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 - Arsénio Fermino de Pina, Pediatra cabo-verdiano e sócio honorário da Adeco (Associação da Defesa do Consumidor)

 

O estudo de situações patológicas e traumáticas que afectam o cérebro ajuda-nos a compreender melhor as funções cerebrais. Eis algumas.

 

Charles Whiteman subiu ao topo da torre do último andar de uma universidade do Texas e daí liquidou, a tiro, os estudantes e turistas que avistava. Tinha sido escuteiro, fuzileiro naval, bancário e detentor de um QI elevadíssimo. Morto pela polícia durante essa tragédia, foi autopsiado; o seu cérebro continha um tumor de pequena dimensão que invadira o hipotálamo e comprimira a amígdala, regiões que regulam a emoção, sobretudo no capítulo do medo e da agressividade. Uma amiga confessou depois que, nos últimos tempos, dava a sensação de instabilidade e que estava a tentar controlar algo dentro dele. Presume-se que esse “algo” fosse a sua colecção de programas coléricos e agressivos.

 

Será que Whiteman, se não fosse morto, poderia ser considerado imputável no julgamento, tendo-se diagnosticado o tumor? Até que ponto é que uma pessoa está em falta se o seu cérebro apresenta uma lesão que não foi escolhida por ela? Afinal, não somos independentes da nossa biologia. Cadê do livre-arbítrio (a capacidade de actuação sobre as coisas do mundo por iniciativa própria) nessas situações?

 

Alex começou a ter preferências sexuais esquisitas, ao contrário da sua norma. Passou a coleccionar pornografia infantil, revistas e fotos pornográficas e a procurar prostitutas. A mulher resolveu levá-lo ao médico de família, que o encaminhou a um neurologista, tendo este descoberto, por exames complementares, que tinha um tumor cerebral no córtex frontal. Removido o tumor, Alex retomou a normalidade.

 

Quando o lobo frontal é comprometido, as vítimas ficam mais “desinibidas”, revelando a presença dos elementos mais sórdidos dos conteúdos neuronais cerebrais. Já vimos isso noutros artigos em que vos apresentei o Prof. António Damásio, mormente no livro O Erro de Decartes, com o acidente do Phideas Gage, uma jóia de homem, pacífico e moral, que se transformou num imoral, violento e malcriado após ter sofrido lesões graves no lobo frontal.

 

Já vimos em pormenor, noutros escritos meus, as funções dos lobos frontais e a sua dominância cerebral. Na depressão, por exemplo, podemos considerar que o lobo frontal se encontra em período refractário – não reage às solicitações – quando observado através de técnicas de imagens cerebrais, havendo diminuição do seu metabolismo.

 

A Doença de Huntington, em que as lesões progressivas no córtex frontal conduzem a alterações da personalidade, tais como a agressividade, a hipersexualidade, o comportamento impulsivo e a inobservância de normas sociais – que aparecem antes dos movimentos espasmódicos dos membros – é produzido – o que é excepcional - por um único gene alterado.

 

O vírus da raiva provoca na vítima hidrofobia (medo da água) e o impulso para morder. Um “simples” vírus a mudar o comportamento das pessoas!

A chamada doença das vacas loucas (D. de Creutzfeldt-Jacob) é provocada por priões – um tipo particular de proteínas - que destroem neurónios, caracterizada por desleixo do doente, apatia, irritabilidade, dificuldades na escrita, na leitura e uma desorientação em definir o que é direita e esquerda.

 

Muitos outros agentes patogénicos (tanto químicos como comportamentais) podem influenciar aquilo em que nos tornamos; entre estes, destaca-se o abuso de drogas pela mãe durante a gravidez, o stress materno e pouco peso à nascença. À medida que a criança cresce, a negligência, o abuso físico e ferimentos na cabeça podem provocar problemas no seu desenvolvimento normal. Outrossim, aquilo que temos a possibilidade de ser começa muito antes da nossa infância, isto é, na concepção. Há, portanto, genes que interferem no modo como as pessoas se comportam. Cerca de metade da população humana é portadora de genes violentos, enquanto a outra metade não é, o que torna a primeira muito mais perigosa do que a segunda metade. Este facto não isenta o criminoso da sua responsabilidade, mas é importante abrir o debate com um entendimento claro de que as pessoas têm pontos de partida na vida muito diferentes. Não são escolhas resultantes do exercício do livre-arbítrio pelos cidadãos; são as cartas que nos calham, como nos diz David Eagleman.

 

Afinal, em que medida deveríamos atribuir culpa às pessoas pelo seu diverso comportamento quando é difícil argumentar que a escolha esteve ao seu alcance? A existência de livre-arbítrio no comportamento humano não deixa de ser objecto de um longo e aceso debate, que deixamos à consciência de cada um após o conhecimento destes factos relatados pelos autores dos livros de que estamos falando, o neurocientista Eagleman, director do Laboratório de Percepção e Acção e um Projecto de Iniciativa sobre a Neurociência, e o Prof. de Neurologia Castro Caldas. O assunto não é pacífico, pois, por seu lado, o Prof. Castro Caldas acredita no livre-arbítrio, não obstante essas limitações, ao contrário de David Eagleman.

 

No Síndroma de Giles de La Tourette (em S. Vicente há um pedinte com este síndroma), por exemplo, um doente típico tem tiques: pode deitar a língua de fora, fazer caretas e chamar nomes a alguém, tudo sem escolher fazê-lo. Nesta síndroma temos o exemplo de um caso em que os sistemas zombi tomam decisões, e todos nós concordamos que o doente não é responsável disso. Esta doença foi descrita, no século XIX, a propósito de uma marquesa francesa que repetia obscenidades de forma compulsiva. Actualmente, o conceito da doença alargou-se para incluir pessoas com tiques motores. Mozart e André Malraux sofreram desta maleita. Noutras épocas e em países ainda atrasados, casos destes e até de epilepsia eram, e são considerados manifestações de possessão – pessoas possuídas por espíritos maléficos – e sujeitos a exorcismo, quando não à morte, como aconteceu com a Joana d´Arc considerada bruxa.

 

Um sonâmbulo pode matar sem ter consciência do acto, a não ser quando acorda. Estes factos convencem-nos de que tal como a pulsação cardíaca, a respiração, o pestanejar, o soluço, até a nossa maquinaria mental pode funcionar em piloto automático. Assim, convencemo-nos de que, não obstante séculos de debate, o livre-arbítrio continua a ser um problema científico aberto e relevante.

 

Como tivemos, recentemente, um crime odioso – homicídio com provável venda da carne da vítima - suspeitando-se que o criminoso é psicopata, diremos que os psicopatas não sentem ansiedade, nem medo, nem stress. Têm dificuldade em reconhecer medo ou tristeza nos rostos ou nas vozes das pessoas. A sua crueldade parece nascer da sua insensibilidade por eles ficarem literalmente indiferentes face ao sofrimento e à angústia humana. Daí o risco que a sociedade corre tendo no seu seio psicopatas, grandes dissimuladores e seres sem estado d alma. [continua]

 

S. Vicente, Junho de 2013

 

 

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