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"Imigrantes em Terra de Emigrantes"

Brito-Semedo, 19 Dez 10

 

 

1. Descodificados os sentidos do “i” e do “e”, antepostos ao termo “migrante”, de forma muito precisa e sintética pela Prof. Rocha-Trindade, Directora do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais, da Universidade Aberta, em que o primeiro prefixo indexa para o migrante a partir do início do percurso e o segundo o designa a partir do ponto de chegada, João Lopes Filho faz o estudo do complexo problema de interacção entre as sociedades postas em presença, a caboverdiana e a portuguesa, na perspectiva e na óptica do antropólogo que é, simultaneamente, luso e cabo-verdiano e que se situa na encruzilhada desses dois mundos e povos.

 

 

Tendo-se o fluxo emigratório para Portugal efectivado em vagas, em que a primeira foi nos anos sessenta, fala-se hoje de segundas e terceiras gerações, com todos os problemas e consequências que isso advém para a sociedade portuguesa que ainda não assumiu nem aprendeu a viver com essa realidade

 

De vez em quando, em rixas ou discussões acaloradas vem ao de cima a frase: “Vai para a tua terra!”. Em tendo de se efectivar isso seria muito fácil, simplesmente apanhar o cacilheiro ou o autocarro e passar para a “outra banda” (do Tejo!).

 

O objecto de estudo de João Lopes Filho centra-se nessas duas gerações, a dos pais, chegada a Lisboa antes da independência de Cabo Verde, nos idos de 1960, princípios de 70, e a que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, num horizonte que vai até à década de 80, e a geração dos filhos que acompanhou os pais ou familiares na sua vinda para Portugal ou a já nascida nas terras lusas e que nem sequer conhece a terra de origem dos pais.

 

De referir que para este horizonte temporal do estudo, ainda não se punha, pelo menos de forma tão acuidada, como viria a acontecer nos anos de 1990 e 2000, o agudizar dos problemas com essa juventude luso-caboverdiana.

 

2. Numa análise antropológica e literária o autor procura explicar, primeiro, a emigração no imaginário do cabo-verdiano para, de seguida, assentar no imigrante ido do meio rural de Santiago que se fixa na Grande Lisboa, “acompanhando-o” na sua luta pela sobrevivência perante as múltiplas dificuldades que tem de enfrentar numa sociedade que não se preparou minimamente na criação de infra-estruturas necessárias para o receber.

 

Trago, a propósito, a balada de Renato Cardoso, "Alto Cutelo", gravada em disco em 1987 pelo conjunto “Os Tubarões” (Aqui), que regista a situação vivida pelos emigrantes patrícios nesse período de finais de sessenta, inícios de setenta, cá e lá:

 

Na altu kutelu simbron dja ka tem (Dja seka)

Raís stikadu djob água, k’atcha (Dja seka)

Água sta fundo y ni omi ka tra-l (Dja seka)

 

Mudjer un sumana sê lumi ka sende (Na kasa)

Sê fidju, na strada só un ta trabadja (Pa dozi mirés)

Maridu dja dura qi bai para Lisboa (Kontratadu)

Pa bai pa Lisboa e bende sê terá (Metadi di presu)

 

Ali, el ta trabadja na tchuba, na bentu (Na friu),

Na KUF, na LISNAVI y na Jota Pimenta.

Mon d’obra baratu, pa mas ki trabadja (Serventi),

Mon dobra baratu, baraka sem lus, (Kumida a pressa),

Inda mas inganadu ki s’irmon branku (Sploradu /´Nganadu).

 

Permitam-me mais um parêntesis para, em duas penadas, fazer o reconhecimento ao artista plástico Manuel Figueira pela belíssima e expressiva pintura da capa e que é uma leitura pictórica das condições geográficas agrestes que empurram ou empurraram o homem caboverdiano para a emigração.

 

 

Chegado a Portugal, dizia eu, segue-se a crise de adaptação do emigrante caboverdiano sem instrução e sem qualificação profissional, sujeito à exploração nas obras de construção civil, num ambiente que lhe é adverso e numa sociedade que é pouco receptiva às diferenças e ao modo de vida não-português.

 

Segundo Lopes Filho, “esta é a razão pela qual a inserção do imigrante numa sociedade que lhe é adversa se torna, por vezes, conflituosa, resultando daí a tendência para criar mecanismos de defesa, isolando-se na busca da reafirmação da sua identidade, e só em último caso tenta integrar-se no novo contexto sociocultural” (pág. 79).

 

Diga-se, em abono da verdade, que certos sectores da imprensa não só não ajudaram como ainda criaram estereótipos pela maneira como noticiaram distúrbios, rixas ou quaisquer problemas que envolvessem caboverdianos, atribuindo-lhes fama de “brigões” e “faquistas”, que Lopes Filho classifica de “o estigma da faca”, descodificando-o.

 

3. Parte significativa deste trabalho de João Lopes Filho é dedicada aos problemas da chamada segunda geração de imigrantes, esta, na faixa de idade escolar, enfrentando problemas vários, desde a fraca socialização que os pais podem dar aos filhos, alimentação deficiente, vivência num ambiente fechado do bairro e da sua língua materna e outras coisas mais.

 

 

Segundo Lopes Filho, é na escola que se processam os primeiros contactos dessas crianças com a sociedade e cultura portuguesas. E do confronto dessas duas culturas resulta, a maior parte das vezes, um choque. Choque esse que leva, em última instância, ao insucesso escolar e à situação de viver entre duas culturas.

 

Acontece também que essas crianças são muitas vezes vítimas de segregação e marginalização, tanto por parte de colegas como por parte de adultos (professores e pais dos colegas). Por outro lado, ao ser “confrontado com as imagens negativas a ele associadas, o aluno vai desenvolver estratégias de defesa que o levam a escamotear a sua identidade” (pág. 105).

 

Enfim, são muitos os problemas vividos por essas crianças, aqui inventariados por Lopes Filho, que também procura avançar com propostas diversas no sentido da sua superação.

 

Já na parte final, Lopes Filho trata a questão de os filhos dos imigrantes se situarem entre duas culturas, no “fio da navalha”, ou seja, entre os valores da comunidade de origem dos pais e os da sociedade de acolhimento. Por vezes, esses valores entrechocam-se e a conciliação dos pontos de vista que lhes são transmitidos por esses dois pólos leva a conflitos de ordem psicológica.

 

 

O autor finaliza o seu trabalho rematando que “as diversas comunidades de emigrantes caboverdianos espalhados pelo mundo conservam no seu seio os mais representativos valores tradicionais, que funcionam, por vezes, como uma ‘defesa’ para fazerem frente ao meio hostil de alguns dos seus destinos” (pág. 231).

 

Contudo, Lopes Filho não termina sem antes se referir ao processo de divulgação da cultura caboverdiana quer através da música, da gastronomia tradicional, da contribuição dos intelectuais na diáspora como pintores, escritores, poetas e estudiosos da temática caboverdiana, quer ainda através das Associações na defesa e afirmação dos valores culturais caboverdianos.

 

Eis, em breves linhas, a minha leitura de Imigrantes em Terra de Emigrantes, livro que é particularmente rico em informação e da maior utilidade para quem tenha responsabilidades no domínio educacional e formativo em Portugal e em Cabo Verde.

 

- M.Brito-Semedo

 

Título: Imigrantes em Terra de Emigrantes

Autor: João Lopes Filho

Editor: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro

Ano da Edição: 2007

 

 

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6 comentários

De Redy Lima a 21.12.2010 às 00:34

Meu caro, os termos segunda e terceira geração parte de um erro epistemológico e está ultrapassado. Autores como Fernando Luis Machado ou António Concorda Contador há muito desconstruíram este conceito. Para eles, o conceito luso-africanos adequa-se melhor ao fenómeno, uma vez, que acabam por ter na sua construção identitária as duas realidades e visões do mundo. 

De observadora Lima a 21.12.2010 às 21:33

Emigracao ou imigracao eis a questao; qual e o grande dilema na Europa  a integracao ou a assimilacao do individuo imigrante!
O imigrante quer seja da 1e 2e 3e geracao quer aguardar a sua identidade dentro da sociedade ``multicultural `` que e uma realidade global! Todos os imigrantes tem direitos e deveres como novo cidadao no pais de acolhimento mas tambem tem de levar em consideracao as normas, valores e costumes dos outros cidadaos sem perder os seus! Aclimatisar numa sociedade MULTICULTURAL nao e assimilar-se!
O ditado; nunca te esquecas da tua raiz
Os paises de acolhimento precisam criar novos mecanismos e melhor chances de igualdade para que a integracao de imigrantes ocorra o melhor possivel! 

De Brito-Semedo a 23.12.2010 às 19:08

Minha Cara, Obrigado pelo comentário a este post e pelas excelentes observações! Votos de um Feliz Natal!

De Maria C. a 28.12.2010 às 15:08


A minha experiência como professora de uma escola secundária portuguesa, com uma razoável presença de alunos de todas as partes do mundo - mas também dos PALOP e, em particular, de Cabo Verde - indica que a "aculturação" destes imigrantes, que o autor denomina de segunda geração, é feita de forma natural e sem sobressaltos, na socialização diária com colegas, professores e funcionários. Fiz, precisamente, um estudo sobre essa população e constatei que a dificuldade de integração na nova sociedade se situa mais a nível dos progenitores. Aliás, como seria de esperar, considerando que os adultos já têm a sua personalidade formada e não dispõem de um ambiente especialmente integrador como é aquele do convívio entre pares que se estabelece nas escolas. Uma questão para investigar: Estarão os mais novos menos preocupados com a perda da sua identidade cultural e, por isso, se dão mais à socialização no país de acolhimento?

De Brito-Semedo a 28.12.2010 às 16:51

Maria C., obrigado pela leitura atenta e pela achega! A sua constatação, resultado de um estudo empírico realizado, é relevante para uma melhor reflexão sobre o Imigrantes em Terra de Emigrantes sobretudo no que toca aos descendentes afro-lusos. Votos de reconhecimento e apreço do Gestor do "Na Esquina"! Boas Entradas!

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