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Padre Cláudio Simões

Brito-Semedo, 14 Jan 14

 

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Demos com o padre alentejano Cláudio Simões pela primeira vez em Agosto de 1953, em Waterbury, Connecticut, quando a convite de antigos paroquianos seus da freguesia de N.ª Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo, e enviado pelo bispo de Cabo Verde visitava a colónia cabo-verdiana dos Estados Unidos da América. Estava então alojado em casa de um Augusto Rogério, em Seymour, no mesmo estado, e encontrava-se investido de todas as ordens pelo bispo de Hartford.

 

No dia 5 do mês seguinte, era o celebrante de uma missa na igreja de St. Francis, em Naugatuck, com desejada prática em português. Nada no entanto parecia ligar o evento a Cabo Verde, pois tratava-se de celebrar a festa de São Paio (da Torreira, Murtosa, Portugal) no Clube União Portuguesa daquela localidade americana. Mas dias depois, sabia-se através da imprensa de língua portuguesa que o padre, para além de mostrar no dito clube um filme sobre o encerramento do Ano Santo em Fátima, projectou outro sobre as últimas erupções do vulcão do Fogo.

 

A 10 de Outubro, por intermédio do Diário de Notícias de New Bedford, o sacerdote apelava à comparência da população de Waterbury e arredores na missa que iria oficiar a 19, pelas 15 horas, na Community House situada no 34 da Hopkins St.. Ali realizaria uma palestra e exibiria os mesmos filmes que mostrara em Naugatuck, perante uma audiência de 150 pessoas e o mayor da cidade, Ray Snyder.

 

Demorando-se nos Estados Unidos da América, em princípios de Dezembro o padre Simões era referenciado entre a comunidade cabo-verdiana de Newport, R.I. No Clube Social Cabo-Verdiano, situado na West Broadway, mais uma vez falou de religião e mostrou os filmes que tinha trazido consigo, desta feita também de danças populares cabo-verdianas e de fados de Portugal, para além dos habituais dedicados a N.ª Sr.ª de Fátima. Enquanto isso, realizava outras actividades de âmbito social, como a que teve lugar na Associação de Veteranos de Guerras Estrangeiras na Purchase St., 561, New Bedford, a favor do fundo da Bolsa Escolar em Memória dos Homens do Mar.

 

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No Janeiro seguinte, o sacerdote continua a sua tarefa de mostrar entre os cabo-verdianos da América os filmes de que temos vindo a falar. Por notícia do dia 8 , ficamos a saber que "entre as danças regionais portuguesas, incluindo as cabo-verdianas" havia "típicas mornas". Desta feita, o local escolhido para a apresentação era o Verdean Hall  de New Bedford e a ela podiam assistir todos os portugueses "sem distinção de naturalidade".

 

Entretanto, o missionário ia sendo convidado para outras actividades de cariz religioso e social, como a da tomada de posse da nova direcção do clube da igreja de N.ª Sr.ª da Assunção de New Bedford presidida pelo pároco residente Edmond Francis mas à qual Cláudio Simões deu o brilhantismo da sua reconhecida capacidade oratória.

 

Em meados de Julho, está em Providence, R.I.. Aí, um grupo de senhoras do Portuguese Women's Club do International Institute, em Jackson St., entregou-lhe 40 dólares, resultantes de um sarau dançante realizado no "The Farms" de Warwick destinado a obras caritativas do arquipélago de Cabo Verde. E pouco depois encontramo-lo em Valley Falls, durante as comemorações da primeira festa do Dia do Penalvense , no Szpila's Grove, parque da cidade. Aí, exibe uma outra faceta que completa a de conceituado orador: canta "Coimbra", "Santa Luzia", "Avé Maria" e outras canções que deixam "toda a gente profundamente sensibilizada". E é apresentado como missionário na ilha do Fogo, Cabo Verde, com "bela voz de cantor profissional".

 

Em Maio de 1955 o padre Simões volta a Cabo Verde, após a longa estada por terras do Tio Sam que compreendeu diversificado programa de missionação e amparo espiritual dos cabo-verdianos (e demais compatriotas) que por lá labutavam, nomeadamente nos estados de Rhode Island, Connecticut, New Jersey e Massachusetts. Assim,  no dia 1, pelas 5 horas da tarde, teve início uma festa de despedida no St. Rose's Hall  de Boston. Na notícia que dela dava aviso desvendava-se um pouco do que haviam sido os interesses mais profundos daqueles tempos americanos para o sacerdote. É que ali tinha fundado a Liga de N.ª Sr.ª do Socorro, expressamente destinada a ajudar os mais necessitados de Cabo Verde. No programa da festa, para além de constarem uma sessão solene em que falariam várias pessoas amigas do homenageado, haveria exibição de filmes das ilhas de Cabo Verde e de Portugal (decerto os mesmos vistos antes), música e diversões e a indicação de uma colecta que reverteria para as obras de caridade de Cláudio Simões. Todas as associações de caritativas que haviam trabalhado com ele foram convidadas a enviar os seus representantes e conhecidas figuras locais constituíram a comissão que levou a efeito a homenagem: os advogados Roy F. Teixeira e António J. Cardoso e os senhores José S. Pina, António Aleixo e Teófilo L. Nunes. Uma despedida em grande, para o homem que dedicara quase dois anos à missionação entre as gentes de Cabo Verde na América.

 

Durante o mês de Maio de 1955, o Presidente da República Craveiro Lopes visitou Cabo Verde, sendo que a 24 esteve no Fogo. Antecipando esse facto, filhos da ilha do residentes nos estados de Nova Iorque, Rhode Island e Massachusetts, congregados no Portuguese-American Social Center de Boston, enviaram telegraficamente e por intermédio do padre Simões uma mensagem especial referente a esta ilha para ser apresentada durante a visita do Presidente. Era este o teor resumido da mesma: "Em virtude e conformidade deste mandato, em nome da Assembleia saudamos o Chefe do Estado Português, Exmo. Sr. General Craveiro Lopes, Exmo. Sr. Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues , Exmo. Sr. Governador de Cabo Verde, Dr. Abrantes Amaral , Exmo. Sr. Administrador da ilha do Fogo, Sr. Luís Silva Rendall e as dignas entidades locais. E ao mesmo tempo, em nome desta Assembleia, solicitamos no sentido de originar e impulsionar o fomento desta ilha, principalmente no que toca à construção de um cais acostável adequado às necessidades de transportes modernos ou a excavação de um canal no sítio de Boqueirão, que melhor ainda serviria o povo." Prosseguia a comissão com a referência à fidelidade da ilha à mãe pátria que nem os Filipes nem Napoleão tinham conseguido dobrar e acrescentavam: "A ilha do Fogo é a terceira em área do arquipélago  e a segunda das mais produtoras. O seu solo é fértil, o seu clima excelente, os seus filhos são patrióticos e trabalhadores. Merece melhor tratamento!".

 

Prosseguia a missiva com considerações semelhantes mas a exclamação anterior marcava o tom, com assinaturas de várias personalidades, entre as quais o advogado Roy Teixeira que as encabeçava e que por isso recebeu a resposta de Luís Rendall: "Suas Excelências o Presidente da República, o Ministro do Ultramar e o Governador da Província, muito apreciaram a mensagem de V. Exas., sensibilizando-os bastante a prova de patriotismo, pedindo que aceite e transmita à colónia cabo-verdiana os seus mais vivos agradecimentos, aos quais junto os meus próprios. Na sessão de boas vindas ontem realizada, Sua Ex.ª o Presidente da República teve palavras de apreço e simpatia para a mesma colónia." Em resumo, tratava-se de uma resposta diplomática e cheia… de nada.

 

Entretanto, o padre Simões desaparece dos registos que temos vindo a consultar, não tendo voltado à América, segundo supomos. Acaba por se mudar para o Mindelo onde vive alguns anos e, ao que parece, foi professor na Escola Técnica. Terá ficado na memória de cabo-verdianos da América e das ilhas pelo bem que fez e sobretudo na ilha do vulcão, ali também pela autoria do chamado "Hino do Fogo" ("Ilha do Fogo, terra ditosa, / recordo agora o teu passado; / ao som da morna quero cantar / tua beleza ao sol doirado"…) – que ainda hoje os naturais cantam.

 

Joaquim Saialmindelosempre@gmail.com

 

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2 comentários

De José F Lopes a 14.01.2014 às 19:49

O saudoso Padre Simões foi para mim uma
referência e para milhares de jovens mindelenses : meu professor de música homem
bom, jovial, dado ao convívio, convivia basicamente com a mocidade. Muito
participativo na vida cultural mindelense animava festa,  grupos musicais
diversos. Desde
pequenito conheci-o nos Salesianos do padre Filipe Padre valente Cristiano etc Sr
Domingos Sr Rudolfo e a minha primeira escola, nas missas nos cântico corais e
nos passeios que esta escola organizava. Padre Simões tinha uma voz que podia
partir um vidro de cristal.



Desapareceu de S. Vicente em 1974 e parece
que nunca mais voltou. Também nunca mais ouvi falar dele.



É das pessoas que merece ser homenageado pela
cidade do Mindelo. Do mesmo modo que todos os padres e irmão salesiano merecem
uma vibrante homenagem pelo marco deixado na cidade e em C Verde

De José F Lopes a 14.01.2014 às 19:51

onde se lê :
homenageado deve ler homenageadas


irmão salesiano deve-se ler irmãos salesianos

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