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Enigmas e Maravilhas do Cérebro (3)

Brito-Semedo, 17 Dez 13

 

 - Arsénio Fermino de Pina, Pediatra cabo-verdiano e sócio honorário da Adeco (Associação da Defesa do Consumidor)

 

Experiências em gatos e macacos de secção do corpo caloso – conjunto de fibras no meio do cérebro que ligam os dois hemisférios, direito e esquerdo – quase nada provocaram de anormal, ao contrário do que se temia. O mesmo procedimento foi realizado (1961) em doentes que sofriam de formas graves e incapacitantes de epilepsia resistente a tratamento. Mesmo com as duas metades do cérebro separadas, os doentes comportavam-se aparentemente bem: memória conservada, aprendizagem perfeita, podiam rir, dançar e divertir-se. Estes doentes, no entanto, adquirem a habilidade de fazer algo que antes não faziam nem ninguém consegue fazer: desenhar um triângulo com uma mão e, simultaneamente com a outra, um círculo. A operação levou à melhoria da epilepsia, dado que a crise começada num hemisfério não passava para o outro hemisfério devido à secção das fibras.

 

Doentes cujos hemisférios cerebrais foram separados podem abotoar com uma mão os botões da camisa e com a outra mão tentar, simultaneamente, desabotoar-se, habilidade que uma pessoa normal não consegue realizar.

 

Como a metade direita do cérebro é cópia da esquerda, é possível eliminar um hemisfério inteiro, sem consequências de maior, mas não a metade anterior ou posterior do cérebro sem causar a morte. Se se extrair um dos hemisférios a uma criança de menos de oito anos de idade, ela desenvolver-se-á normalmente, o que não acontecerá se tiver mais de oito anos, porque muitas estruturas importantes já estão definidas e a capacidade regenerativa cerebral não ser como a de certos órgãos como a pele e o fígado, embora já se tenha confirmado, ao contrário do que se pensava até há pouco tempo, que os neurónios podem multiplicar-se, isto é, há células, chamadas estaminais ou germinais, com a capacidade de se transformarem em neurónios. Podemos simplificar afirmando que temos uma região posterior do cérebro a recolher informações do mundo exterior através dos órgãos dos sentidos, e outra região anterior a decidir o que fazer com essas informações.

 

Como vimos noutros artigos, a memória dos acontecimentos do dia-a-dia é consolidada numa região do cérebro chamada hipocampo, mas, em situação de pânico, como num acidente, incêndio ou num assalto, uma outra zona – a amígdala – também guarda memórias num percurso de memória independente e secundário. Estas memórias guardadas têm uma característica especial, são difíceis de apagar e podem surgir do nada, tipo flash. Não são memórias de acontecimentos diferentes, mas de múltiplas pequenas memórias do mesmo acontecimento armazenadas. O cérebro está cheio de subsistemas mais pequenos com domínios sobrepostos e funções coincidentes.

 

Algo interessante é a biologia nunca colocar um visto num problema, nunca o declara resolvido, arrumado. Reinventa soluções em contínuo, o que é diferente da chamada inteligência artificial experimental que tem um programador-chefe que se contenta com uma boa solução e aí fica sem prever nem programar soluções B, C, ou D, à semelhança do ministro de finanças português Gaspar, que agora se viu entalado com a rejeição, pelo Tribunal Constitucional, do orçamento de Estado para 2013.

 

Vamos pôr de lado a frenologia, desenvolvida por Franz Gall, que atribuía a cada ponto e zona do cérebro uma determinada função e um rótulo no mapa das funções cerebrais, por a realidade ser outra. Bem poucas funções têm uma única localização, como a da fala, escrita e leitura – centro de Broca – situadas no pé da terceira circunvolução frontal esquerda. Por isso é que os AVC que dão paralisia à direita se acompanham da anulação dessas faculdades – desaparecem os registos.

 

O hemisfério esquerdo actua como intérprete e vigilante, observando as acções e o comportamento do corpo e atribuindo-lhes uma narrativa coerente. O termo anosognosia descreve uma total falta de consciência de uma disfunção; um exemplo típico é um doente que nega a sua muito óbvia paralisia. Os pacientes não estão a mentir e não são motivados por malícia ou por embaraço: a verdade é que os seus cérebros fabricam (inventam) explicações que fornecem uma narrativa coerente acerca do que está a acontecer com o corpo lesionado.

 

Já reunimos alguns dados que nos permitem compreender muita coisa do funcionamento cerebral e algo da consciência no próximo capítulo.

 

A consciência, segundo Crick e Koch, existe para controlar os sistemas “alheios” automatizados. Um sistema de sub-rotinas automatizadas que alcança um certo nível de complexidade requer um mecanismo de nível superior para permitir que as partes comuniquem entre si, distribuam reacções e atribuam poder de controlo. Tal como o aprendiz de ciclismo que se treina a equilibrar-se e a pedalar sem cair, a consciência é o director geral da aprendizagem: estabelece as linhas de orientação de nível superior e atribui novas tarefas. O director geral não precisa de compreender o soft ware usado por cada departamento da aprendizagem, nem precisa de ver os seus registos em pormenor. Os sistemas zombi – algo sujeito a comando, sem iniciativa própria – a comando exterior são peritos em resolver as tarefas aprendidas e registadas de rotina. Só quando vêem algo estranho a atravessar-se no caminho, um sinal de stop, por exemplo, que escapou à sua rotina, é que tomam consciência do que o rodeia e embatucam e não sabem como proceder.

 

Se medir o cérebro de alguém e observar muito pouca actividade durante a execução de uma tarefa – e isso poderá ser feito actualmente através de imagem de ressonância magnética funcional e outras técnicas de imagiologia modernas –, isso não significa necessariamente que essa pessoa não esteja a tentar fazer algo, mas que isso já está automatizado na sua mente após algum tempo de aprendizagem e treino. É o que acontece, por exemplo, com pessoas que aprenderam a tabuada na infância, o que é uma forma de poupança de energia cerebral e de libertação de neurónios para outras tarefas, por não terem de fazer cálculos laboriosos ou contar nos dedos. Foi, portanto, uma grande asneira a eliminação da aprendizagem da tabuada nas nossas escolas.

 

Todos nós conhecemos momentos de indecisão face a problemas ou dificuldades, mas, ao contrário de outros animais, a arbitragem humana entre programas (inexistente noutros animais) permite escapar a esse dilema e fazer uma escolha. Alguns primatas (chimpanzé, por exemplo) são também capazes de resolver alguns desses impasses, contornando os problemas, o que confirma o nosso parentesco evolutivo com eles. O director geral existente no nosso cérebro é suficientemente astucioso para nos salvar dos simples bloqueios que podem paralisar por completo outros animais.

 

Com esta compreensão do funcionamento do nosso cérebro, encararemos a questão dos segredos. O psicólogo James Pennebaker e a sua equipa descobriram que, quando as pessoas confessavam ou escreviam acerca dos seus segredos mais bem guardados, a sua saúde melhorava, diminuía o stress e sentiam um grande alívio. Aplicando a teoria das facções rivais referida atrás, uma parte do cérebro quer revelar algo, outra parte não quer. Esta contradição define o segredo, e o mal-estar que, por vezes, guardar segredos comprometedores desencadeia. O segredo é vivido ao nível da consciência porque resulta de uma realidade. Não se trata de uma rotina de sempre e, por isso, o director geral é chamado para lidar com o problema. A principal razão para não revelar um segredo é a aversão às consequências a longo prazo: um amigo poderá pensar mal de nós, uma amante ficar magoada, uma comunidade poderá pôr-nos de parte, um partido político expulsar-nos do seu quadro.

 

Já podemos entender agora a reacção do actor Mel Gibson. O álcool não é um soro da verdade. Tem, sim, tendência para fazer pender a batalha para o lado que funciona a curto prazo e de forma irreflectida. Podemos, logicamente, preocupar-nos com o lado irreflectido de alguém, mas uma vez que ele define a medida em que esse alguém é capaz de um comportamento antissocial ou perigoso. Portanto, apesar de Gibson se manifestar favorável, enquanto sóbrio, aos judeus e ser reconhecidamente progressista e anti-racista, pode-se presumir que ele é capaz de atitudes antissemíticas e racistas. Nós todos conhecemos indivíduos impecáveis quando sóbrios mas que se transformam em autênticos energúmenos quando bêbedos.


Para melhor compreendermos as funções cerebrais irei apresentar, no próximo capítulo, situações patológicas e traumáticas que afectam o cérebro. [continua]

 

S. Vicente, Junho de 2013

 

 

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