremos, em seguida, a sua germinação, floração e frutos.

 

Falámos no capítulo anterior da atracção amorosa, mais vezes cantada pelos poetas – “o amor é fogo que arde sem se ver, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer…” de Luís de Camões – mas algo que resulta de sinais específicos que se introduzem, como uma chave numa fechadura, num soft ware neural específico. Mesmo a simpatia ou antipatia que experimentamos por alguém, logo no primeiro contacto, obedece a esse princípio. Descartes, respondendo a uma amiga intrigada com o facto da existência da antipatia ou simpatia ao primeiro contacto, respondeu-lhe que quando jovem se tinha apaixonado, pela primeira vez, por uma moça, por sinal um pouco estrábica. Pois, sempre que encontrava na sua vida alguma mulher estrábica, tinha simpatia por ela, do que se conclui que a simpatia e a antipatia à primeira vista não nascem do nada.

 

Nos outros animais a atracção amorosa, aliás, sexual, é controlada por via hormonal, através do período do cio, durante o qual há produção pela fêmea de substância química chamada feromona, a qual irá excitar a rede de neurónios do sexo e reprodução. Embora interessantes as investigações no ser humano da acção de uma hormona chamada vasopressina na atracção sexual, deixámo-la de lado para não alongar em demasia estas linhas, ainda estar na mesa de investigadores e não ter a mesma importância da feromona nos outros animais.

 

Os nossos instintos mais profundos, bem como o tipo de pensamentos que temos ou podemos ter, são inscritos na nossa maquinaria a um nível inferior, isto é, na parte mais antiga do cérebro, muitas delas comuns aos de outros animais.

 

Devem estar lembrados do escândalo havido com o actor Mel Gibson, que vociferou palavras antissemíticas ao ser multado, na Califórnia, por conduzir com excesso de velocidade e embriagado. Sóbrio, nunca ninguém o ouviu proferir palavras contra os judeus, e depois de passada a bebedeira desfez-se em desculpas, sentindo-se envergonhado. Veremos mais adiante este assunto, depois de esmiuçar alguns factores subjacentes a esse tipo de reacções.

 

Psicólogos e economistas evocam a ideia de um modelo de processo dual para explicar o comportamento humano: o cérebro apresenta dois sistemas separados: um deles é rápido e automático que age sob a superfície da consciência; o outro é lento, cognitivo e consciente. O primeiro sistema pode ser classificado de automático, implícito, intuitivo, holístico, reactivo, impulsivo; o segundo é cognitivo, sistemático, explícito, analítico, baseado em regras e reflexivo. Estes dois processos digladiam-se em permanência, como se fossem dois adversários em disputa no nosso interior.

 

Já em 1920, Freud tinha sugerido um modelo da psique individualizando três partes rivais: o id (instintivo), o ego (realista e organizado) e o superego (crítico e moralizador). Como escrevemos em Mania de Pensar, na década de 1950, o neurocientista americano Paul Mac Lean também defendeu a existência de três camadas sobrepostas, em andares, que representam fases diferentes e sucessivas do desenvolvimento evolutivo: o cérebro reptiliano (cérebro dos comportamentos de sobrevivência), o sistema límbico (das emoções), e o neocórtex (pensamento e ordem superior). Estes sistemas têm sido desacreditados pelas investigações da neurociência recentes, embora persista a ideia de os cérebros serem constituídos por subsistemas rivais em disputa ou concorrência.

 

Para simplificar as coisas, adoptemos dois termos para qualificar essa rivalidade – sistema racional e emocional. O racional interessa-se por análise das coisas do mundo exterior, enquanto o emocional controla o estado interno e se preocupa em determinar se as coisas serão boas ou más. As redes neuronais emocionais são indispensáveis para definir as suas passadas seguintes no mundo: se um robot ou zombi sem emoções deslizasse para dentro de uma sala, talvez conseguisse analisar os objectos à sua volta, mas ficaria especado de indecisão acerca do que fazer em seguida. As escolhas que ditam a prioridade de acções são determinadas pelos nossos estados internos: se, assim que alguém chega a casa, vai direito ao frigorífico, à casa de banho ou ao quarto, isso não depende dos estímulos externos da sua casa (estes não mudaram), mas dos estados internos do seu corpo (se tem fome, se necessita de fazer chichi ou de mudar de calçado por outro mais cómodo). É necessário algum equilíbrio entre os sistemas emocional e racional, e é possível que esse equilíbrio já tenha sido optimizado no cérebro humano pela selecção natural ao longo da evolução da espécie.

 

É conhecida a história de Bill Clinton com a estagiária Lewinsky, na qual Clinton preferiu pôr em risco o seu futuro optando pelo prazer do aproveitamento da oportunidade dada pela estagiária. Certamente que o leitor conhece outros casos similares em que a emoção prevaleceu sobre a razão e bom senso, com a estafada desculpa de a carne ser fraca, como costuma dizer, parodiando, o amigo do peito Neco. Uma pessoa virtuosa não é, necessariamente, uma pessoa que não tem tentações, mas sim que é capaz de resistir a tentações. Freud já observara que os argumentos que derivam do intelecto ou da moralidade são fracos quando postos em confronto com os desejos e as paixões humanas.

 

Algumas experiências em animais, em humanos e certas doenças neurológicas ajudam-nos a compreender algo do funcionamento do cérebro. Vejamos algumas para melhor entendermos o que venho relatando e relatarei a seguir. [continua]

 

S. Vicente, Junho de 2013

 

 

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