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 - Arsénio Fermino de Pina, Pediatra cabo-verdiano e sócio honorário da Adeco (Associação da Defesa do Consumidor)

 

Médicos e juristas de outrora concordaram numa distinção entre distúrbios neurológicos (problemas do cérebro) e distúrbios psiquiátricos (problemas da mente). Hoje em dia não faz sentido essa separação porque se pensa haver uma base física (biológica) para os problemas da mente. O que teria levado a essa viragem de culpa para a biologia? Talvez tenha sido a eficácia dos tratamentos farmacêuticos: a depressão costuma desaparecer com terapêutica com fluoxetina, a esquizofrenia controlada com risperidona e a mania reage ao lítio.

 

Embora as novas técnicas de imagens aplicadas ao cérebro tenham ajudado muito a compreender o seu funcionamento, devemos saber que num milímetro cúbico de tecido cerebral existem cerca de cem milhões de ligações entre neurónios, o que as novas técnicas de imagiologia ainda não conseguem visualizar. À medida que formos aperfeiçoando as técnicas de medição dos problemas cerebrais, poderemos vir a descobrir que certos tipos de mau comportamento têm uma explicação biológica importante, como aconteceu com a esquizofrenia, a epilepsia, o parkinsonismo, a depressão e a mania.

 

Como vimos noutros artigos, os lobos frontais são designados órgãos da socialização, dado que a socialização não é senão o desenvolvimento de circuitos que dominam os nossos mais básicos impulsos. A principal diferença entre o cérebro do adolescente (geralmente temerário, aventureiro, de comportamento variável) e de um adulto reside no desenvolvimento dos lobos frontais que só atingem a sua maturidade entre os 21 e 25 anos de idade. O córtex singular anterior (na parte interna do lobo frontal), por exemplo, comanda certas funções cognitivas como a antecipação da recompensa, o controlo das pulsões, a tomada de decisões, as emoções e a empatia. Uma actividade baixa dessa região aumenta a cólera, a impaciência, a excitação e a violência.

 

Já avançámos bastante e este capítulo porá fim a esta série de artigos. Começámos com Galileu, e a decifração do ADN e da base molecular da hereditariedade deram-nos a possibilidade de combater a doença de forma inconcebível há meio século.

 

Grande parte do que somos é alheia à nossa escolha ou opinião. As pulsões – impulsos irresistíveis - mais elementares estão cosidas no tecido dos circuitos neuronais e não são acessíveis à consciência. Achamos mais atraentes certas coisas do que outras e não sabemos dizer, bastas vezes, porquê.

 

Retrocedendo um tanto, direi que um terço do cérebro é dedicado à visão. As alucinações são partidas pregadas pela visão – vemos o que não existe, ao invés da ilusão em que o que falha é a interpretação do que realmente se observa. Todos nós já sofremos alucinações, e a toda a hora; não o mencionamos com receio de que nos seja diagnosticada uma doença mental. Interessante é que a consciência daquilo que nos rodeia só acontece quando o input sensorial (isto é, aquilo que nos vem dos sentidos) viola as nossas expectativas.

 

Quando o mundo é previsto com êxito, a consciência não é necessária porque o cérebro está a desempenhar bem a sua função. Por exemplo, quando aprendemos a andar de bicicleta, é necessária uma grande concentração consciente; algum tempo depois, já as nossas precisões sensitivas e motoras estão treinadas e aperfeiçoadas, e andar de bicicleta torna-se uma actividade fácil e inconsciente. Como tal, não temos consciência nem dos movimentos nem das sensações, a menos que mude alguma coisa – como, por exemplo, que haja furo num pneu. Quando novas situações violam as expectativas, a consciência intervém e o controlo interno é ajustado à situação.

 

Essa previsibilidade desenvolvida entre as nossas próprias acções e as sensações daí resultantes é o motivo pelo qual não somos capazes de fazer cócegas a nós mesmos. As outras pessoas podem fazer-nos cócegas, porque os seus gestos, para nós, não são previsíveis. Curiosamente, os esquizofrénicos conseguem fazer cócegas a si próprios, isso devido a um problema de coordenação que não permite que as suas acções motoras e sensações daí resultantes se encadeiem correctamente.

 

Chegados a este ponto, é lícito perguntar ao leitor se existirá uma alma separada da nossa biologia física, ou se seremos apenas uma rede biológica profundamente complexa que, de uma forma mecânica, produz as nossas esperanças, aspirações, sonhos, desejos, humor e paixões? Os neurocientistas apostam na última hipótese. Não o sabemos com certeza, mas casos como o de Gage, Whiteman e outros parecem sem dúvida pesar na balança. Afinal, o que somos se um simples chip instalado no cérebro é capaz de fazer-nos esquecer tudo e passar a ser diferentes?

 

Todos os fenómenos biológicos são, em última análise, físico-químicos. Apesar de conseguirmos saber cada vez mais sobre a vida, temos de concluir que falta saber muito mais. De facto, a ciência tem essa propriedade curiosa: quando se consegue responder a uma pergunta, surgem logo várias perguntas a que falta responder.

 

Não querendo avançar com especulações, deixamos aos leitores a liberdade de o fazer. Não são apenas os neurotransmissores, ou neuromodeladores e hormonas que influenciam a nossa cognição (conhecimentos) e comportamentos. Os narcóticos também o fazem apoderando-se dos circuitos, mormente os de recompensa e prazer, mas a lista de influências na nossa vida mental não se esgota na química – ela inclui igualmente as particularidades do seu sistema de circuitos. Se, por exemplo, um ataque epilético se centrar num ponto específico e particularmente delicado do lobo temporal, o doente não terá uma convulsão motora mas algo mais subtil. O efeito assemelha-se a uma convulsão cognitiva, marcada por mudança na personalidade: híper-religiosidade (obsessão com a religião e sentimento de certeza religiosa), hipergrafia (escrita profusa a respeito de uma dado assunto, geralmente de índole religiosa), falsa sensação de uma presença externa e, bastas vezes, alucinações auditivas que são atribuídas a Deus. Uma parte dos profetas, mártires e líderes que apareceram ao longo da História parece ter sofrido de epilepsia do lobo temporal, na qual incluímos Joana d´Arc. O Prof. Castro Caldas refere no seu livro ter tido um doente com esse tipo de epilepsia do lobo temporal que tinha crises complexas em que passeava pela Corte Celeste descrevendo tudo em pormenor.

 

A estimulação de uma determinada zona do lobo parietal direito, estando a pessoa acordada, dá origem precisamente à sensação de visão do próprio corpo (ou alma) a sair da pessoa.

 

A superstição é algo, praticamente normal na nossa sociedade subdesenvolvida, de conceber o mundo quando não se compreende grande coisa da física, da química, da biologia e de outros ramos da ciência que arejam e robustecem o espírito afugentando o bafio de crenças e superstições de tempos antigos em que prevalecia o obscurantismo.

 

O que quer que se passe com a nossa misteriosa existência, a conexão com a biologia é inegável. Como se pode constatar, é possível encontrar explicação biológica para factos que têm sido interpretados como resultantes de fenómenos de transcendência. As sensações de luz e visões de tuneis experimentadas por pessoas em coma ou que tiveram paragens cardíacas e foram reanimadas entram neste grupo de fenómenos.

 

A descoberta do genoma humano criou expectativas imoderadas quanto à origem e tratamento de certas doenças genéticas. Chegou-se, no entanto, à conclusão de que estas doenças, com excepção de bem poucas, são provocadas por um conjunto de genes e não de um único como, por exemplo, a D. de Huntington de que falámos atrás.

 

O hipnotismo não é um fenómeno bem compreendido ao nível do sistema nervoso; nem se compreende o motivo por que certas pessoas são mais facilmente hipnotizáveis do que outras, ou que papel pode ter a atenção ou os padrões de recompensa na explicação dos efeitos. Continua um enigma para a ciência.

 

Já dizia o grande pintor Goya, em 1799, que “o sono da razão gera monstros”, donde a necessidade de manter a razão acordada. Rabelais, esse espírito luminoso e ironicamente crítico, de quem já vos falei noutro escrito, tinha dito que “ciência sem consciência é a ruina da alma”. Ciência com consciência é ciência que não se deixa adormecer, é alma que não se deixa arruinar, como escreveram os professores Carlos Fiolhais (Física) e David Marçal (bioquímica) no delicioso livro Darwin Aos Tiros e Outras Histórias de Ciência, da Editora Gradiva.

 

É bom de ver que, se os nossos cérebros fossem suficientemente simples para serem compreendidos com facilidade, nós não seríamos suficientemente inteligentes para nos metermos a compreendê-los. Estas linhas não pretendem ser respostas, mas antes chaves para abrir portas para a reflexão, no que acompanhamos o Mestre Castro Caldas. E a reflexão ajuda a viver, a melhorar a qualidade de vida e a atrasar o envelhecimento.

 

S. Vicente, Junho de 2013

 

 

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